Crítica: Morte E Vida Severina, direção Elias Andreato

A mais popular obra de João Cabral de Melo Neto retorna ao Teatro Tuca, local em que estreou, em 1965. A direção musical é de Marco França.

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Morte E Vida Severina - Foto: João Caldas
Morte E Vida Severina - Foto: João Caldas

Morte E Vida Severina, poema dramático de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), volta ao mesmo palco, no Teatro Tuca, depois de quase sessenta de sua estreia. Agora a direção geral da adaptação é de Elias Andreato e musical de Marco França. E Severinos e Severinas retomam às suas jornadas fortes e poéticas, atualizadas por novas (ou velhas) adversidades dos migrantes nordestinos que buscam uma existência mais digna nas grandes cidades.

Morte e Vida Severina nos palcos

Publicado em 1955, Morte E Vida Severina é um auto em que relaciona a odisseia de Severino, um retirante nordestino, ao nascimento de Cristo. Em 1965, o poema recebeu uma adaptação musical do então jovem músico Chico Buarque de Holanda e direção de Silnei Siqueira (1934- 2013) e Roberto Freire (1927-2008).

Sábato Magaldi (1927-2016), numa crítica à montagem do diretor Eduardo Curado, em 1977, escreveu que “o segredo inicial do sucesso de Morte e vida está na perfeita fusão entre o poema e a música. Se a composição cabralina foge dos esquemas tradicionais da dramaturgia, a música de Chico Buarque – uma de suas primeiras obras-primas, por assim dizer, cria o charme da montagem e filtra a altíssima poesia em encantamento sonoro“.*

João Cabral de Melo Neto para hoje

Com 13 atores e atrizes e cinco músicos, a estiagem mítica de Cabral de Melo Neto atualiza-se na encenação de Andreato. O sertão expande-se do conceito de ser apenas uma localidade para um estado de espírito.

Assim, pode-se estar naquele lugar datado de poucas possibilidades das décadas do êxito do povo nordestino para os grandes centros, como também é sobre a aridez de oportunidades e a pobreza nas atuais metrópoles e megalópoles, potencializadas pela recente pandemia da covid-19.

Revisitar essa obra em um momento tão difícil e desafiador é dar voz aos tantos Severinos espalhados pelo país, que não fogem só da seca, mas do preconceito, da fome, da exclusão, da marginalização”, completa a produtora Selma Morente.

Estética

Desse modo, o grande Sol de Elifas Andreato, cenógrafo do espetáculo e recentemente falecido, pode ser a estrela central do sistema Solar, como pode ser o capitalismo tão intrépido e firme. Determinante na desigualdade e que privilegia mais a “morte matada” do que a “morte morrida” dos desprovidos.

Ainda os figurinos de Fabio Namatame levam o assistidor tanto para o sertão nordestino, dos chapéus de couro, quanto o da aridez presente logo ali, na miséria das pessoas em situação de rua, de roupas desbotadas, nas calçadas da cidade. Já a luz de Andreato e Júnior Docini reforça as matizes laranjas e cintilantes do agreste, e também marca e cria lugares no palco.

Elenco

Dudu Galvão, intérprete de Severino, tem um respeito comovente ao clássico e personagem, e traz ao palco um protagonista sofrido, belo e sem firulas. Apresenta-se numa compreensão acertada do texto e longe da mera declamação.

O elenco mostra-se extremamente eficiente e consciente das suas personas. As ciganas Andréa Bassit e Patrícia Gasppar e Jonathan Faria, na pele de Mestre Carpina, são potentes e comoventes em seus momentos. Os coveiros João Pedro Attuy e Raphael Mota, além de basilares à história, trazem tanto a tragédia como a perspicácia do homem simples.

Já as mulheres ganham força nos números musicais. Beatriz Amado, Badu Morais, Gabriella Britto e Jana Figarella têm força e potência em suas oportunidades. Mostram ainda uniformidade em cena Fernando Rubro, Ivan Vellame e Pablo Áscoli como ensembles, vivendo os retirantes.

