Crítica: Manhãs de Setembro, série com direção de Luis Pinheiro e Dainara Toffoli

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Manhãs de Setembro - Foto: divulgação
Manhãs de Setembro - Foto: divulgação

Manhãs de Setembro do Amazon Prime Video estrelada por Liniker aprofunda-se nas questões de gênero pelo viés da visibilidade e sobrevivência. Mulher trans e periférica, a protagonista, Cassandra, é uma motogirl de aplicativos de entrega e que tem sua vida virada quando um envolvimento no passado bate à sua porta apresentando-lhe um filho.

Manhãs de Setembro - Foto: divulgação
Manhãs de Setembro – Foto: divulgação

Gersinho, o garoto, inicia sua jornada buscando a figura do pai em Cassandra, o que não é acolhido por ela. Em certo momento, Leide (Karine Teles) até solta que a protagonista, mesmo sendo uma mulher trans, continua sendo habitada por um boy-lixo. Já que a aceitação do filho representa um retrocesso da liberdade e independência conquistada.

Manhãs De Setembro apoia-se na poética de Vanusa, famosa cantora brasileira dos anos de 1970, e que interpretava como ninguém as dores de cotovelo. Além de fã, com vários discos de vinil no canto do apartamento, Cassandra é também crooner dela.

Obviamente a série tem como principal potência a apresentação de uma protagonista, trans, negra e periférica. A vida sobre a moto e o tom lírico apresentado na boate traz um olhar reverso, eventualmente explorado com competência na dramaturgia brasileira, ou seja, de dentro para fora. Portanto, há um ineditismo na sinopse de Miguel de Almeida (Tunga, O Esquecimento Das Paixões), numa estética e texto pungentes.

Manhãs de Sol - foto: Divulgação
Manhãs de Sol – foto: Divulgação

O roteiro de Josefina Trotta, Alice Marcone e Marcelo Montenegro desenvolve-se em cinco episódios de 30 minutos e que vai abrindo aos poucos as possibilidades da heroína. Não há uma aproximação fácil ou romântica, mas é na esperança de um novo caminho para Gersinho que a redenção de Cassandra sinaliza-se.

E ainda a narrativa põe na personagem de Teles a função clara de antagonista, ao promover realmente as mexidas na vida da crooner-motogirl. Se na letra composta por Vanusa Silva e Mario Campanha Sierra declara-se “e na solidão sem ter ninguém, fui eu” há tanto em Cassandra como em Leide uma rota em comum. Em certo momento, pode-se dizer que a história é de duas protagonistas.

Os diretores Luis Pinheiro (Lili, A Ex, Samantha, Mulheres Alteradas) e Dainara Toffoli (Amigo de Aluguel) seguem uma proposta estética realista. Pode-se dizer que inspira-se no encantamento da penúria, fortemente presente nos diretores de uma geração, como Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). Então, os closes abertos da periferia de São Paulo e até mesmo as infiltrações das construções da Zona Leste servem para a demarcação das impossibilidades estruturais impostas aos personagens.

E aí, como proposta de mediação, vale observar essa plástica na fotografia de Manhãs de Setembro, a partir dos filmes da Cinema Novo e de longas-metragens produzidos por diretores contemporâneos como Karim Aïnouz e Hilton Lacerda. Há uma alteração dessa perspectiva periférica do Cinema Novo até Pinheiro e Toffoli.

Atenta-se, por exemplo, em sequências como da morte de José Wilker no lixão de O Maior Amor do Mundo; as andanças de Hermila Guedes no azul árido de O Céu de Suely; do sobrado anárquico e corroído de Tatuagem; e, por fim, a região e o prédio onde mora Cassandra.

Obviamente nessas imagens há elementos daquele fetiche, já ejeitado, de alguns diretores brasileiros das décadas de 1960 em diante pela pobreza. Assim, os dramas da classe média que eram transpostos para a periferia são vistos aqui ao revés. Talvez com jeito de Spike Lee, ou seja, coloca-se o assistidor no ângulo de Cassandra (e Leide), a mulher, comum e trabalhadora, com seus dramas próprios.

Manhãs de Setembro - Foto: Divulgação
Manhãs de Setembro – Foto: Divulgação

É certeira a escalação de Liniker para a protagonista, além de trazer seu domínio de voz às canções de Vanusa, sua representatividade traz ainda mais potência à série. Há de se dizer que a dramaturgia a deixa um pouco ranzinza em algumas sequências e sem empatia. O fato de que a aproximação a Gersinho possa trazer riscos à liberdade conquistada soa convincente, mas esgota-se rapidamente.

E ai, é preciso dizer que é graças a escalação do elenco de apoio é que a história torna-se ainda mais cativante. Karine toma para si o papel de antagonista e sua capacidade de tornar palatável o texto da mulher destruída pela pobreza e falta de oportunidade cativa na segunda metade da série. Seu jeito irônico para as solapadas da vida valem cada cena.

Gero Camilo, ao viver o casal homoafetivo ao lado de Paulo Miklos, traz uma dimensão importante que precisa chegar às histórias: a velhice da comunidade queer.

Por fim, Thomás Aquino interpreta com exatidão o namorado cambaleante entre a autoaceitação e a vida comum de uma relação heternormativa. Uma próxima temporada mergulhará neste e noutros universos tão ricos de dramas e conflitos, abertos nestes 5 capítulos.

Manhã de Setembro traz às séries brasileiras as narrativas além do mainstream de assassinatos, bruxarias e drogas. Com a história de um povo que luta para sobreviver entre tantas intempéries de uma sociedade desigual e preconceituosa.

“Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar o vizinho a cantar”, canta Cassandra na letra de Vanusa.

Sim, Manhã de Setembro nos transforma em vizinho e nos ensina a cantar.

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