Crítica: Meu Seridó, direção César Ferrario

Você conhece o Seridó? O espetáculo teatral traz o sertão do Rio Grande do Norte até o público paulista, em uma crônica leve e popular.

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Meu Seridó - Foto Brunno Martins
Meu Seridó - Foto Brunno Martins

Se artistas há alguns anos, inspirados em Guimarães Rosa, propuseram uma leitura do sertão não como um lugar, mas como um estado de espírito, Meu Seridó, peça do grupo natalense Casa de Zóe, também expande o seridó além da sua localidade, como um estado de espírito artístico e criativo. A montagem idealizada pela atriz Titina Medeiros e dirigida por César Ferrario, é novo cartaz do Teatro Sesi-SP.

A peça

A peça parte da linguagem popular para investigar e encontrar as origens antropológicas, culturais e artísticas do Seridó, região do sertão do Rio Grande Norte. Assim, a história vai dos primeiros passos do ser humano no local, quando o homo seridó, uma paródia ao homo sapiens de Darwin (e Harari), fazia suas andanças pelo planeta, vivendo e resistindo às possibilidades climáticas, de flora e fauna existentes.

Senti uma vontade enorme de saber mais sobre a minha origem, uma curiosidade sobre minha ancestralidade e um desejo, mesmo metafórico, de voltar para a casa”, conta Medeiros.

A nossa história acontece em algum lugar entre a realidade, o delírio e a nostalgia”, completa o dramaturgo Filipe Miguez, que partiu das experiências do grupo e dos registros verbais e escritos dos moradores para tratar da condição da mulher no sertão, da extinção do indígena em detrimento do boi e à desertificação da região. Os criativos contaram com o apoio da historiadora, escritora e jornalista Leusa Araújo.

O universo mambembe

Diante dessa dramaturgia delirante, o encenador explora o universo e a estética do teatro popular, no cenário de Rogério Ferraz. Atores e atrizes agem como curingas, onde epopeias e o cotidiano são representados em um cenário de plástica mambembe, com objetos de cena que assumem diferentes funções, num constante exercício criativo. Também a luz Ronaldo Costa colabora na criação de microcosmo e indica o céu sempre estrelado do nordeste, com luzes espalhadas pelo teto, ora funcionais, ora líricas.

Longe da visão preconceituosa e dicotômica que o teatro popular é oposto do erudito, Meu Seridó é uma criação gestada a partir dos registros de um povo, destinado ao povo. E ainda usufruí tanto dos elementos da commedia dell’arte, com seus personagens caricatos e facilmente reconhecíveis por suas características físicas ou figurinos, quanto da opereta. Em que o diretor musical Caio Padilha apropria-se do clima de boulevard, apresentando forrós e outras canções da região do Seridó.

Casa de Zoé

Além de Medeiros e Padilha, o elenco se completa com Nara Kelly, Marcílio Amorim e Igor Fortunato, em participações e atuações divertidas, onde encenam, tocam instrumentos musicais, cantam e dançam. A conexão com o público é imediata, tudo parece funcionar, mesmo no palco italiano, onde o público fica mais distante dos intérpretes.

Sem dúvida, isso acontece pela estrada de cinco anos já percorrida pela trupe. O projeto integra as ações do Casa de Zoé, sediada em Natal, e já foi assistido por mais de 50 mil espectadores, com apresentações em praças, ruas e teatros de cinquenta e cinco cidades, sendo 22 capitais. Dito isso, o espetáculo assume o palco localizado na avenida Paulista como uma ode á cultura brasileira, feita pela apropriação, mistura e sincretismo de etnias e povos.

Meu Seridó pode ser aqui

As características do teatro popular integram o público imediatamente à jornada e consegue propor importantes reflexões sobre o descaso às questões indígenas e das ações e políticas de “desenvolvimento” comercial, que também destroem o local para existir. Sendo as tragédias climáticas, como a desertificação, um reflexo de tudo isso.

O que importa, finalmente, é que Meu Seridó mergulha no reconhecimento da arte e da cultura desse povo para reforçar que existe história antes do encobrimento do Brasil, em 1500, feito por uma gente branca, eurocêntrica e cristã, e que atualmente resolveu pegar em armas para destruir o diferente e às artes. Afinal, se entendermos e apoderarmos, mesmo delirante, da nossa ancestralidade e do que somos feito, o Seridó pode ser aqui mesmo.

Serviço

De 7 a 31 de julho, quinta-feira a sábado às 20h e domingo às 19h (dia 21 de julho não haverá sessão). Saiba mais aqui.

Ficha Técnica

Direção – César Ferrario. Dramaturgia – Filipe Miguez. Elenco – Titina Medeiros, Nara Kelly, Caio Padilha, Marcílio Amorim e Igor Fortunato. Stand-in – Manu Azevedo e Ananda Khrishna. Direção de Arte – João Marcelino. Direção Musical – Caio Padilha. Produção Executiva – Arlindo Bezerra. Produção Artística – Titina Medeiros. Assistência de Produção – Talita Yohana. Historiadora – Leusa Araújo. Design de Luz – Ronaldo Costa. Cenotécnico – Rogério Ferraz. Assistente de Direção e Direção de Movimento – Dudu Galvão. Fotografia – Brunno Martins e Carito Cavalcanti. Equipe de Cenotécnica e Montagem – Janielson Silva, Sandro Paixão e Yngrew Rafael. Operação de Luz – Janielson Silva. Operador de Som – Yngrew Rafael. Cenotécnico e Contrarregra – Sandro Paixão. Assistência de Figurino – Pierre Keyth. Modelista e Costureira – Fátima Rocha. Costureira – Sigeane Borges da Silva. Designer Gráfico – Filipe Anjo. Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta.

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