Crítica: Inferno – Um Interlúdio Expressionista, direção André Garolli | Blog e-Urbanidade

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Inferno - Um Interlúdio expressionista - Foto: Alexandre Inserra
Inferno - Um Interlúdio expressionista - Foto: Alexandre Inserra
Inferno - Um Interlúdio expressionista - Foto: Alexandre Inserra
Inferno – Um Interlúdio expressionista – Foto: Alexandre Inserra

Not About Nightingales, obra escrita por Tennessee Williams, aos 27 anos de idade e descoberta somente nos anos de 1990, é adaptada na montagem Inferno – Um Interlúdio Expressionista, com direção de André Garolli. A peça de teatro volta em cartaz no Viga Espaço Cênico, após indicações, na temporada anterior, em prêmios de direção, arquitetura cênica, ator (Fabrício Pietro) e espetáculo de grupo.

As duas horas de espetáculo partem da relação entre o diretor Warden Whalen (Fabrício) e os presos, com acontecimentos inspirados em fatos reais, numa penitenciária de Holmesburg, Pennsylvania,1938. Com muito horror, violência e morte, as diferentes relações, nas celas ou no escritório, refletem o tom asfixiante próprio de Tennessee.

Um pelotão de policiais recebe o público à porta do Viga e acompanha até a sala de apresentação. Em seguida, o ator Lucas Guerini quebra a quarta parede e atualiza os episódios que vêm a seguir. É verdade que o tom épico destoa da encenação e traz uma modulação de enfrentamento – talvez desnecessária. Mas, vale a pena graças ao empenho do ator.

Diante de uma crise financeira, interpretada com a concentração e o entendimento usual de Camila do Anjos, a mocinha (e “isentona”) Eva vai até a prisão em busca de emprego. Além do diretor da prisão, passa a conviver com o assistente e presidiário Jim (Athos Magno). Assim, dá-se início uma aproximação, admiração e, por fim, uma paixão.

E nas celas, o colérico Buch (Fernando Vieira) põe em ação seu plano: promover uma greve de fome para chamar a atenção da imprensa. E é ali, na fricção entre os presidiários interpretados por 36 atores, num universo apertado e desumano, é que a montagem impressiona, tanto pela uniformidade do elenco, tanto pelas escolhas da direção.

Já o tom expressionista ganha destaque na figura da mãe de Jack, interpretada por Simone Rebeque. Enclausurada na busca do filho, transpõe a dor interior para suas falas, olhares e ganha ainda mais potência na sua aparência. Assim, seu conflito extrapola o dito e toca (e incomoda) o assistidor.

Inferno – Um Interlúdio Expressionista é uma peça de 40 atuações acertadas. E ai, Fabrício domina seu ofício, potencializado pela sua facilidade à comédia. Ora violento, ora pai de família, ora sedutor, ora próximo da comédia, ora tosco, Warden Whalen é o Messias: “encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha“, já diria Regina Duarte. Esse é o chefe do presídio!

A estética proposta por Garolli dialoga com a dramaturgia. Figurinos, maquiagem, cenografia, luz, trilha sonora e coreografias tornam-se únicos e evidenciam o universo de opressão e barbárie.

Inferno – Um Interlúdio Expressionista diz muito sobre o sistema carcerário de 1938 e de hoje, que é reflexo da desigualdade social e do racismo estrutural brasileiro.

Aqui, a tese de Walter Benjamin (publicada em 1942) parece ecoar no texto de Tennessee: “o passado não é uma cadeia de eventos e sim uma única catástrofe, e a missão de qualquer materialismo histórico justificável não é predizer um futuro revolucionário ou uma utopia comunista, mas contemplar e consequentemente redimir os sofrimentos do passado”.

Mirar na Justiça e nas prisões brasileiras, a partir dessa montagem, parece um exercício necessário. Buscar a redenção não apenas utópica, mas também compensatória é fundamental.

E fica a pergunta quando as luzes de apagam no Viga: seria o Brasil de hoje um interlúdio expressionista?

Serviço
De 27 de Janeiro até 18 de fevereiro de 2020. Segundas e Terças às 21h.
Indicação Etária: 16 anos

FICHA TÉCNICA

Inspirado no texto Not About Nightingales, de Tennessee Williams, dentro do projeto Homens À Deriva. Direção: André Garolli. Assistente de direção: Mônica Granndo. Elenco: Camila dos Anjos, Fernando Vieira, Fabrício Pietro, e mais 37 atores. Produção: Cia. Triptal. Assistência de Produção Geral: Giulia Oliveira. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Projeto contemplado pelo Programa Municipal De Fomento Ao Teatro Para A Cidade De São Paulo 32ª Edição – 2018

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