Crítica: Mar De Dentro, de Dainara Toffoli

Filme conta a história de Manuela, uma profissional de sucesso que tem que lidar com a transformação do seu corpo e vida ao ficar grávida.

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Mar De Dentro - Foto: Divulgação
Mar De Dentro - Foto: Divulgação

Apesar de estarmos vivendo sob um período retrógrado de muitos aspectos em nosso país, também é necessário reconhecer as lutas contra diversos tipos de opressão. Isso é originado pelo protagonismo feminino e no questionamento sobre as várias formas de machismo existentes na sociedade, bem como tabus.

Um desses tabus é sobre a maternidade versus carreira da mulher, tema que vem ganhando amplo espaço de discussão atualmente e agora ganha também com o longa-metragem Mar de Dentro, dirigido e roteirizado por Dainara Toffoli.

Gravidez e maternidade

Mar de Dentro é um desses presentes do cinema nacional, tendo como protagonista Mônica Iozzi, que neste trabalho comove o espectador ao revelar sua faceta dramática e realista de interpretação. Nesse registro não usual da atriz, Iozzi impacta o espectador ao revelar muitos sofrimentos silenciosos de uma jovem mulher de classe média, independente e bem-sucedida em sua carreira, que se depara com uma gravidez não-desejada.

Histórica e socialmente é frequente nos depararmos com a ideia de que a maternidade é algo sublime ou que é um complemento fundamental para a vida da mulher. Isso quando não escutamos que a vida feminina só tem e, só pode ter sentido, a partir do ato de ser mãe.

As mulheres que fogem desse padrão de pensamento são taxadas de egoístas, de mal amadas e até de covardes. Lidam com o estigma de que a solidão irá acompanhá-las para sempre e mostra o quanto a sociedade interfere na vida sexual feminina, e claro, numa forma de controlar seus corpos.

O choque social é a possibilidade de uma mulher optar pelo próprio corpo e carreira, por exemplo, em detrimento à maternidade. A pressão que a sociedade coloca sobre nossos corpos chega a ser cruel, no sentido de que generaliza a ideia de que toda mulher deve sonhar ou viver um sonho com a maternidade.

Essa pressão se estende até para algumas mães e gestantes que se sentem de maneira diferente com suas maternagens, já que muitas mulheres constroem uma relação com seus filhos aos poucos, muitas vezes só após o nascimento.

E esta pressão é tanta que em um estudo publicado em 2017, pela revista Sex Roles, revelou que muitas mulheres que não optaram pela maternidade disseram se sentir culpadas e moralmente erradas. 

Portanto, a maternidade é uma questão imensamente complexa para as mulheres, já que impacta diretamente no corpo, na psique, no trabalho, no meio social. E ainda pouco se ouve essas vozes, sobre seus sentimentos verdadeiros, que muitas vezes são de abandono, desespero, sobrecarga, tristeza e invisibilidade, ideias contrárias ao pensamento que permeia o lugar comum do pensamento social.

Manuela de Mônica Iozzi

Toda essa complexidade é abordada no longa de Toffoli, por meio da história de Manuela (Mônica Iozzi), uma profissional de sucesso que, ao se descobrir grávida de um colega de trabalho, tem de lidar com a transformação de seu corpo e sua vida. Em meio a tantos desafios, ela se defronta com uma fatalidade que afetará ainda mais seu destino.

Em um primeiro momento da descoberta de sua gravidez, Manuela tem a reação de não aceitá-la e de sofrer pelo fato de estar grávida. Outro ponto é que a partir daí, ela tem que lidar com todas as questões que envolvem a sua gestação: familiares opinando sobre o que ela deve ou não fazer no parto ou na criação do bebê, as mudanças no corpo e na mente.

E a personagem de Iozzi nos envolve com sua sensibilidade ao transitar por todas essas fases críticas do processo de maternagem, fazendo o espectador sentir a angústia de sua personagem diante daquela situação.

É interessante notar a curva de progressão da narrativa e também da personagem: na primeira parte do longa, nos deparamos com uma Manuela forte, independente, bem-sucedida e ambiciosa em manter o sucesso de seu trabalho.

Na segunda parte nos deparamos com uma personagem frágil e vulnerável. E claro, com algumas atitudes diferentes do que se espera de uma mulher que acaba de ser mãe, mas completamente compreensíveis quando nos deparamos com a humanidade de sua personagem.

Um ponto que poderia ter sido mais explorado é sobre a relação do mar. Têm-se a impressão de que a diretora quis operar com uma metáfora entre o mar e seus diversos estados junto ao processo de maternidade, que também é complexo e variável, no entanto, essa relação não fica bem aprofundada.

Equipe e elenco

Além de Iozzi, o elenco do drama conta com as excelentes participações de Zé Carlos Machado e Magali Biff, que interpretam os avós paternos da criança, e que tentam impor algumas atitudes à Manuela em relação ao seu próprio parto. O casal de atores ilustra muito bem personagens que seriam facilmente encontrados ao nosso redor, na vida real. O elenco também conta com Rafael Losso, Gilda Nomacce e Fabiana Gugli.

A equipe técnica do filme também faz juz à força feminina, já que a equipe é composta em sua maioria por mulheres, que estão presentes na direção, produção, roteiro, produção executiva, figurino, caracterização e produção de elenco.

Ficha Técnica
Direção: Dainara Toffoli
Roteiro: Dainara Toffoli e Elaine Teixeira
Produção: Eliane Ferreira, Pablo Iraola e Dainara Toffoli
Produção: Muiraquitã Filmes e Elástica Filmes
Co-produção: Telecine
Elenco: Monica Iozzi, Rafael Losso, Gilda Nomacce, Fabiana Gugli, Zé Carlos Machado e Magali Biff
Produção Executiva: Eliane Ferreira
Direção de Fotografia: Glauco Firpo
Direção de Arte: Fernando Timba
Montagem: Willem Dias, AMC
Edição de Som: Beto Ferraz
Mixagem: André Tadeu
Trilha Sonora: André Namur e Yaniel Matos
Figurino: Aline Canela
Caracterização: Britney Federline
Produção de Elenco: Diana Galantini
Gênero: drama
País: Brasil
Ano: 2020
Duração: 90 min.

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