Crítica: Jardim de Inverno, direção Marco Antônio Pâmio | Blog e-Urbanidade

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Jardim de Inverno- Foto: Edson KumasakaJardim de Inverno- Foto: Edson Kumasaka
Jardim de Inverno- Foto: Edson Kumasaka
Jardim de Inverno - Foto: Danilo Borges
Jardim de Inverno – Foto: Danilo Borges

O jardim de inverno é aquele espaço construído internamente numa casa, acessado e experimentado apenas por quem está dentro da residência. Cabe bem como metáfora no termo contemporâneo de “bolha” e é esse o lugar habitado pelo casal April Wheeler (Andréia Horta) e Frank (Fabrício Pietro), na adaptação para o teatro do livro clássico Revolutionary Road, de Richard Yates. Aqui com tradução e adaptação de Pietro e direção Marco Antônio Pâmio.

Jardim de Inverno acontece na década de 1950, numa pequena cidade dos Estados Unidos. O casal – que foi interpretado na adaptação ao cinema por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet – toma a decisão de se mudar para a Paris com o objetivo de se desligar do sufocamento da vida familiar.

A sociedade é representada pela vizinhança de April e Frank, imersa no estilo e visão de mundo american way of life. A literatura criada nos anos de 1960, mesmo em época que o feminismo era incipiente, tem muito a dizer sobre os dias atuais e as questões de subjetividade e identidade.

A jornada principal na montagem é de April, com seu desejo de se libertar daquele modelo opressor, tendo o marido como seu cúmplice. A partir da decisão, a polifonia das personagens revelam a conformidade e os riscos da ruptura com o modelo social.

Jardim de Inverno- Foto: Edson KumasakaJardim de Inverno- Foto: Edson Kumasaka
Jardim de Inverno- Foto: Edson Kumasaka

Mesmo que a busca de “sentido” seja mais um elemento angariado pelo consumismo estético, a centralidade do conflito da peça é o distanciamento de sonhos e aspirações em favor de um modelo.

Para isso, Pâmio parte de um estética minimalista e organizada. Desde marcações e transições de cenários coreografadas até a impostação comum no teatro literário.

E há um trabalho coletivo virtuoso com a cenografia multifuncional de Marisa Rebolbo – em que a vida privada e profissional se misturam -, nos figurinos e visagismo datados e que ajudam a reconstruir a década, feitas por Flaviana Bernardo e Louse Heléne, respectivamente. Vale notar a trilha sonora pontual e certeira de Pâmio e, um dos grandes destaques da peça, a bem desenha iluminação de Wagner Antônio.

Jardim de Inverno tem um elenco uniforme nas diferentes situações e momentos, nas mais de duas horas de apresentação. Horta trafega pelas nuances da protagonista e mostra maturidade como atriz também no teatro. Fabrício Pietro ocupa com cuidado, sem cair no caricato, no papel do homem, heterossexual, branco e de classe média. Assim, o casal atravessa com desenvoltura desde o drama ao tom leve.

Erica Montanheiro e Marta Meola usufruem de gestual afetado e uma representação mais caricata. Mas, graças a experiência comprovada em tantos trabalhos anteriores, explicitam assim os elementos das convenções sociais. Quando estão em cena, magnetizam.

Também chama a atenção Iuri Saraiva na pele do louco, mas extremamente lúcido. Com uma personagem que poderia cair num tom monocórdio, ganha destaque nas cenas finais. E revela como a parceria do ator com o diretor, após Catástrofe do Sucesso, tem sido produtiva.

E ainda Ricardo Ripa tem o tom certo do homem de negócios e Luciano Schwab é aquele vizinho e marido comum. Ambos trazem os elementos do macho nessa sociedade: fortes, bem-sucedidos, provedores, tóxicos e maliciosos. Aline Jones se destaca nas suas participações e, por fim, Juia Azzam e Lucas Amorin trazem a frivolidade do casal para a montagem.

A montagem ora em cartaz no Teatro Raul Cortez é coreografa, milimétrica e estiticamente pensada e podada para retratar esse verniz social que toma a todos. Onde é quase impossível romper com seus modelos e a tragédia parece ser o único caminho quando o oprimido não pode falar.

Serviço
De 11 de outubro a 17 de novembro. Sexta, 21h30, sábado, 21h e domingo, 20h.
Indicação Etária: 14 anos

Ficha técnica
Título Original: Revolutionary Road, Romance De Richard Yates. Dramaturgia e tradução: Fabrício Pietro. Colaboração dramatúrgica: Erica Montanheiro e Marco Antônio Pâmio. Direção: Marco Antônio Pâmio. Elenco: Andréia Horta, Fabrício Pietro, Erica Montanheiro, Iuri Saraiva, Martha Meola, Ricardo Ripa, Luciano Schwab, Aline Jones, Julia Azzam e Lucas Amorim. Direção de Produção: Danielle Cabral. Direção de movimento: Marco Aurélio Nunes. Assistente de Direção: André Kirmayr. Cenografia: Marisa Rebolo. Figurinista: Flaviana Bernardo Iluminador: Wagner Antônio. Trilha Sonora: Marco Antônio Pâmio. Visagismo: Louise Helène. Cabelo divulgação: Rô Pinheiro . Make divulgação: Rodrigo Nunes. Fotos divulgação: Danilo Borges. Finalização de fotos: Jujuba Digital Artes: Marketing DCARTE. Vídeos divulgação: Kroon Company ProduçõesPromoção: Rede Globo. Vídeo Promocional: Johnny Luz. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Produtoras associadas: Pietro Arte e Comunicação e Lolita e La Grange Produções. Administração Projeto PROAC ICMS: Amanda Leones – Versa Cultural. Assessoria contábil e jurídica: Juliana Rampinelli Calero. Produtoras de operações: Jessica Rodrigues e Victória Martinez – Contorno Produções. Coordenação de produção: Fabrício Pietro e Mateus Monteiro. Negociação de direitos autorais: Marcel Nadal Michelman e Evandro Ragonha. Idealização: Fabrício Pietro. Produção Geral: DCARTE. Patrocínio: PAPIRUS.

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