Crítica: Miss França, de Ruben Alves

Misto de comédia e drama, Miss França discute de maneira emocionante questões sobre a identidade de gênero.

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Miss França - Foto: Divulgação
Miss França - Foto: Divulgação

Medo, preconceito, violência, baixa-estima, prostituição e assédio. Essas poderiam ser apenas palavras de nossa língua, mas são sentimentos e situações vividas de maneira frequente por quem é considerado diferente do gênero binário, Ttido como o certo por grande parte da sociedade, um pensamento que não condiz com a realidade, já que o binarismo não leva em conta as diversas particularidades de cada ser humano. E que reduz a sexualidade a um mero parâmetro físico, desconsiderando todo um universo de possibilidades existentes.

Esses e muitos outros temas extremamente relevantes são escancarados de uma forma emocionante, através da obra-prima Miss França, do ator e cineasta luso-francês Ruben Alves. O longa pode ser considerado uma obra-prima pelo fato de unir em um mesmo filme drama, comédia e provocar empatia, construído a partir da história da vida de Alex. E um elenco afiadíssimo.

O longa-metragem nos mostra a vida de Alex, interpretado brilhantemente por Alexandre Wetter, que desde criança tem o sonho de se tornar Miss França. No entanto, há um problema nisso, já que Alex possui uma identidade masculina.

Apoiado por sua família de amigos, ele tenta alcançar esse sonho, a partir do lugar de um homem que se encontra e se identifica muito mais com sua feminilidade. Quando Alex encontra um amigo de infância que se tornou um boxeador de sucesso, que o apoia e acredita que tudo é possível, sua força aumenta para perseguir seu sonho.

Os amigos são a família que podemos escolher

Um ponto muito interessante do filme é sobre a importância dos amigos como uma rede de apoio e que supre o lugar de família, em diversas situações. No filme, temos Alex vivendo em uma pensão, com pessoas marginalizadas pela sociedade, como imigrantes de diversas nacionalidades, como indianos, árabes e africanos, e que é gerida pela velha prostituta Yolande (Isabelle Nanty).

Também conta com a ajuda da travesti Lola, interpretada de maneira genial por Thibault de Montalembert. Esse núcleo nos mostra muito sobre a importância da rede de apoio dos amigos em nossas vidas, sobretudo, nas vidas de tantas pessoas trans e gays, que são frequentemente vítimas de violência e preconceito.

Aliás, este é um ponto forte do filme: o de mostrar o quanto marginalizado é esse grupo, por não corresponder a uma heteronormatividade social imposta. Aqui, temos cenas incríveis de Lola e Alex nos fazendo refletir sobre esse lugar em que a sociedade as empurra.

No caso de Alex, ele tenta romper com esse forte estigma imposto a mulheres trans e travestis, que obviamente possuem sonhos e desejos como qualquer outro ser humano, mas que devido à marginalização social acabam sucumbindo à prostituição.

Sociedade, machismo e hipocrisia

Outro ponto importante do filme é a denúncia sobre a hipocrisia de nossa sociedade, onde muitos homens tidos como héteros se relacionam com trans, gays e travestis de forma velada, mas que diante das pessoas os abominam, e muitas vezes, até os violentam.

A personagem de Alex desmascara esse comportamento em uma parte do filme durante o concurso, por meio de uma interpretação incrível, com falas inteligentes e uma cena muito bem construída, brilhante, na qual o espectador pode se deliciar.

Há também uma forte crítica quanto ao machismo, que de tão violento, perpassa não só as mulheres cisgêneros, como as mulheres trans. Alves nos mostra que o machismo é tão perverso que ocupa situações de assédio e violência com qualquer tipo de mulher.

Também mostra ao expectador diversas situações constrangedoras, onde mulheres diversas sofrem desprezo, preconceito e agressões, tanto físicas como psicológicas. E não importa se você é mulher hetero ou transsexual: a violência atinge nossos corpos da mesma forma.

Um fato muito interessante do filme também é o desmascaramento da hipocrisia que existe por trás dos concursos de miss, mostrado através de diálogos geniais e da construção de personagens extramente humanizados. Há também a promoção de ainda mais baixa estima na personagem de Alex, já que ela ao menos sabe o que responder quando lhe perguntam quais são seus sonhos e ambições.

Por fim, temos uma construção paradoxal onde um jovem tenta sair de uma vida de escravidão, por outro, se rende a um concurso heternormativo, e tudo na busca de ser reconhecido socialmente.

A produção é tocante tanto pelo seu roteiro, quanto pelo elenco, mas também pela fotografia e cenografia que nos transportam a esse estado de não-lugar da personagem, de não binariedade. E faz com que o público se emocione por mostrar tão explicitamente as dificuldades de pessoas como Alex, provavelmente de uma forma nunca antes vista no cinema.

Miss França tem distribuição da Pandora Filmes.

Ficha Técnica

Direção: Ruben Alves
Roteiro: Ruben Alves, Elodie Namer
Produção:  Laetitia Galitzine, Hugo Gélin
Elenco: Alexandre WetterIsabelle Nanty, Pascale Arbillo, Thibault de Montalembert
Direção de Fotografia: Renaud Chassaing
Desenho de Produção: Philippe Chiffre
Trilha Sonora: Lambert
Montagem: Valérie Deseine
Gênero: comédia, drama
País: França, Bélgica
Ano: 2020
Duração: 107 min.

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