Crítica: Homens Pink, direção Renato Tunes

Partindo de depoimentos de homens gays idosos, o solo Homens Pink celebra o orgulho da ancestralidade LGBTQIA+.

0
Homens Pink - Foto: Cristiano Prim
Homens Pink - Foto: Cristiano Prim

Em tempos de tanta harmonização facial e botox, sabe-se que a velhice é um atributo nada apreciado na atualidade. E, de alguma forma, isso fica ainda mais dramático no universo LGBTQIA+, em que corpos tesos e jovens sempre à mostra são seus ícones. Sendo assim, a Cia La Vaca propõe em Homens Pink dar visibilidade ao ouvir e reconstruir os marcos históricos e sociais de homens gays nascidos nas décadas de 1960 e 70.

Renato Turnes entra no palco praticamente vazio para apresentar os relatos de nove senhores, em que memórias de resistência são passadas a limpo por meio de fotos, projeções e histórias. Turnes, que também assina a dramaturgia e direção, percorre pela infância, desejos, sexo, abandonos, amizades, lutas, até a chegada da epidemia da Aids nos anos de 1980, celebrando o que denomina de “orgulho da ancestralidade LGBTQIA+“.

Em tempos em que os termos gay e homossexualidade nem eram usuais, inclusive em que os desejos homoafetivos eram considerados uma doença pela Organização Mundial de Saúde, a denominação mais frequente era então “entendido”. Deste modo, a montagem propõe-se a revelar sobre essa construção identitária complexa, feita de rupturas, gritos, “pinta”, silêncios, avanços e muitos retrocessos.

Homens Pink é uma reverência para aqueles que vieram antes, os pioneiros na luta por uma série de direitos”, enfatiza Turnes.

Alguns trabalhos, por outros suportes, já seguiram por trilhas semelhantes. Tal como o Passagem Só De Ida, podcast criado pela Casa Um, e o documentário São Paulo Em Hi-Fi, do cineasta Lufe Steffen. Por sua vez, Homens Pink torna-se original ao trazer a velhice como elemento a ser observado, falado e valorizado na recomposição dessas histórias.

Assim, o projeto iniciou-se com um documentário produzido a partir de encontros feitos em São Paulo e Florianópolis. São entrevistados Carlos Eduardo Valente, Celso Curi, José Ronaldo, Julio Rosa, Eduardo Fraga, Luis Baron, Tony Alano, Paulinho Gouvêa e Wladimir Soares.

Por sua vez, o decurso cênico acontece em uma grande caixa escura em que a luz e projeções assinadas por Hedra Rockenbachem são traçadas pelo chão e paredes, que tanto esclarecem quanto trazem lirismo aos relatos.

Os figurinos de Karin Serafin utilizam-se de adereços novos e de algumas roupas dos donos das histórias. Assim, a fratura entre texto, encenação, imagens, sons e figurinos compõem um caleidoscópio de visibilidade desses corpos e identidades.

É verdade que a encenação não aprofunda nas histórias e não segue uma linha dramatúrgica clara, já que é centralizada mais na performance das narrativas. Enquanto isso, o roteiro do documentário (disponível neste link) mostra-se mais bem delimitado ao repercutir a chegada da senilidade, depois de apresentar essas histórias tão potentes.

Assim, frases como “envelhecer é difícil para caralho” e “deixa a vida me comer” humanizam a narrativa e mostram perspectivas de não apagamento desses corpos. Existem e estão cheios de vida! Por isso, recomenda-se ao assistidor que veja as duas produções, pois são complementares.

Vale dizer que a Cia La Vaca também estreou o documentário O Amigo do Meu Tio, em 2022, e que dialoga com a peça. Lá, por meio de imagens antigas de fitas VHS, é mostrada a história da infância de uma criança LGBTQIA+. O filme foi vencedor do 29º Festival Mix Brasil na categoria Prêmio Canal Brasil de Curtas.

Por fim, diante da imersão de Turner nas histórias, como colecionador e entrevistador delas, mostra-se coeso e consciente desde a representação da drag queen ao gay viril. E se o pink é o rosa mais intenso, a montagem, que é sobre vidas carregadas dessa humanidade e complexidade, tem um ator pleno, singular e respeitoso sobre o que conta.

No desejo de que mais trabalhos como esse sejam criados para que ninguém fique invisível.

Serviço

De 29 de abril a 15 de maio. Sextas e sábados, às 21h30, e domingo, às 18h30. (Saiba mais aqui)
50 minutos.
14 anos.

Ficha Técnica

Direção artística, texto e performance: Renato Turnes. Assistência de criação: Karin Serafin. Iluminação e projeções: Hedra Rockenbach. Edição de vídeos: Marco Martins. Imagens VHS: Carlos Eduardo Valente e Dominique Fretin. Figurinos e máscara: Karin Serafin. Trilha sonora original: Hedra Rockenbach. Arte gráfica: Daniel Olivetto. Fotos: Cristiano Prim. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Produção: Milena Moraes. Realização: La Vaca Companhia de Artes Cênicas. Artistas provocadores: Anderson do Carmo, Vicente Concilio, Fabio Hostert e Max Reinert. A partir das memórias de: Carlos Eduardo Valente, Celso Curi, José Ronaldo, Julio Rosa, Eduardo Fraga, Luis Baron, Tony Alano, Paulinho Gouvêa, Wladimir Soares. Acervos pessoais gentilmente cedidos pelos entrevistados.

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here