Encenação

Andreato reforça seu olhar como encenador pelas sutilezas da cena, sem grandes elementos e artifícios cênicos, porém com apoio efetivo aos intérpretes à compreensão do texto. O que é extremamente necessário diante dos diálogos e falas repletas de rimas e arranjos milimétricos das palavras.

Inclusive, a cena final torna-se genial ao propor catarse pela emoção do personagem, no olho a olho com a plateia. No momento em que a música pontua e dá ao assistidor a compreensão da redenção de Severino, após a natividade do filho de Mestre Carpina.

Morte E Vida Severina deve ser visto por vários pontos de vista. Primeiro, como clássico e por promover o encontro do espectador com uma criação artística tão importante. Num encontro feliz, original, comovente e histórico entre Melo Neto e Buarque.

Imagine um restaurador diante da Monalisa. Pôr as mãos no sagrado requer muito cuidado, respeito e escuta”, reforça o diretor musical.

Por fim, é preciso revisitar o clássico, como recentemente o coletivo pernambucano Magiluth fez em Estudo Nº 1 – Morte E Vida. Lá, o assistidor foi provocado em pensar nesses Severinos na atualidade, presente na representação do nordestino nas redes sociais à urberização, sucedendo o “dize que levas somente/ coisa de não/ fome, sede e privação”.

Portanto, o espectador precisa sair de tal clássico com a tarefa de atualizar esses Severinos e Severinas que estão por aqui. E ainda, matutar sobre como gerar redenção nos lugares áridos do sertão de cada um.

Por isso, não deixe de ver!

Serviço

Até 26/06/2022 – Sexta e sábado às 21h, domingo às 19h.
Teatro Tuca.

Ficha Técnica

Da obra de JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Músicas de CHICO BUARQUE
Direção Geral ELIAS ANDREATO
Direção Musical, Arranjos, Aboios e Lamentos (original) MARCO FRANÇA
Voz MARIA BETÂNIA
Poema Seca de DJAVAN

ELENCO
DUDU GALVÃO – Severino
ANDRÉA BASSITT – Cigana 2
BADU MORAIS – Mulher da Janela
BEATRIZ AMADO – Retirante e flauta
FERNANDO RUBRO – Retirante
GABRIELLA BRITTO – Retirante 
IVAN VELLAME – Retirante
JANA FIGARELLA – Funeral
JOÃO PEDRO ATTUY – Coveiro 1
JONATHAN FARIA – Mestre Carpina
PABLO ÁSCOLI – Retirante
PATRICIA GASPPAR – Cigana 1
RAPHAEL MOTA – Coveiro 2

MÚSICOS
BEATRIZ FRANÇA – Contrabaixo acústico e baixo elétrico
BRUNO MENEGATTI –  Rabeca e violão
DICINHO AREIAS – Sanfona
RAPHAEL COELHO – Percussão
RICARDO DUTRA – Viola e violão

Cenário ELIFAS ANDREATO
Figurino FABIO NAMATAME
Desenho de Luz ELIAS ANDREATO e JÚNIOR DOCINI
Desenho de Som MARCELO CLARET

Direção de Movimento ROBERTO ALENCAR
Assistente de Direção Geral JÚNIOR DOCINI
Assistente Direção Musical, Preparação Vocal, Pianista Ensaiador MARCELO FARIAS
Assistente de Cenário  LAURA ANDREATO
Cenotécnico –  FABIN CENOGRAFIA e EDÉSIO BISPO
Assistente de figurino – ANDRÉ VON SCHIMONSKY
Modelista – JULIANO LOPES
Costura – FERNANDO REINERT e MARIA JOSÉ DE CASTRO
Operador de Som THIAGO H. SCHAFFER
Microfonista GABRIEL VILAS
Operador de Luz JUNIOR DOCINI e RAFA INÁCIO
Contrarregragem/Camareiros FÁBIO OLLYVER e TONINHO PITA
Coordenação de Comunicação BETH GALLO
Produção Executiva MARTHA LOZANO
Produtoras SELMA MORENTE e CÉLIA FORTE

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