Crítica: Longa Jornada Noite Adentro, direção Sergio Módena

Considerada a obra máxima de Eugene O´Neill, peça ganha versão idealizada, traduzida e dirigida por Sergio Módena e com Ana Lucia Torre.

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Longa Jornada Noite Adentro - Foto PRISCILA PRADE
Longa Jornada Noite Adentro - Foto PRISCILA PRADE

O penoso retrato da vida familiar, em um verão de Groton, no Connecticut, é o tema da cultuada peça Longa Jornada Noite Adentro do dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill (1888-1953). Escrita em 1941, no fim da carreira dele, encenada em 1956 e levou o Pulitzer Priz, em 1957, a história de Mary Tyrone (Ana Lucia Torre) ganha nova versão com direção de Sérgio Módena, produção e realização da Morente Forte.

O inferno particular de O’Neill

Longa Jornada Noite Adentro é considerado um texto autobiográfico em que O’Neill inspirou-se na história da sua família e no vício da mãe em morfina. Aqui o pai James (Luciano Chirolli) é um ator fracassado, consumido pelo sucesso de um personagem só, com dois filhos: Jamie (Gustavo Wabner), um artista também frustrado, e o mais jovem Edmund (Bruno Sigrist), um talentoso escritor, diagnosticado com tuberculose.

A encenação acontece em um único dia, em uma casa de móveis velhos e constantemente escondida pela neblina, mal acabada, com empregados lerdos, conforme contado por Mary. Segundo Módena, o realismo de O’Neill é permeado de fortes signos, metáforas e simbologias. “É o que podemos chamar de realismo poético”, em que a neblina, a garrafa de uísque e a água constantemente colocada para encher a garrafa da bebida revelam a capacidade da sociedade burguesa em escamotear seus medos e infernos.

Décio de Almeida Prado escreveu em 1967 que “as peças norte-americanas já nos acostumaram a encarar o teatro como uma espécie de terapêutica psicanalítica em miniatura. Eugene O’Neill (Longa Jornada Noite Adentro), Tennessee Williams (A Noite Do Iguana), Arthur Miller (Depois Da Queda), Edward Albee (Quem Tem Medo De Virginia Woolf?), são mestres na arte de mostrar algumas pessoas que vão descendo à vista do público os círculos cada vez mais fundos dos seus infernos particulares até chegar à culpa original”. (p.176)*

A família

Dessa forma, Longa Jornada Noite Adentro é um soco no estômago na utopia da família como um lugar sempre agradável, saudável e de que-família-é-tudo-de-bom. Em que invejas, decepções, disputas, ódios e ressentimentos fazem parte desse encontro de pessoas que vivem obrigatoriamente juntas, fonte de todas as neuroses, culminando em vícios para escamoteá-los.

Há na família Tyrone a necessidade de se auto enganar para sobreviver, ora pelo vício da droga, ora pela bebida. Diante do uísque sempre à disposição, inclusive consumido pela criada Cathleen (Mariana Rosa), há um constante desenfrear e reprimir de sentimentos, em encontros catárticos e doídos.

A encenação

E para tratar este lugar de embate, de certa proteção familiar composta de cerração de amor e ódio, o encenador constrói uma grade em volta do palco arena, explicitamente trancafiando as personagens em seus calvários, ou quem sabe, num ringue de disputas de egos, punições, julgamentos e mágoas. O cenário monocromático de André Cortez usa móveis brancos, desgastados, com luz sobreposta, em composição à iluminação de Aline Santini.

Nessa estética pouco flexível, de papéis delimitados, de uma névoa constante tentando esconder o inferno particular dos membros da família Tyrone, os figurinos de Fábio Namatame propõem atemporalidade. E a trilha sonora de Marco França usufruí de composições clássicas para reforçar a tragédia coletiva.

Intérpretes

Não há dúvida de que para interpretar esses personagens tão complexos e humanos é preciso bons atores e atrizes. Por aqui, Mary já foi interpretada por Cacilda Becker, Nathália Timberg e Cleyde Yáconis. Nos EUA, em 1962, Katharine Hepburn teve uma indicação ao Oscar e o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes ao interpretar a matriarca.

A Mary de Torre tem ares de mãe, mas também de louca e viciada. Tem a fragilidade das mulheres da classe média, com suas crises sobre desejos, realizações e a maternidade compulsória. Tem a vulnerabilidade da mãe e esposa, porém sabe ser cruel como ninguém. “É o sonho de qualquer atriz. A melhor coisa na vida e nessa profissão é ter desafios e aprender a superá-los. Posso dizer que estou vivendo num inferno, com a Mary, e ao mesmo tempo nas nuvens”, conta a atriz.

Por sua vez, Chirolli não poderia ser melhor companheiro de cena. Experiente e capaz de misturar tragédia e ironia nas falas de James, o casal mostra-se sempre certeiro. Sigrist assume o embaralhamento dos seus sentimentos em relação a mãe, pai e irmão com assombro e homogeneidade.

Por isso, Sgrist, Chirolli e Torre já figuraram na lista de melhores ator coadjuvante, ator e atriz, respectivamente, no #MinhaLista de destaques do primeiro semestre de 2022. Leia a matéria aqui.

Wabner e as pequenas cenas de Rosa completam o elenco uniforme e extremamente preparado para a longa jornada pelo suplício da família Tyrone. À vista disso, elenco com dois artistas experientes no auge de suas performances e atores jovens capazes de alcançar e compartilhar a cena com grandeza.

Teatro moderno

O chamado teatro moderno tem essa capacidade de colocar seu público em contato com as incongruências da época, em relação a vida comum e cotidiana. Há aqui um mergulhar nos mitos e visões de mundo da classe média, sempre apertada e massacrada entre o terror da indigência e os desejos de alcançar e imitar a estética dos ricos, porém nunca alcançável. Tema pra lá de explorado nas teorias de cultura de consumo da Escola de Frankfurt.

Ademais, O’Neill imerge na invenção do que é família, fragilizando a convenção de ser um lugar de harmonia, fonte de amparo e cuidado, mas de neuroses. Mas, isso é tema para o divã, certo?

Por ora, vale conferir essa impactante e imperdível montagem em cartaz no Tucarena, numa encenação de estética precisa e elenco afinado.

Serviço

De 17 de junho a 28 de agosto. Sexta e sábado, 20h30. Domingo, 18h30.
110 minutos.
16 anos.

Ficha Técnica

Texto EUGENE O´NEILL
Idealização, Tradução e Direção SERGIO MÓDENA
Música Original MARCO FRANÇA

ELENCO
ANA LUCIA TORRE- Mary Tyrone
LUCIANO CHIROLLI – James Tyrone
GUSTAVO WABNER – Jamie Tyrone
BRUNO SIGRIST – Edmund Tyrone
MARIANA ROSA- Cathleen

Cenário ANDRE CORTEZ
Figurino FÁBIO NAMATAME
Iluminação ALINE SANTINI
Diretor Assistente LURRYAN NASCIMENTO
Assistente de Cenário MARISTELLA PINHEIRO
Visagista DHIEGO DURSO
Cenotécnico TIBÚRCIO PRODUÇÕES
Produção de Figurinos CAROLINA ZILIG
Operador de Som PEDRO MOURA
Operador de Luz MARCOS FÁVERO
Camareira VERÔNICA MORAES
Contrarregra e camareiro RICARDO SANTANA

*PRADO, Décio de Almeida. Exercício Findo. Crítica Teatral (1964-1968). São Paulo: Editora Perspectiva.

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