Crítica: Henrique IV, direção Gabriel Villela

O encenador Gabriel Villela apresenta Henrique IV, obra adaptada de texto de Luigi Pirandello, para comemorar a sua 50ª direção teatral.

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Henrique IV - Foto: João Caldas
Henrique IV - Foto: João Caldas

Luigi Pirandello (1867-1936) foi um dramaturgo fascinado pela aptidão humana ao autoengano. A falsidade esteve quase sempre presente nas suas histórias, pois, segundo ele, a capacidade fundamental da humanidade é a de reprimir os sentimentos mais verdadeiros por meios controversos.

E Henrique IV, levado aos palcos italianos pela primeira vez em 1924, narra a história de um nobre que acredita (ou finge acreditar) ser um imperador nascido a oito séculos atrás, depois de sofrer um acidente.

Os teóricos dividem a dramaturgia do autor italiano em quatro fases, e Henrique IV está no ciclo em que explora o metateatro, ou seja, o teatro dentro do teatro. Nesse período estão alguns dos seus clássicos mais conhecidos: Seis Personagens à Procura De Um Autor (1921) e Assim É Se Lhe Parece (1923).

A narrativa

Então, o protagonista, interpretado por Chico Carvalho, descobre que Matilde (Rosana Stavis), a mulher que ama, tem um caso com seu melhor amigo Belcredi (André Hendges). Ao sofrer um acidente, supostamente provocado pelo próprio amante, o protagonista perde a lucidez e passa a acreditar que seja o imperador Henrique IV.

Seus amigos e familiares entram nessa farsa e Henrique IV termina assumindo a loucura para o resto da vida, para se salvar da prisão. Permitindo ao espectador assistir uma verdadeira dissecação das motivações humanas diante das convenções sociais e ambições pessoais.

Encenação

Dito isto, a encenação em cartaz no Sesc Vila Mariana comemora a quinquagésima montagem do diretor mineiro Gabriel Villela e traz seu universo próprio, de estética refinada, ora exagerada, ora magnífica. Toda a narrativa é contada por uma companhia de circo mambembe italiana e fictícia, denominada de Cia Francisco Eugydio do Calvário.

Então, a cenografia de JC Serroni propõe um picadeiro no centro do palco italiano, em que o assistidor é colocado como observador. “Num circo em desconstrução de uma trupe itinerante com sua carroça, encenando por castelos medievais“, conta Serroni. 

Nessa plástica circense e felliniana, a narrativa é fraturada e enriquecida por músicas em italiano e em inglês, com algumas canções pops como Bang Bang e I Starter A Joke. Executadas ao vivo por Jonatan Harold, ressalta assim o universo lírico e de excentricidade do dramaturgo e encenador.

Elenco

Para isso, a escolha dos atores em cena parece ir além da qualidade técnica, em que corpos e figurinos constróem e colaboram nesse cosmo. Os dois camareiros-cantores interpretados por Artur Volpi, no papel de Oração, e Breno Manfredini, como Sonho, em grandes interpretações, agem como pícaros e atenuam as longas cenas, de monólogos cerebrais, próprios de Pirandello. Eles têm tanto a lucidez irritante do Grilo Falante, quanto a ingenuidade de Chicó e João Grilo.

Destacam-se também no elenco Regina França, Rogerio Romera e Hélio Cícero que apoiam as peripécias de Henrique, num quadro de espelhamento, de realidade e ficção, sanidade e loucura, verdade e mentira, sinceridade e ilusão.

Estética

Já a criação estética circense usufrui da luz de Caetano Vilela, dos adereços de artes de Jair Soares Jr, da maquiagem de Claudinei Hidalgo e da direção musical Babaya Morais e Harold. Assim sendo, o encenador coloca no palco os limites do realmente ser ou parecer, juntando-se às suas recentes montagens que investigam essas contingências humanas. Como o conceito de pós-verdade em Boca de Ouro (2017) e dos absurdos em Estado de Sítio (2018).

A vida é uma mascarada

Henrique IV declara: “a vida nada mais é que uma mascarada contínua, de cada minuto, de que somos os palhaços involuntários e quando, sem saber, nos fantasiamos daquilo que pensamos ser.

Nesse jogo acertado entre dramaturgia e encenação, a incapacidade de definir o absoluto está à baila e mostra-se uma boa reflexão nestes tempos em que os limites entre sanidade e loucura parecem indefinidos. Por isso, vale a pena conferir e comemorar a 50ª montagem de Villela.

Serviço

Até dia 5 de junho. Quinta a Sábado, às 21h. Domingos e feriados, às 18h. (Saiba mais aqui)
14 anos.

Ficha Técnica 

Autor: Luigi Pirandello
Tradução: Claudio Fontana
Direção, adaptação e figurinos: Gabriel Villela
Elenco: Chico Carvalho, Rosana Stavis, Hélio Cícero, André Hendges, Regina França, Rogerio Romera, Jonatan Harold, Breno Manfredini e Artur Volpi.
Cenografia: J C Serroni
Iluminação: Caetano Vilela
Diretores Assistente: Ivan Andrade e Douglas Novais
Direção Musical, canto e arranjos vocais e instrumentais: Babaya Morais e Jonatan Harold
Assistente de Figurinos: José Rosa
Adereços de arte: Jair Soares Jr
Costureira: Zilda Peres
Maquiagem: Claudinei Hidalgo
Fotografia: João Caldas Fº
Assistência de Fotografia: Andréia Machado
Diretor de Palco: Tinho Viana
Operador de lua: PH Moreira
Camareiras: Ana Lucia Laurino e Maria Helena Arruda
Produção Executiva: Augusto Vieira
Direção de Produção: Claudio Fontana
Apoio: Só Dança

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