Crítica: O Arquiteto E O Imperador Da Assíria, direção Cesar Ribeiro

Montagem atualiza texto do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, com Eric Lenate e Helio Cicero, no Centro Cultural São Paulo.

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O Arquiteto e o Imperador da Assíria - Foto: Bob Sousa
O Arquiteto e o Imperador da Assíria - Foto: Bob Sousa

O dramaturgo Fernando Arrabal é um dos representantes do movimento chamado de Teatro da Crueldade. Em 1966 escreveu O Arquiteto E O Imperador Da Assíria e agora é montada pelo diretor Cesar Ribeiro. O novo cartaz do Centro Cultural São Paulo explora o encontro desses dois solitários, perdidos numa ilha deserta, observados sobre o viés da violência imputada pela linguagem.

A fábula relata o encontro do Arquiteto, um aborígene que tem sua existência, linguagem e memória alteradas com a chegada do Imperador, após um desastre aéreo.

A dramaturgia propõe uma jornada de jogos eloquentes entre cultura, civilização e poder. O teorema de Arrabal é que a memória e os saberes integram uma certa visão de mundo, imposta por alguém que se define como superior. Configurada, então, na estética, ética e moral de tal sociedade.

Além da construção da linguagem, há o processo de formação do Estado e do conhecimento de toda a estrutura social, em que entram conceitos como política, religião, família, relações afetivas, artes, filosofia e a própria noção de humano“, explica Ribeiro

O encenador não economiza tintas para explorar e aprofundar as características do Teatro do Absurdo, numa estética dura, escura e asfixiante. A ilha nada paradisíaca e devassada reforça o desalento das personagens e como o colonizador apenas se interessa por dominar, mesmo diante da escassez. Destruir e imperar são os verbos impositivos de todo colonizador!

É preciso dizer que o universo proposto por Ribeiro soa real e vincula-se com a necropolítica dominante na atualidade. A cenografia lapidada por J. C. Serroni e os figurinos puídos de Telumi Hellen relacionam-se com o Brasil inóspito que vivemos no presente.

Ainda nesta plástica cruel e tons impetuosos, o encenador vale-se da luz eficiente de Aline Santini e, de uma das melhores trilhas desta temporada, puro heavy metal, de Raul Teixeira, Mateus Capelo e Ribeiro. E que cabe dizer, depois da estreia, precisa ter o volume altíssimo acertado para melhor conforto do assistidor, desde que tal incômodo não seja intencional.

A primeira montagem de O Arquiteto E O Imperador Da Assíria no Brasil foi em 1970, com direção de Ivan de Albuquerque e no elenco Rubens Corrêa e José Wilker. Agora Eric Lenate e Helio Cicero assumem suas personas com traços expressionistas. Extremamente imersos nos jogos das cenas, tanto da dramaturgia, quanto do encenador, ambos estão notáveis em cena. Divertem-se, sofrem, lutam e dominam.

Para reforçar o universo distópico, a direção propõe aos atores o uso de voz não natural, estrangulada e alterada. É verdade que a escolha colabora na composição do cosmo, mas prejudica a compreensão de algumas falas pela plateia, o que talvez possa ser resolvido no decorrer da temporada.

Segundo o programa de O Arquiteto E O Imperador Da Assíria, a montagem é uma tentativa de resgatar o humano, diante do autoritarismo e individualismo que dominam o mundo, o Brasil, quiçá, a nossa vizinhança. A fábula dos dois perdidos nesta ilha incomum trata sobre os mecanismos de agressão e barbárie de nossa dita civilização.

Também tem um valor didático em mostrar como as verdades (e não verdades ou pós-verdades) podem ser difundidas e criadas numa sociedade. Assim, é possível perceber que crenças como “uma menina não deve usar roupas curtas” até a mensagem bíblica de “peca o homem que deita com outro homem” são construções sociais proferidas por um grupo que, em algum momento, anunciou o que era civilizado e certo, a partir do que lhe convinha.

Ainda é preciso dizer que Ribeiro propõe um final diferente do original e que dialoga muito com o pensamento de Paulo Freire. Afinal, a educação e a cultura quando não é libertadora, o desejo do oprimido, sem dúvida, é de um dia virar opressor.

Não deixem de ver!

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

Confiram a exposição Lamento das ImagensAlfredo Jaar que vai até o dia 05/12/2021, no Sesc Pompéia. O emblemático artista chileno, com curadoria de Moacir dos Anjos, apresenta reflexões sobre o controle social e a manutenção de desigualdades pela política das imagens. A mostra integra a rede de parcerias da 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro Mais Eu Canto – e os espaços impressionam tanto pela escala física, quanto pela contundência das fotografias. O curador Moacir foi entrevistado no episódio #45 – Violências do Rolê Urbano.

Sombras| 2014, Instalação Multimídia | Cortesia Galeria Luisa Strina, São Paulo e do artista, Nova York
Sombras| 2014, Instalação Multimídia | Cortesia Galeria Luisa Strina, São Paulo e do artista, Nova York

Serviço
De 24/09 a 24/10. sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h.
Indicação etária: 16 anos.
120 minutos

FICHA TÉCNICA
Texto: Fernando Arrabal
Direção, tradução e adaptação: Cesar Ribeiro
Elenco: Eric Lenate e Helio Cicero
Direção de produção: Kiko Rieser
Cenário: J. C. Serroni
Desenho de luz: Aline Santini
Figurinos: Telumi Hellen
Preparação de atores: Inês Aranha
Sonoplastia: Raul Teixeira e Mateus Capelo (efeitos sonoros) e Cesar Ribeiro (músicas)
Visagismo: Louise Helène
Assistência de direção:  Andre Kirmayr
Assistência de produção: Jaddy Minarelli
Arte gráfica: Patrícia Cividanes
Fotos: Bob Sousa
Registro em vídeo: Nelson Kao
Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Marcia Marques

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