Crítica: Loucas, direção Dan Rosseto

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Loucas - Foto: Thais Boneville
Loucas - Foto: Thais Boneville

Por anos o isolamento das mulheres vanguardistas e artistas em hospitais psiquiátricos foi uma das formas de reprimi-las, revelando mais um expediente da nossa sociedade tipicamente patriarcal. E esse é o mote da peça Loucas, da dramaturga uruguaia Sandra Massera, que chega em apresentação online, com direção de Dan Rosseto.

Loucas - Foto: Thais Boneville
Loucas – Foto: Thais Boneville

Carolina Stofella é Maria do Pilar, internada em um sanatório em 1882 e passa a enviar cartas para sua família, pedindo para que seja reavaliada. Considerando-se lúcida e estável, em perfeito estado mental, a relação com o mundo exterior e a família é representada em cena pelo ator e cantor Gilberto Chaves.

Como em 1975, texto que recebeu montagem aqui no Brasil pela atriz Angela Figueiredo, a dramaturgia de Massera parte de uma relação familiar e cotidiana para descrever à violência social. Em Loucas as cartas servem como registro e ampliam-se como forma de resistência, diante de uma sociedade que pouco ouve suas minorias e seus contrários.

Nessas correspondências enviadas inicialmente para o pai, depois para o irmão e chegando até a sua sobrinha revelam muito da brutalidade e indiferença sofrida pelas mulheres entre o século XIX e XX. É importante lembrar que ainda não existia uma área específica da medicina para analisar os problemas mentais, o que posteriormente chamou-se psiquiatria, e Freud, e o conceito de inconsciente, ainda era embrionário. Assim, não há dúvida que tais lugares tinham uma forte conotação repressora e de vigilância às mentes e corpos destoantes.

Uma estética desoladora norteia a encenação de Rosseto. Ainda apropria-se do canto lírico para demarcar um clima poético. Mesmo original, é verdade que alguns destes números musicais, talvez por tratar-se de uma apresentação online, exaurem o assistidor e não contribuam com a compreensão da história. Possivelmente alguns aparos poderiam manter essa plateia, que comporta-se e tem um tempo diferente da plateia presencial, mais junta.

Acertam o figurino fluido de Kléber Montanheiro que vai se diluindo e transformando na trajetória da protagonista. A luz de César Pivetti acende o palco, e o esconde, revelando dramaticidade até mesmo na iluminação que chega mais chapada para a plateia que vê online. O cenário de Rosseto reforça a solidão e desamparo e, por fim, o visagismo de Louise Hèlene marca época.

Sem dúvida, o teatro transmitido ao vivo traz grandes desafios técnicos para quem o faz, principalmente em relação à captação do som. Por outro lado, é um alento conferir o trabalho coletivo desses artistas e técnicos em um momento tão difícil.

E aí, avoluma-se a importância da montagem em possibilitar o reconhecimento da repressão, com suas técnicas e aparelhos, em relação às mulheres. E diante do século XXI, nessa Sociedade do Cansaço, em que loucos e depressivos são aqueles que não performam satisfatoriamente, a montagem tem seu efeito pedagógico. Afinal, definir pessoas como alienadas é ainda uma forma de punição e exclusão.

Serviço
De 12/03 até 28/03 – Sexta e sábado 20h e domingo 18h.
Indicação Etária: 12 anos

Ficha Técnica
Texto: Sandra Massera
Diretor: Dan Rosseto
Direção de produção e tradução: Fabio Camara
Elenco: Carolina Stofella
Cantor: Gilberto Chaves
Figurinista: Kléber Montanheiro
Iluminador: César Pivetti
Cenografia: Dan Rosseto
Visagismo: Louise Hèlene
Operador de luz: Herick Almeida
Operador de som: Beto Boing
Operação de vídeo: Luiz Motta
Fotos: Thaís Boneville
Designer gráfico: Leilane Bertunes
Assessoria de imprensa: Fabio Camara
Social Mídia: Kyra Piscitelli

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