Crítica: Os Fins do Sono, direção Francisco Turbiani

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Se o capitalismo foi capaz de tornar qualquer ação humana em um produto, inclusive o lazer, o sono, até agora, é o único espaço não comercializado. Nessa perspectiva, a peça Os Fins Do Sono, com direção de Francisco Turbiani, do Coletivo Cardume, inspira-se no polêmico livro de Jonatham Crary para apresentar a distopia: um lugar sem noite.

Os Fins do Sono - Foto: Rrancisco Turbiani
Os Fins do Sono – Foto: Rrancisco Turbiani

A dramaturgia de Luis Felipe Labaki retrata uma cidade iluminada 24 horas, por meio da reflexão dos raios solares numa cadeia de satélites. Assim, seus moradores trabalham o tempo todo, ininterruptamente e passam a embaralhar as referências como hora de dormir, jantar e assim por diante. O texto teve uma primeira versão montada em 2015, no Teatro Vertigem.

O recorte narrativo acontece no home-office de três personagens interpretadas por Juliana Valente, Marô Zamaro e Pedro Massuela. Empregados de uma seguradora, passam a receber pedidos de indenização, originados no trabalho e na relação midiática excessiva. Tudo isso proposto a partir das provocações do livro 24/7 – Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, de Crary.

Com atores em lugares diferentes, e suscetíveis aos problemas próprios da internet pessoal e de quem assiste, Turbiani constrói uma encenação acertada. Explora o recorte da câmera e constrói uma estética verossímil, que dialoga com a dramaturgia.

Com um pouco menos de uma hora, a narrativa central é entrecortada com os relatos de pedidos de seguro, apresentados pelos desenhos do artista plástico e ilustrador Roberto Zink.

A originalidade da direção está em reconhecer e explorar as possibilidades do teatro on-line, no enquadramento reduzido da filmadora. O que contrapõe diretamente com a cena teatral, aberta e grandiosa, já que alguns encenadores, nesta fase das apresentações remotas, tentam repetir equivocadamente a ampla caixa cênica para as telas. Então, se pegam em problemas de captação de som e imagens contorcidas na transmissão digital.

Aqui também há um apropriado preparo do elenco para essa minimização. Valente, Massuela e Zamaro mostram-se conscientes tanto do contorno de suas personas, como das necessidades técnicas e de contrarregragem para a criação da cena.

Completam a estética, a iluminação também de Turbiani, a sonoplastia eficiente de Labaki e os figurinos de Murilo Rangel. Portanto, há uma construção fotográfica e plástica tolerável ao espectador impaciente e cada vez mais cansado nestes tempos de reclusão.

Os Fins do Sono é uma importante reflexão dos meandros do capitalismo e ganha ainda mais potência nesses tempos de pandemia da Covid-19, incluindo o home-office uma das poucas possibilidades de empregabilidade. Assim, a mistura entre vida privada e laboral é um traço constante neste formato.

Portanto, as distopias sempre têm esse efeito catártico de nos conduzir às fragilidades e precariedades das nossas escolhas como sociedade. E Os Fins do Sono aponta para essa nossa busca incessante pelo sucesso e a produtividade, que tem gerado mais pessoas deprimidas e com distúrbios no sono. E, sem dúvida, tornando poucos mais ricos e muitos mais pobres e doentes.

Serviço
De 19 de março a 09 de abril – às sextas, aos sábados e aos domingos, às 20h. (Clique aqui para acessar a agenda do canal)
Ingressos: gratuitos e por contribuição livre
Venda/reserva de ingressos online pelo site sympla.com.br/osfinsdosono
Indicação Etária: 12 anos

FICHA TÉCNICA
Atuantes: Juliana Valente, Marô Zamaro e Pedro Massuela
Direção artística: Francisco Turbiani
Dramaturgia: Luis Felipe Labaki
Desenhos ao vivo: Roberto Zink
Iluminação: Francisco Turbiani
Sonoplastia: Luis Felipe Labaki
Figurino: Murilo Rangel
Realização: Coletivo Cardume de Teatro

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