Crítica: Hamlet: 16 x 8, direção Marco Antônio Rodrigues

Autobiografia de Augusto Boal, “Hamlet E O Filho Do Padeiro: Memórias Imaginadas” é o mote do solo de Rogério Bandeira com direção de Marco Antonio Rodrigues.

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Hamlet 16x8 - Foto: Pio Figueiroa
Hamlet 16x8 - Foto: Pio Figueiroa

As memórias e experiências de Augusto Boal e o ator Rogério Bandeira sobrepõem-se e borram-se em Hamlet 16 x 8, atual cartaz do Teatro Sérgio Cardoso. Com direção de Marco Antônio Rodrigues, temas como família, palcos, professores, ditadura, exílio, medos e o basilar personagem shakespeariano são trazidos ao palco em uma montagem simples e cheia de qualidades.

Bandeira entra no palco afobado e declara sua admiração, e inspiração para os próximos 90 minutos, pelo livro Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas, de Boal, publicado em 2000. A partir daí as ideias vanguardista do diretor, marcadas pelo Show Opinião e o Teatro Arena, desencadeiam as lembranças afetivas e políticas do ator em cena.

Hamlet 16 x 8 - Foto: Pio Figueiroa
Hamlet 16 x 8 – Foto: Pio Figueiroa

O dramaturgismo vai no encalço do teatro pós-dramático com jeito de palestra, com poucos recursos de cenário, iluminação e sonoplastia. A montagem traz valiosos registros e torna-se um rememorar do diminuto Teatro Arena (na Rua Dr. Teodoro Baima, 94) à cena teatral local, nacional e até mesmo mundial. Lugar que trouxe nomes como Sérgio Britto, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Eva Wilma, Myriam Muniz e muitos outros reputados artistas.

Para vivenciar as reais dimensões do palco, Bandeira desenha no Sérgio Cardoso as dimensões reais do Arena. A partir daí pondera sobre as dificuldades até mesmo físicas de Boal em montar Hamlet, a personagem que traz a metafísica nos seus conflitos, após a morte do pai.

Passeia com graça e talento pela vida e obra do Boal em depoimento pessoal e coloquial, sua autobiografia. A prática é o dito e feito no show Opinião: a esfera privada, familiar e hamletiana do ator em tensão dialética com a atuação pública. Boal e Bandeira são intérpretes e personagens”, explica Rodrigues.

Inclusive Hamlet 16 x 8 traz os relatos de Boal em uma excursão pelo Nordeste, onde àquelas provocações revolucionárias foram colocadas à prova pelo sertanejos, em contato também com o lendário Padre Batalha. “A figura do padre, impressiona por sua sabedoria observadora, solidária e religiosa. Existe nela a contradição do amor indignado, empático, porém ríspido em seus diálogos e até violento, nada ingênuo“, conta Bandeira.

Assim, a montagem traz para cena a importância da ação, indo além da empatia aos movimentos revolucionários que, atualizado para os dia atuais, contesta as frívolas postagens nas redes sociais. Afinal, parece fácil discutir capitalismo, desigualdades, violência e revolução encastelados, sem nenhuma atitude real e efetiva para a mudança da vida dos vulneráveis.

Para isso o ator da Cia. Do Latão, Bandeira, atrita o dramaturgismo ao elaborar paralelos com Boal. E ganha potência nos acontecimentos envolvendo a ditadura militar. Ali o público examina de forma contundente a violência simbólica e estrutural dos tempos de repressão no Brasil.

Por sua vez, Hamlet 16 x 8 também fricciona com a vida do encenador. Uma das principais referências do teatro de grupo paulistano, com forte relação com o dramaturgo Plínio Marcos, dedicou-se nos últimos anos em obras de Boal. Como A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada (2019), Terrenal – Pequeno Mistério Ácrata (2018), ambos traduzidos pela esposa Cecília Boal.

Para destacar a importância de Rodrigues ao teatro nacional, como encenador e dramaturgo, foi considerado por Sábato Magaldi*, em 1974, com escrita “honesta, cheia de garra, despretensiosa, buscando furar o cerco das atividades por assim dizer oficiais com uma voz diferente”.

Obviamente, Hamlet 16 x 8 tem importância pedagógica aos estudantes e profissionais das artes da cena. Tem ali conteúdos tanto sobre a ação do ator quanto da relevância de Boal para a cena local e internacional. Por isso, fundamental como registro histórico.

Ademais, o cotidiano simultâneo de Boal e Bandeira evidencia também a atual guerra cultural destes nossos dias, presente nos frequentes discursos beligerantes do atual governo federal. Pautas conservadoras, de descrédito às instituições, uso de armas e até mesmo de um possível golpe militar a qualquer momento, refletem práticas de violência simbólica desses nossos dias.

Daí, ser-ou-não-ser na vida performada nas telas dos smartphones 16 x 8 volta a ser o conflito deste indivíduo metafísico e político. Quem somos? Quem é o espectro que perambula por aí? Quem é Cláudio, o usurpador da paz no reino de Hamlet?

Por essas e outras questões, vale a pena assistir.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

O livro Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas, de Augusto Boal, é uma sugestão compulsória, certo? As duas edições brasileiras estão esgotadas, mas quem for ao Teatro Sérgio Cardoso poderá comprar alguns volumes disponíveis lá. Também é possível adquirir pela internet, em sebos.

Em 2015, com o ator Bandeira e a Cia do Latão, Sérgio de Carvalho levou aos palcos Os Que Ficam, que tinha o filho Julián Boal como assistente de dramaturgia, numa adaptação de cadernos, livros e cartas de Boal. Lá analisava a ação do ator a partir do olhar do outro, um tema que é retomado na atual montagem no Sérgio Cardoso. O livro traz o texto dramatúrgico e tem versão para o Kindle.

#45 - Violências

Ouça o Rolê Urbano #45 – Violências que apresenta um agenda cultural pelos reflexos da cultura de agressão presente em ações diretas e indiretas, visíveis e invisíveis. O programa propõe filme, documentário, peça de teatro e exposições que te ajudam a pensar sobre isso. Clique aqui para ouvir.

Serviço
De 21 de agosto a 12 de setembro, sábados e domingos, às 18h.
Indicação etária: 14 anos.
Também disponível no Teatro Sérgio Cardoso Digital – Transmissão pela Sympla Streaming
Clique aqui para saber mais

*Amor ao teatro: Sábato Magaldi (Coleção Críticas) 

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