Crítica: Guerra De Papel – Uma Tragédia Urbana Musical, direção Jorge Alves

Peça da Tô Em Outra Cia. de Teatro apoia-se no mito de Antígona para tratar do genocídio diário às comunidades pretas e periféricas.

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Guerra de Papel - Foto: Andreza Rodrigues
Guerra de Papel - Foto: Andreza Rodrigues

A tragédia grega Antígona é atualizada pelas mãos da Tô Em Outra Cia. de Teatro, em Guerra De Papel – Uma Tragédia Urbana Musical. Aqui a heroína é a mãe negra e periférica que acaba de perder o filho por uma bala perdida dentro da sala de aula. Com dramaturgia de Andreza Rodrigues e Thuane Campos e direção de Jorge Alves, o estado injusto e cruel é mais uma vez indagado, em um musical cheio de boas qualidades, mesmo que os elementos fundantes do mito fiquem dissolvidos.

Antígona (Mayara Tenório) de Tô em Outra imprime as fotos do filho morto Aramiz e passa a remediar a sua dor, entre cenas com os colegas da escola, a professora (Claudine Palhàres) e a irmã Ismênia (Thayna Rodrigues). O drama familiar e de invisibilidade dos adolescentes sucedem em canções engajadas, com ares de vaudeville.

As músicas potentes e bem executadas pelo elenco urgem sobre a dor diária do genocídio dos negros nas periferias urbanas. O diretor musical Pedro Henrique Costa, com as letras de Rodrigues, Costa, Alves, Leo Matheus e Campos e músicas de Alves, Matheus e Costa constroem um universo realista.

Guerra De Papel é a segunda peça de uma trilogia criada pelo coletivo em busca das congruências entre o Teatro Grego e a periferia. Mesmo sendo a Grécia Antiga uma sociedade classista e escravocrata, a tentativa mostra-se válida quando avança nas questões míticas daquela sociedade.

A investida inicial foi no complexo de Orfeu e Eurídice na adaptação de Das Ruas, Um Orfeu De Mochila, em que mergulharam nas questões atuais do amor. O coletivo criado em 2012 e sediado no Jaguaré tem outras montagens no repertório, e ganhou vários prêmios com a primeira parte da trilogia.

Cabe dizer que além dos nomes das duas personagens centrais e o contexto trágico, da política genocida e diária brasileira nas periferias, são essas apenas as semelhanças com a Antígona de Sófocles. Mesmo com canções tão potentes, a dramaturgia fica devendo uma atualização real do mito, no extravio dos elementos fundantes do complexo, tanto na história, quanto das características do texto trágico grego.

Assim, a falta de uma história com personagens multifacetados e um fio condutor dramatúrgico com dramas, tramas e conflitos menos óbvios fragilizam a potência da montagem.

Intensidade, porém, perceptível na estética simples e cheia de qualidades proposta pelo diretor. Apoiado pelo cenário de Heron Medeiros que se constrói e desconstrói com poucos elementos; no desenho de luz funcional e realista de Fernando Ferreira; e, por fim, na genial proposta de figurinos, com certeza um dos destaques desta temporada, de Gabriela Araújo.

Os atores e atrizes Tenório, Rodrigues, Palháres, Cinthia Tomaz, Larissa Noel, Renan Marques e Uédia Alves ganham a cena e impressionam nos números musicais. Além de potência vocal, mostram-se extremamente conscientes da força política das canções e da relevância quando cantam.

Na mesma semana que estreiam grandes e caríssimos musicais em São Paulo (leia a crítica do e-Urbanidade de Charlie E A Fantástica Fábrica De Chocolate), encontrar um coletivo desde, aqui incluindo toda a equipe de criação, técnica e elenco é um estímulo à arte local e nacional. Como já disse Sábato Magaldi, é muito bom ver em cena a vocação autêntica dos jovens, “que utiliza(m) o palco para transmitir a alegria da criação”.

Por isso, Guerra de Papel é um encontro necessário entre o coletivo e o espectador. A emergência das questões apresentadas e gestadas na desigualdade colonizadora do país faz-se necessária. É preciso discuti-las e partir para a ação, inclusive de reparação. Para que Aramiz´s cresçam e produzam arte.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

Já que estamos falando de Antígona, a irmã que enfrenta o estado para seguir as leis divinas para enterrar seu irmão, confira a montagem Antígona em Ferguson, desenvolvido pela Theater Of War Productions. O projeto foi concebido após a morte de Michael Brown em 2014, e a produção mescla leituras dramáticas dos textos de Sófocles com um coral ao vivo formado por ativistas, jovens, professores, policiais e cidadãos preocupados de St. Louis, Missouri e Nova York.

O trailer da montagem pode ser visto neste link: https://youtu.be/oahSo9P5rgw. E a peça, neste: https://youtu.be/E7DtwZU0ID0. Se não estiver com o inglês em dia, as legendas automáticas do Youtube podem ajudar.

Segunda Chamada - foto: Divulgação
Segunda Chamada – foto: Divulgação

Guerra de Papel traz um importante registro sobre a situação das escolas públicas brasileiras. O que fica mais catastrófico com a pandemia e isolamento necessário da covid-19. Por isso, não deixem de conferir a série brasileira Segunda Chamada do Globo Play. Estrelada por Debora Bloch, Paulo Gorgulho, Thalita Carauta, Hermila Guedes e Silvio Guindane, é um programa para debater e aprofundar nas questões tão bem abordadas na montagem da Tô Em Outra Cia. De Teatro.

Serviço
De 3 a 26 de setembro de 2021. Sexta e sábado às 21h. Domingo às 19h.
Sessão extra – dia 24/09.
No dia 17/09 não haverá sessão.
Nos dias 11 e 18/09 haverá sessão acessível em Libras.
Sessões presenciais e virtuais.
Indicação etária: 12 anos
60 minutos.

Ficha Técnica
Texto de Andreza Rodrigues e Thuane Campos. Letras de Andreza Rodrigues, Jorge Alves, Paulo Henrique, Leo Matheus, Thuane Campos. Músicas de Jorge Alves, Leo Matheus e Paulo Henrique Costa. Arranjos Musicais de Paulo Henrique Costa e Leo Matheus. Direção Geral de Jorge Alves. Direção Musical de Paulo Henrique Costa. Músicos Instrumentistas: Fabrício Spezia (Piano e Teclas), Julio Lino (Baixo), Leo Matheus (Violão e Cavaquinho) e Tunuka (Percussão e apoio vocal). Direção de Movimentos e Coreografias de Gustavo Medeiros. Figurino de Gabriela Araújo. Cenário de Heron Medeiros. Assisten te de Direção: Andreza Rodrigues. Assistente de Produção: Thuane Campos. Design de Luz e Op.: Fernando Ferreira. Design de Som: Radar Sound. Assessoria de Imprensa: Arte Plural – M. Fernanda Teixeira e Macida Joachim. Programação Visual: Agência Artprint. Produção: Tô em Outra Produções Culturais. Realização: Tô em Outra Cia. de Teatro.

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