Crítica: Freud-Einstein, Maio de 1933, direção Lygia Barbosa | Blog e-Urbanidade

0
Freud_e_Einstein - Foto: Paulo Barbuto
Freud_e_Einstein – Foto: Paulo Barbuto

Um encontro ficcional entre duas figuras emblemáticas do século XX é o mote da peça Freud-Einstein, Maio de 1933, novo cartaz da companhia Circo Mínimo. Texto adaptado do escritor francês Alain Didier-Weill (1939 – 2018) e direção de Lygia Barbosa, a montagem teatral gravada e disponível, com hora marcada, nas redes sociais de unidades de CEUS´s, ganha atualização contundente (e preocupante) nesses dias obscuros no Brasil.

O coletivo, que tem o circo contemporâneo como referência, abre o espetáculo em metalinguagem: uma trupe que ensaia o texto Freud-Einstein, Maio de 1933. Tudo acontece em uma arena circense abandonada, em planos-sequência e cortes de câmera com enquadramentos e finalização bem cuidada. Paulo Gambale (Maká) assina a direção de fotografia, que dialoga com os padrões cênicos da companhia.

Conta-se que essa dramaturgia de Didier-Weill aproveita-se de uma série de cartas trocadas entre Einstein e Freud, que mais tarde foram publicadas no livro Por Que A Guerra?. Psicanalista, foi membro da École Freudienne de Paris, fundada por Jacques Lacan, o texto aplica-se a investigar, numa das suas camadas, os limites entre as ciências físicas e a então recente psicanálise. O embate é feito com boas considerações ao querer entender a ascensão de uma figura tão controversa como Hitler.

Enquanto Brecht em Terror e Miséria no Terceiro Reich aprofunda-se na compreensão dos comportamentos do homem e da mulher comum na construção do nazismo, aqui o dramaturgo aplica-se ao viés subjetivo. Assim, a oposição entre duas figuras tão importantes, oriundas de campos científicos antagônicos, revela cisões, contrassensos, mas também aproximações, num fecundo espaço para a reflexão.

Rodrigo Matheus assina a adaptação e reconhece o interesse pelo encontro entre Freud e Einstein pelas semelhanças com a época atual. Segundo ele, nestes dois momentos “há um cenário de negacionismo, polarização política e líderes políticos tiranos”. Sem dúvida, isso impacta o espectador atento, uma vez que muitas questões são atualizadas, incluindo aí também esse movimento recente de anticiência. E que emergem tanto do pensamento cartesiano matemático que frequentemente se contrapõe às ciências humanas, quanto pela ascensão atual da voz do “tio do pavê” nas redes sociais.

A direção de Barbosa recorta os quadros nesses planos-sequência bem definidos e que ajuda o acompanhamento do texto conciso e complexo. Além de criar um espaço de perguntas e respostas que ajudam o espectador leigo – por exemplo, em temas freudianos como pulsão de morte -, a estética circense torna tudo mais palatável. Há movimentos como pirâmides, malabares e subidas que também trazem elementos do circo feito no início do Século XX.

Joca Andreazza é Sigmund Freud e Matheus é Albert Einstein. Completam-se em cena Karen Nashiro que interpreta a filha Anna Freud, tornando-se um contraponto importante nas discussões. Leonardo Padovani assume a função de um músico burlesco e executa a trilha sonora acertada e assinada também por ele. Carla Candiotto colabora no preparo do elenco pequeno que está bem ajustado tanto a dramaturgia, quanto a estética.

E ainda nessa plástica circense e de espaço baldio colaboram a cenografia e figurino apurado de Marco Lima e a iluminação de Gabriel Greghi.

Obviamente, tratando-se de uma apresentação gravada, mesmo com aparência de teatro online, perde-se no flagrante do jogo, mas ganha-se no acabamento. Acerta também no distanciamento brechtiano usufruído na linguagem de circo e na leitura do texto, ao invés de decorá-lo. Por essas e outras Freud-Einstein: Maio de 1933 deve ser assistido.

(Re)encontrar esses elementos polarizantes, de discursos de ódios e anticiência têm sempre o valor pedagógico de nos lembrar que tais visões de mundo ainda não estão aniquiladas. E a montagem ganha grande importância ao retratar a perspectiva intelectual de Freud e Einstein, fundamentais na mudança de paradigma da subjetividade humana e das “leis” do universo. Não percam!

Serviço

São Rafael
16 de fevereiro
Terça, 15h e 18h
https://www.facebook.com/ceusaorafael

Casa Blanca
19 de fevereiro
Sexta, 10h e 16h
https://www.facebook.com/CEU-Casa-Blanca-Oficial-317417368323441/

FICHA TÉCNICA
A partir do texto original de Allain Didier Weill, tradução de Cristiane Cardoso Lollo
Direção: Lygia Barbosa
Elenco: Karen Nashiro (Anna Freud), Joca Andreazza (Sigmund Freud), Rodrigo Matheus (Albert Einstein) e Leonardo Padovani (Músico)
Concepção e adaptação do texto: Rodrigo Matheus
Consultoria Dramatúrgica: Alexandre Roit
Direção de Fotografia: Paulo Gambale (Maká)
Direção de Arte (Cenografia e Figurinos): Marco Lima
Iluminação: Gabriel Greghi
Trilha sonora: Leonardo Padovani
Direção de Atriz e Atores: Carla Candiotto
Coordenação Geral: Rodrigo Matheus
Produção: Marcela Marcucci
Assistência de Produção: Priscila Guedes e Ulisses Dias (Bará Produções)
Programação Visual: Fernando Sato – CasadaLapa

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui