Crítica: Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante – direção Gabriel Fontes Paiva | Blog e-Urbanidade

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Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante - Foto: Sérgio Silva.
Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante - Foto: Sérgio Silva.
Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante - Foto: Sérgio Silva.
Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante – Foto: Sérgio Silva.

Após Contrações e Love, Love, Love é a vez de Yara de Novaes e Debora Falabella se encontrarem no Km 23, de uma estrada qualquer, em Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Sob o comando do encenador Gabriel Fontes Paiva e texto de Silvia Gomez, o asfalto à beira de uma aeroporto é a arena de junção de uma policial rodoviária e uma garota que delira após ser violentada por um grupo de homens.

Gomez acredita que boas dramaturgias são gestadas neste esgotamento das pessoas, “em geral, encontro personagens em situações de limite pessoal, emocional, às vezes físico“, arremata.  Então, é nesse lugar das convenções interrompidas que se encontram L, personagem de Falabella, estuprada nas primeiras cenas, com a Vigia do Km 23, interpretada por Novaes.

O lugar abandonado, perto de um aeroporto e onde outras meninas foram também violentadas, é tenebroso, mas também é etéreo. Diferentes metáforas podem ser propostas sobre o local, porém parece que o texto de Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante aposta num espaço de redenção, talvez um purgatório ou, quem sabe, daquele de empatia, de ninguém-solta-a-mão-de-ninguém.

O universo intangível é encenado a partir de elementos do teatro pós-dramáticos, acompanhado pela banda boliviana Las Majas, promovendo quebras, distanciamentos, aproximações e, por fim, reflexão. Assim, o feminicídio e a opressão contra a mulher são tratados com potência, sendo a noite brilhante a possibilidade de lirismo diante deste mundo louco.

O público é recebido pelo elenco em aquecimento, com exercícios de alguma luta oriental. De modo que é preciso lutar e coragem, como determinam as atrizes antes do jogo cênico iniciar. Diante do estupro de uma mulher a cada dez minutos no Brasil, não há dúvida que o que vem pela frente não é fácil. Trata-se de dominação e resistência, de conflito e poder. Mesmo que as estatísticas revelam aumento considerável nos últimos tempos, a violência à mulher é praticada pela humanidade há séculos.

Fontes usufrui das intimidade e afinidade de Falabella e Novaes em cena. Assim, ambas conseguem alcançar diferentes facetas e acessar sentimentos numa comunicação imediata com assistidor. Também o encenador constrói uma estética eficaz e que colabora com a dramaturgia. Destaque para a cenografia de André Cortez, o vídeo cenário de Luiz Duva, trilha sonora e arranjos de Lucas Santtana e Fábio Pinczowisk.

Ainda vale chamar atenção para a iluminação de André Prado e Gabriel Paiva operada em cena e que dialoga com a montagem. Aqui o trabalho coletivo funciona, amplia o universo e corrobora com o delírio das personagens.

Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante tem a capacidade de tocar em problemas estruturais, mas com um olhar poético. Mesmo que seja quase impossível criar lirismo diante da dura concretude da realidade, o olhar da montagem, cartaz no Teatro Anchieta, não é hermética ou pasteurizada. É confronto, a partir de uma narrativa dramática, não esquemática, ávida por diálogo, afinal uma boa história é a melhor maneira de convencer alguém.

SERVIÇO
De 23/08 a 06/10, sexta a sábado, às 21h, e domingos, às 18h
Indicação Etária: Não recomendado para menos de 16 anos

FICHA TÉCNICA
com Débora Falabella e Yara de Novaes
Texto: Silvia Gomez
Direção: Gabriel Fontes Paiva
Banda Las Majas: Mayarí Romero, Lucia Dalence, Lucia Camacho e Isis Alvarado, além do diretor Marvin Montes
Cenografia: André Cortez
Vídeo Cenário: Luiz Duva
Figurino: Fabio Namatame
Iluminação: Gabriel Fontes Paiva e André Prado
Trilha sonora original: Lucas Santtana e Fábio Pinczowisk
Assistência de direção: André Prado e Ana Paula Lopez
Assistente de Cenário e produção de objetos: Carol Bucek
Assistente de Figurinos: Juliano Lopez
Preparadora Vocal: Ana Luiza
Preparadora e direção de movimento: Ana Paula Lopez
Oficinas: Dione Carlos
Workshops: Maria Thais
Direção de Palco: Diego Dac
Operação de Luz e vídeo: André Prado
Operação de Som: Thiago Rocha
Design de Som: André Omote
Cenotécnicos: Alexandre da Luz Alves e Murilo Alves
Assistência de Produção: Cadu Cardoso e Letícia Gonzalez
Assistente administrativo: Rogério Prudêncio
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio e Sesc
Identidade Gráfica: Patrícia Cividanes
Fotos de material gráfico e divulgação: Fábio Audi
Gestão de Projeto: Luana Gorayeb
Direção de Produção: Jessica Rodrigues e Victória Martinez
Produção: Contorno Produções e Fontes Realizações
Grupo 3 de Teatro: Débora Falabella, Gabriel Fontes Paiva e Yara de Novaes
Realização: Sesc SP, 9º Prêmio Zé Renato, Secretaria da Cultura

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