Crítica: Mulheres Sonharam Cavalos, direção Malú Bazán

Mulheres Sonharam Cavalos é do dramaturgo argentino Daniel Veronese e trata dos reflexos violentos da ditadura militar na Argentina.

0
21
Mulheres Sonharam Cavalos - Foto: Cassandra Mello
Mulheres Sonharam Cavalos - Foto: Cassandra Mello

A ditadura militar e suas consequências são temas recorrentes e um ponto de atenção na dramaturgia do argentino Daniel Veronese. Dessa vez, o horror de crianças extirpadas dos seus pais militantes é o pano de fundo de Mulheres Sonharam Cavalos, dirigido por Malú Bazan.

Três irmãos e suas esposas encontram-se na casa de um deles, enquanto memórias e acontecimentos vão destemperando as relações. Tudo começa quando Ranier (Bruno Perillo) conta a todos do roteiro escrito pela esposa, Ulrika (Rita Pisano), em que a personagem observa um pelotão pela janela e “lá fora há um desfile de policiais equestres sobre seus cavalos“.

Então, os diferentes tipos e reflexos da violência visível e invisível, reforçadas nos governos ditatoriais, vão sendo expostos. Vem à tona lembranças, corpos, livros de receitas desaparecidos, amores negados, treino de boxe, marcas, mágoas e desejos escusos.

Mulheres Sonharam Cavalos - Foto: Cassandra Mello
Mulheres Sonharam Cavalos – Foto: Cassandra Mello

Veronese aplica-se numa dramaturgia que escapa da estrutura dramática. Vai do calor do encontro aos trechos épicos de Lucera (Erica Montanheiro), personagem de apenas vinte anos e casada com o irmão mais velho, Ivan (Gustavo Trestini).

Por sua vez, o atlético e mais jovem irmão, Roger (Haroldo Miklos), vive uma relação conflituosa com Bettina (Anna Toledo), sua esposa que tem vinte anos a mais. Além dela trazer as inseguranças sociais de uma mulher madura, eles são os anfitriões e o sumiço de um pônei dado por Ranier torna-se em certa altura uma rixa entre os casais.

O diretor e doutor André Carreira* afirma que Mulheres Sonharam Cavalos deve ser visto, lido e analisado além do recorte dos períodos duros das ditaduras. “Não se deve ler o texto a partir desse momento histórico por que a situação pode ser transpassada a outros contexto. Isso permite que o público possa reconhecer nos aspectos desta família os que lhe são comuns, que pertencem ao nosso cotidiano e por isso mesmo são como visitas aos fantasmas.”

Por isso, a personagem Lucera conclui: “Existe só uma forma de violência? Existe uma nova violência no ar. E agora? É acreditar ou explodir.” E aí, o fim proposto pelo dramaturgo parece ir num caminho ora pessimista ora combativo, já proposto amplamente no cinema. Por exemplo, em Bastardos Inglórios (2009), Relatos Selvagens (2014) e Bacurau (2019). Talvez na telona as reparações sanguinolentas tenham efeitos melhores.

A encenadora coloca os três casais sempre em cena, em embates constantes entre corpos e diálogos e ininterruptamente em destabilidade. A exaustão parece ser uma busca constante de Bazán. E completa: “Minha encenação nasce do encontro da minha história com as palavras sonhadas de Veronese, a vivência-memória da violência que nos cerca e compõe, a experiência dessa violência percebida e registrada no corpo dos atores e em cada um de nós que sonhamos essa peça juntos e que decidimos colocar essa poesia da violência em cena“.

Parece que a inquietação, o algo sempre por fazer, as correrias no palco, as marcações rígidas e as sequências “partiturizadas” por físicos, textos e elementos do cenário mostram o excesso de estímulos do mundo contemporâneo. Assim, tudo é urgente e corrido, motivo suficiente para nada fazer contra o status quo. Não dá tempo!

A trilha sonora de Bazán e Perillo colabora no ritmo. Os figurinos de Anne Cerutti criam camadas aos personagens e intérpretes e destroem de vez qualquer ilusionismo. A cenografia também é assinada por Cerutti e o desenho de luz é de Miló Martins.

Por sua vez, o elenco mostra-se extremamente consciente de suas personagens e, principalmente, de todo o aparato físico e incansáveis marcações. Mesmo que seja injusto destacar um ou outro, Montanheiro é certeira e lírica ao impregnar sua Lucera de desconforto, dor e golfa a violência trazida em cada fala e ação visível ou invisível.

Mulheres Sonharam Cavalos também tem algo a dizer no título. Segundo Carreira, “é um título que nos deixa uma sensação de algo incompleto. Há ali um elemento inacabado. Algo a ser construído ou impossível de ser terminado“.

Inacabadas ficaram famílias, jornadas, sonhos e histórias. A violência tem esse efeito de calar quem quer falar, interceptar quem quer ir, criticar impiedosamente quem quer ser autônomo, não educar o cidadão e matar o revolucionário.

Sim! A brutalidade não foi criada na ditadura militar argentina, chilena, venezuelana, brasileira e assim por diante. Fez parte do processo colonizador na América Latina, executada por homens brancos e europeus, fortemente amparados pelas religiões eurocêntricas.

Pode se dizer, ainda, que o efeito violento e catártico proposto por Veronese vai além do olho-por-olho. Diante das famílias separadas, milhares de pessoas mortas e crianças sequestradas de seus pais, a resposta aos truculentos não pode ser necessariamente de paz-e-amor.

Por isso, Lucera e os movimentos revolucionários mostram que esse rompimento não pode ser considerado violento. Na verdade, atitudes de aniquilamento propõem a efetiva construção de um futuro que não seja mais de selvageria. Então, Mulheres Sonharam Cavalos torna-se necessário e pedagógico.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

No texto fizemos várias referências ao cinema e o diretor norte-americano Quentin Tarantino é quem parece mais ter usufruído dessa vertente da latência. Termo usado para a manifestação narrativa e também estética similar ao passado traumático de seus personagens, implantado pelo opressor.

Daí, Marighella, filme de estreia de Wagner Moura, reavive os movimentos guerrilheiros como uma forma de resistência e de latência contra a ditadura brasileira. Pensar em Mariguella e Lucera por esse viés parece válido.

Marighella - Foto: Ariela Bueno
Marighella – Foto: Ariela Bueno

Ouça o episódio 45 – Violências do Rolê Urbano. Além de tratar do tema-título, tem livros, séries, filmes, documentários e teatro. O dramaturgo Samir Yazbek e o ator André Garolli falam da peça Tectônicas. O curador Moacir dos Anjos conta sobre a exposição Lamento Das Imagens que está no Sesc Pompéia. Dois programas imperdíveis e que estão bem no final da temporada.

Serviço
De 13 de novembro a 06 de dezembro, de quinta a segunda, às 20h15.
14 anos.
80 minutos.
Gratuito

Ficha Técnica
Texto de Daniel Veronese. Tradução e Direção de Malú Bazán. Elenco: Anna Toledo, Erica Montanheiro, Rita Pisano, Bruno Perillo, Gustavo Trestini e Haroldo Miklos. Trilha Sonora: Malú Bazán e Bruno Perillo. Cenário e Figurinos: Anne Cerutti. Desenho de Luz: Miló Martins. Fotografia: Cassandra Mello. Operação de Luz e Som: Guilherme Soares. Assistência de Produção e Figurino: Marcelo Leão. Produção: Anayan Moretto

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here