Crítica: Maria Thereza e Dener, direção Ricardo Grasson

Peça trata da trajetória da célebre primeira-dama Maria Thereza Goulart, esposa de Jango, e sua amizade com o famoso estilista Dener Pamplona.

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Maria Thereza e Dener - Foto: Priscila Prade
Maria Thereza e Dener - Foto: Priscila Prade

Os encontros e desencontros entre a primeira-dama Maria Thereza Goulart, esposa do ex-presidente Jango, João Goulart (1919-1976), e o estilista Dener Pamplona de Abreu são o ponto de partida da peça Maria Thereza e Dener. Com dramaturgia de José Eduardo Vendramini e direção de Ricardo Grasson, a montagem rememora a ditadura militar brasileira e o conturbado exílio da família Goulart.

A trama é livremente inspirada no livro Uma Mulher Vestida De Silêncio do escritor e jornalista paulistano Wagner William. A adaptação de Vendramini apoia-se nesse encontro que foi fundamental tanto para a construção social da primeira-dama, principalmente nas colunas sociais, quanto no reconhecimento do estilista-costureiro Dener na moda nacional.

Dener

Dener (interpretado por Thiago Carreira) foi um dos principais nomes da moda brasileira, junto com Clodovil Hernandes (1937-2009) e Zuzu Angel (1921-1976). Em uma época em que pouca matéria-prima tinha por aqui, como tecidos importados e de alto padrão.

Foram esses artistas que de alguma forma importaram o conceito de alta costura para cá, diante de um estilo e mercado efervescente, gestado principalmente em Paris. Uma época com nomes como Yves Saint Laurent (1936-2008), Gabrielle (Coco) Chanel (1883-1971) e muitos outros.

Conta-se que a novela Ti Ti Ti, que teve duas versões na Rede Globo, escrita originalmente por Cassiano Gabus Mendes, inspirou-se na rivalidade de Dener e Clodovil para criar os inesquecíveis Jacques Leclair e Victor Valentim.

Maria Thereza

Já Maria Thereza (Angela Dippe) era uma jovem despreparada para a vida política e nomeada, anos depois, como uma das mulheres (e primeira-dama) mais linda do mundo. Frequentemente comparada a Jacqueline Kennedy.

Atravessou a ditadura militar em um exílio no Uruguai, inclusive sendo proibida de comparecer ao velório da própria mãe. Imersa em notícias plantadas pelo governo da época, em fake news que mostravam uma vida de consumismo e luxo para desmoralizá-la, chegou a escrever para o jornal Diário Carioca pedindo para que os colunistas sociais a esquecessem.

Dramaturgia

Diante disso, é inventiva e original a propositura dramatúrgica desse(s) encontro(s) em cena. O texto flui em paralelo aos fatos do Golpe de 1964 e o endurecimento da ditadura militar, o que torna a montagem um efetivo registro da época. Porém, fragiliza a ligação nuclear da peça.

Maria Thereza e Dener coloca o protagonismo na primeira-dama e no momento histórico, e pouco traz sobre Dener, figura que mereceria detalhamento melhor. E, pelo menos, que o público pudesse conhecer melhor o traço e a proposta artística dele.

Por sua vez, a cena final, com um dos áudios originais de Maria Thereza traz veracidade e força histórica. Mas, parece esvaziar a ação dramática da encenação e tirar da mão dos atores (e da dramaturgia) o fechamento da jornada.

Dessa forma, fica claro ao assistidor que Vendramini quer mesmo destacar o factual e seus absurdos, em que vidas e talentos foram limados em nome de uma política ditatorial. O que tem importância pedagógica nesses tempos em que a apologia a tais épocas ganham força, com propostas de revisionismo histórico.

Encenação

Por sua vez, o diretor propõe uma montagem sem grande firulas, no apoio acertado ao entendimento das personas por Dippe e Carreira.

É criativo ao atualizar o momento histórico por meio de imagens numa televisão antiga, e que encadeia e alinhava a encenação. Colaboram nessa construção o desenho de som de Chuck Hipolitho e Thiago Guerra que corta e recorta os diálogos e cenas.

A cenografia, também de Grasson, leva o espectador para uma sala dos anos de 1960, talvez no palácio presidencial ou no ateliê de Dener. Daí, o desenho de luz de Gabriele Souza, os figurinos e adereços de Rosângela Ribeiro e o visagismo de Dicko Lorenzo encarregam de trazer a elegância e a sofisticação da época nesses elementos.

Elenco

Dippe chega à mulher elegante, gaúcha e bonita com segurança. Sua facilidade à comédia colabora no tom e magnetismo desde a primeira fala. E ganha complexidade quando expõe as dores que marcaram o seu exílio, chegando à modulação necessária para a construção e exposição da sua Maria Thereza.

Já Carreira tem a difícil tarefa de trazer na medida certa um personagem caricato na vida real. Consegue e traz a alegria, o esnobismo e os dramas no tom certo, e possível pela dramaturgia.

História e Diversidade

Dito isso, Maria Thereza e Dener é um importante registro de tempos tão obscuros da nossa história. Principalmente na proximidade com o dia 31 de março, em que há quase cinquenta, em 1964, Jango foi derrubado pelo seu rival, presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, sem qualquer votação do parlamento.

Enfim, golpes que os brasileiros vêm sofrendo há anos e que o atual presidente, Jair Bolsonaro, e seus pares consideram o Golpe de 1964 como um ato de heroísmo contra o comunismo. Já que, até hoje, é uma bandeira e fetiche insistente e incipiente no discurso da extrema-direita.

Por sua vez, a mulher Maria Thereza e seu costureiro Dener são personagens que nos interessam reviver, como personalidades, construções históricas, num país machista e homofóbico. Dessa maneira, entende-se que silenciamentos de vozes diversas são formas contumazes de ditaduras.

Reduzir a complexidade dessas personagens a apenas uma bela mulher consumista e num homem afetado e superficial é uma forma de calar nossa diversidade, talento, arte e dores históricas.

Por isso, a peça ora em cartaz no Eva Herz é um bom fio da meada para falar também sobre isso.

Serviço

De 16 de março a 28 de abril – Quartas e quintas, às 20h. (Saiba mais aqui)
12 anos.
70 minutos.

Ficha Técnica

Texto: José Eduardo Vendramini. Livremente inspirado no livro “Uma Mulher Vestida de Silêncio”, de Wagner William. Direção: Ricardo Grasson. Com Angela Dippe e Thiago Carreira. Cenografia: Ricardo Grasson. Desenho de Som: Chuck Hipolitho e Thiago Guerra. Desenho de luz: Gabriele Souza. Figurinos e adereços: Rosângela Ribeiro. Visagismo: Dicko Lorenzo. Assistente de Direção: Heitor Garcia. Buckup. Maquiagem e Camarim: Edgar Cardoso Comunicação Visual: Lucas Sancho. Cenotécnico: Rafael Boese. Produção: NOSSO Cultural e Maria Flores Produções Culturais. Direção de produção: Ricardo Grasson. Produção Executiva: Heitor Garcia e Carol Centeno. Assistente de produção: Bruno Fidalgo. Operação de Som: Chuck Hipolitho. Operação de Luz: Jorge Leal. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli. Fotos: Priscila Prade. Idealização: Angela Dippe.

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