Crítica: Os Grandes Vulcões, direção Fernando Kinas

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Os Grandes Vulcões - Foto: Liênio Medeiros
Os Grandes Vulcões - Foto: Liênio Medeiros

A boa sobreposição entre realidade e não-ficção está presente em Os Grandes Vulcões, monólogo com Fernanda Azevedo. Num híbrido entre teatro, cinema e palestra, Fernando Kinas toma partido do discurso do escritor Harold Pinter (1930 – 2008) para criar sua dramaturgia forte, dura e esclarecedora.

Pinter foi um dos expoentes do teatro do absurdo, influenciado por Samuel Beckett (1906-1989), tendo como ponto de atenção as impossibilidades de comunicação da sociedade inglesa. Em 2005, o dramaturgo gravou um discurso ao receber o prêmio Nobel de Literatura e o intitulou de Arte, Verdade E Política.

Os Grandes Vulcões - Foto: Liênio Medeiros
Os Grandes Vulcões – Foto: Liênio Medeiros

A conferência propôs analisar a verdade no teatro para desembocar na política internacional protagonizada por Bush e Blair. Sendo tal prelúdio um assunto caríssimo e na ordem do dia nestes tempos de tantas fakenews e de guerras de narrativas. E a partir daí, que Kinas fratura os limites entre fingimento e realidade, próprios do teatro documentário, para construir um relato que se mistura com o discurso, desta vez de Azevedo, ao vencer o Prêmio Shell de Melhor Atriz, em 2013.

São diferentes camadas e questões trazidas nas exposições, justapostas em imagens do cinema e na trilha – também assinadas por Kinas. A contundência dos relatos ganha dramaticidade na concentração de Azevedo em cena, num perfeito reconhecimento de cada fala, apontamento e fatalidade.

Assim, mesmo sendo um texto extremamente denso, graças a direção e a interpretação a montagem escapa do que Pinter considerava assim: “Sermões tem que ser evitados a qualquer custo. A objetividade é essencial. Os personagens precisam respirar o próprio ar“. Portanto, felizmente sai-se do discurso engajado e, às vezes, proselitista demais, já que essa seria uma das possíveis fragilidades de Os Grandes Vulcões.

A estética também híbrida apoia-se no cenário de Julio Dojcsar e no figurino de Madalena Machado. Então, uma lousa de vidro e um grande globo terrestre vão destacando dados, informações e lugares. Enquanto fotos de autoridades mundiais e brasileiras arrematam a dramaturgia e trazem ironia.

Por fim, Os Grandes Vulcões ocupa-se de verdades, mentiras e, o que alguns filósofos resolveram chamar atualmente, de pós-verdade. Mesmo lá no discurso de Pinter, em 2005, antes mesmo de falarmos em bolhas, pois os algoritmos e as notícias em redes sociais ainda eram embrionários, percebe-se como a manipulação de informações, tornando-as visíveis ou não, é um mecanismo de poder.

Com certeza Pinter não imaginava no imbróglio que o mundo das fakenews e dos blogueiros do ódio iria tornar-se. Por isso, fique atento às próximas transmissões do Coletivo Comum, pois a montagem é um saudável exercício de validação da necessidade urgente de buscar a verdade. Afinal, “se essa vontade não estiver incorporada na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós: a dignidade do homem“. Palavras finais do discurso de Pinter!

Aguarde novas temporadas pelo site do Coletivo Comum.

FICHA TÉCNICA
Roteiro, pesquisa musical e direção geral: Fernando Kinas
Elenco: Fernanda Azevedo
Assistência de direção e de produção: Beatriz Calló
Cenário: Julio Dojcsar
Figurino: Madalena Machado (camiseta: o grupo)
Direção e edição de vídeo: Thiago B. Mendonça
Produção de vídeo: Renata Jardim
Fotografia de vídeo: Gabriel Ranzani
Som: Rafael Gonzaga Cunha
Iluminação: Clébio Ferreira
Assistência de iluminação: Gabriele Souza
Cabelo: Christian Mourelhe
Programação visual: Camila Lisboa
Fotos de divulgação: Liênio Medeiros
Produção: Daniela Embón

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