Crítica: O que Ficou para Trás, direção de Remi Weekes | Blog e-Urbanidade

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O que Ficou para Trás - Foto: Divulgação Netflix
O que Ficou para Trás - Foto: Divulgação Netflix
O que Ficou para Trás – Foto: Divulgação Netflix

Muito além de animais horrendos e jump scares: em um mundo cada vez mais intolerante e destrutivo, o cinema de terror se transformou em um instrumento para debater temas atuais. É preciso ter isso em mente na hora de assistir O que Ficou para Trás, filme de estreia de Remi Weekes como roteirista e diretor, que está disponível na Netflix.

O longa passa longe das tramas escapistas sobre demônios e fantasmas que são sucesso em Hollywood. Na verdade, aqui o que funciona é justamente o oposto: a produção apenas se disfarça de filme de terror, para passar uma mensagem muito mais profunda e complexa.

O que Ficou para Trás conta a história de Bol (Sopé Dìrísù) e Rial Majur (Wunmi Mosaku), um casal de refugiados que se abriga no Reino Unido após fugir dos conflitos no Sudão do Sul. Depois de passarem um tempo em detenção, os dois são enviados para uma casa no subúrbio, onde enfrentam não apenas a xenofobia dos humanos, mas também a presença insistente de uma entidade sobrenatural.

Casas mal assombradas estão longe de ser novidade em filmes de terror. Esse é um clichê certeiro, que funciona há décadas – afinal, há algo de fascinantemente assustador em ser incomodado por um espírito no local em que nos sentimos mais protegidos.

O que Ficou para Trás - Foto: Divulgação Netflix
O que Ficou para Trás – Foto: Divulgação Netflix

A grande questão que torna O que Ficou para Trás tão singular, é que essa proteção não existe. Bol e Rial estão em um país novo, convivendo ou com ingleses hostis ou condescendentes, e tentando se acostumar com costumes que não são os seus.

A casa, cedida pelo governo, não é deles, é um lugar abandonado que não se parece com um lar. E o pior: é um lugar do qual Bol e Rial não podem sair, ou serão deportados. É ser assombrado por uma entidade em uma casa estranha, ou voltar para o lar, também desolado pelos conflitos do mundo real.

Apesar de não ser baseado em fatos reais (outra vertente do horror bastante famosa hoje em dia), O que Ficou para Trás consegue retratar com muita honestidade o drama dos refugiados ao redor do mundo. Desde o momento da fuga e os vários desafios da travessia, até a chegada aparentemente feliz em uma nova terra.

Nada disso é celebrado no filme, que foge dos clichês hollywoodianos de superação das dificuldades. Bol e Rial não são vencedores porque escaparam do conflito no Sudão. São pessoas que viram de perto o pior da humanidade, e que são tratados como indesejáveis até na terra onde pensam ter encontrado um lar.

Não há glamour em ser um refugiado e não há aplausos pela história de superação. O que existe é o preconceito velado, a xenofobia escancarada e a sensação constante de não pertencimento. E até a tristeza e a saudade da terra natal precisam ser escondidas, pois são encaradas como ingratidão pelos anfitriões. É como entrar em uma casa onde não se gostaria de estar, sem ser convidado, onde não é bem visto se sair de lá. O que Ficou para Trás trata magistralmente do beco sem saída dos exilados.

E essa sensação de não pertencimento não vem só de fora, ela também vem de dentro. Os refugiados não se vêm como vencedores. Afinal, venci, mas a que custo? Como apagar da memória os corpos que foram deixados pelo caminho, de pessoas que não tiveram a mesma sorte que eu? Será que sou digno de ter tido essa chance de sobreviver?

O que Ficou para Trás - Foto: Divulgação Netflix
O que Ficou para Trás – Foto: Divulgação Netflix

O horror do filme fica por conta de um bruxo maligno que segue o casal até o Reino Unido e promete devolver uma pessoa amada caso eles voltem para o Sudão. A figura, apesar de assustadora, representa a culpa dos sobreviventes, e a sensação de traição por ter abandonado a terra natal.

O terror, aqui, é apenas um condutor para mostrar ao telespectador o quanto a vida real é mais assustadora do que entidades paranormais. Além disso, o horror é usado como metáfora para os vários fantasmas reais, imaginários e abstratos, que nos cercam durante toda a vida.

Mas não se engane: ao falar sobre a complexidade de O que Ficou para Trás, muitas pessoas podem achar que o longa é difícil, que não foi feito para todos os públicos.

Ao contrário de longas como Mãe!, que tentam ao máximo complicar a narrativa, aqui a ideia de Weekes é justamente o oposto: ele sabe o valor da mensagem que está passando e quer que você a entenda. Então a mensagem é clara, o soco no estômago vem sem que você possa se esconder.

O que Ficou para Trás - Foto: Divulgação Netflix
O que Ficou para Trás – Foto: Divulgação Netflix

Existem, sim, metáforas e acontecimentos que podem ser vistos com duplo sentido. Afinal, é um terror psicológico de qualidade e que entretém os aficionados pelo gênero. Espere muita tensão, alguns jump scares e figuras assustadoras.

Com 100% de aclamação no Rotten Tomatoes, O que Ficou para Trás é facilmente o melhor filme de horror de 2020. Figura ao lado de sucessos como Corra! e A Bruxa. De um jeito assustador, complexo e sensível, o drama de Remi Weekes mescla críticas sociais pesadas com um reflexão sobre a culpa carregada pelos sobreviventes.

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