Crítica: O Ovo de Ouro, direção Ricardo Grasson | Blog e-Urbanidade

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Ovo de Ouro - Foto: Leekyung Kim
Ovo de Ouro – Foto: Leekyung Kim

Talvez uma das figuras mais inquietantes dos terríveis anos de Holocausto sejam dos sonderkommando – ou comando especial. Formado por judeus, eles trabalhavam nas câmaras de gás e nos crematórios, ajudando os nazistas na aniquilação do seu próprio povo. Essa posição de conflito e terror é retratada na peça de teatro O Ovo de Ouro, cartaz no Sesc Santo Amaro, com texto de Luccas Papp e direção de Ricardo Grasson.

A montagem também comemora os 80 anos de vida do ator Sérgio Mamberti, que divide a personagem Dasco com o dramaturgo e ator Papp. Assim, são retratadas as memórias, os horrores e a expiação numa dramaturgia não linear, ora factual, ora delirante.

Papp é um ator jovem (inclusive esteve na #MinhaLista 1/2019, Ator Coadjuvante, pela sua atuação em Nunca Fomos Tão Felizes, de Dan Rosseto) e destaca-se como dramaturgo de boas possibilidades. Seu grande feito está em atualizar e transpor a narrativa da Segunda Guerra Mundial para esses dias contemporâneos, em que condutas descriminatórios e de superioridade étnica voltam à baila.

O texto é criado a partir de cenas curtas, em que acontecimentos são vistos e revisitados em diferentes momentos. Dessa forma, o fechamento proposto soa confuso, mas não deixa de ser singular.  E ai, a direção traz uma síntese imagética dos anos de terror que choca (e emociona) e tira o foco da solução metafísica do dramaturgo.

Segundo Grasson, “como encenador, entendo que a cenografia, o figurino, a iluminação, a trilha sonora não são panos de fundo ou cama para um espetáculo, juntos eles atuam concretamente fusos ao texto, formando assim uma narrativa dramatúrgica única”.

Ovo de Ouro - Foto: Leekyung Kim
Ovo de Ouro – Foto: Leekyung Kim

Sendo assim, funcionam a cenografia em tons de concreto, inspirada em Bahaus, de Kleber Montanheiro; o desenho de luz marcante de Wagner Freire; e, figurinos e adereços de Rosângela Ribeiro. Completam o universo, o desenho de som e a trilha sonora original de L.P. Daniel que leva o assistidor para um lugar espetral, com vozes e sons espelhados pela sala de espetáculo.

Grasson também consegue explorar os atores nas suas diferentes nuances e momentos. Leonardo Miggiorin e Rita Batata são corretos no sufocamento de suas personagens. Ando Camargo tem a sanguinolência necessária, porém passa, em poucos momentos, da linha do caricato. Papp traz complexidade e consegue alcançar a dramaticidade precisa na cena final. E, por fim, ver Mamberti em cena é sempre um privilégio e magnetiza o assistidor.

Assim, O Ovo de Ouro não é apenas uma história datada, é sim sobre os dias de hoje. “Em tempos de pouco diálogo, imposição de ideias e ideologias, censura e extremismos é fundamental debatermos esses temas tão duros e atrozes para que os erros que provocaram tanto sofrimento no passado não se repitam“, conclui o diretor.

Não há redenção para Dasco. Não há perdão para a intolerância e o terror nazista. E no discurso nacionalista de Hitler e no olhar do comandante alemão Weber possamos examinar o presente. E assim, perceber que cuspir em um taxista negro ou matar jovens periféricos, dia a dia (ou num baile funk), seja nosso genocídio diário. Será que somos sonderkommandos quando assistimos a tudo isso calados?

Não deixem de ver. (E novas temporadas em 2020 virão!)

Serviço
Temporada de 2020:
De 31 de janeiro a 1º de março – Sextas e sábados às 20h. Domingo às 19h.
Indicação Etária: 14 anos.

De 21/11 a 15/12 – Quinta e Sexta, 21h. Sábado, 20h; domingos, às 18h.
Indicação Etária: 14 anos.

Ficha Técnica

Texto: Luccas Papp.
Direção: Ricardo Grasson.
Elenco: Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo e Luccas Papp.
Voz em off: Eric Lenate.
Cenografia e visagismo: Kleber Montanheiro.
Desenho de Som e Trilha sonora original: L.P. Daniel.
Desenho de luz: Wagner Freire.
Figurinos e adereços: Rosângela Ribeiro.
Assistente de Direção: Heitor Garcia.
Assistente de Figurino: Eduardo Dourado.
Aderecista: Ronaldo Dimer.
Costureiras: Vera Luz e Noeme Costa.
Alfaiataria: JC.
Produção: LPB Produções e NOSSO cultural.
Direção de produção: Ricardo Grasson.
Produção Executiva: Laís Bittencourt e Heitor Garcia.
Gestão de Projeto: Lumus Entretenimento.

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