Crítica: Flee – Nenhum lugar para chamar de lar, de Jonas Poher Rasmussen

Filme já recebeu mais de 80 prêmios, entre eles o de Melhor Filme no Festival de Annecy, e foi indicado em três categorias do Oscar.

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Flee - Nenhum Lugar Para Chamar de Lar
Flee - Nenhum Lugar Para Chamar de Lar

Flee é um desses filmes que já nos faz refletir em um primeiro momento sobre sua forma — sem contar o esplendoroso roteiro — que reúne animação e documentário. É comum entre críticos, cineastas e curadores estabelecerem uma linha de divisão entre as categorias cinematográficas, e classificá-la apenas como mais um gênero e não como uma técnica em si.

Há ainda uma ideia comum de que documentário e ficção pertençam a mundos diferentes. Porém, na verdade compartilham de muitas engrenagens narrativas que impactam o espectador.

Por meio de Flee, o cineasta Jonas Poher Rasmussen destrói completamente qualquer tipo de crença pré-concebida, ao misturar animação com documentário em um dos filmes mais incríveis que chega às nossas telas brasileiras, com distribuição da Diamond Films.

No longa, somos convidados a entrar nas profundezas das lembranças e no coração de seu protagonista, feito de cores bidimensionais e traços típicos de um desenho. Mas, traz em si os horrores da guerra no Afeganistão, contada com muita sensibilidade.

A animação como proteção de uma identidade

A produção executiva é dos atores Riz Ahmed, de O Som do Silêncio, e Nikolaj Coster-Waldau, de Game of Thrones. E é sobre uma história de resistência e coragem protagonizada por um homem cujo nome não pode ser revelado – para sua própria segurança e de sua família.

Diretor Jonas Poher Rasmussen
Diretor Jonas Poher Rasmussen

No roteiro esse é homem é chamado de Amin Nawabi, um acadêmico de 36 anos bem-sucedido que planeja se casar com seu companheiro, Casper. Mas há algo nele que sempre o impede de concretizar a união e de se comprometer emocionalmente com as pessoas.

Amin, refugiado afegão, aceita contar sua história pessoal com uma única condição que exige: a do anonimato. Assim, Rasmussen usa a técnica da animação como forma de proteger a identidade real do narrador e, consequentemente, dar mais força à sua história.

Sem perder a fidelidade ao relato original, e ao tempo cronológico, o poético está sempre presente. Além disso, Flee foi indicado ao Oscar 2022 simultaneamente nas categorias Melhor Animação, Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional.

Dessa forma, Amin é conduzido por seu amigo e terapeuta improvisado, Jonas Poher Rasmussen, em sessões de análise e que partem de um Afeganistão antes do Talibã. Um país que era moderno, ouvia A-Ha, assistia programas estrangeiros e tinha mulheres sem qualquer tipo de lenços cobrindo a cabeça, caminhando livremente pelas ruas.

Então, essa mudança radical pela qual o país sofre, dá lugar a um êxodo violento. Em que Amin e milhares de afegãos começam a recomeçar suas vidas longe de sua terra natal.

A subjetividade de um refugiado

Na uma hora e meia de duração do filme, nos aproximamos com a intimidade da vida de Amin, com também na dura realidade de quem emigra de sua terra. Muitas vezes ficam para trás a família e as histórias vividas.

Nos deparamos também com os medos do protagonista. Alguns comuns entre os refugiados, como voltar aos seus país e enfrentar o desconhecido, e aqui de um homem que ama outro homem.

Durante o filme e os diálogos nas sessões de terapia, percebemos que Amin teve que lidar durante muito tempo — mais precisamente vinte anos — com suas contradições, acontecimentos marcantes, frustrações e pressão.

Os recursos narrativos do filme nos levam à emoção em diversos momentos. Fazendo enxergar um Amin que acaba refugiado na Dinamarca, após passar por diversas situações sub-humanas, com um único intuito: o de sobreviver.

É por essa história que também nos solidarizamos e percebemos o impacto que as emigrações forçadas causam na vida de um ser humano. Às vezes, mesmo com condições e com superação de muitas adversidades, uma pessoa que passa muito tempo fugindo, tende a não reconhecer nenhum lugar como seu.

Pode também apresentar sintomas de autossabotagem por não sentir-se merecedora de uma vida comum, já que o trauma o condicionou a viver sob constante pressão e fuga. Desse modo, temos uma dimensão psicológica muito bem explorada em Flee.

Outro ponto a destacar é que o longa induz ao espectador a uma série de questionamentos sobre o papel dos traficantes de pessoas, tanto como salvadores, quanto aproveitadores. Nesse sentido, é bem incômoda a cena em que os passageiros de um cruzeiro são ao mesmo tempo espectadores e juízes na vida dos refugiados que cruzam uma fronteira.

Com uma forma sutil, Rasmussen nos faz pensar sobre a atitude moral e o egoísmo das pessoas de uma maneira usual, principalmente na maneira como lidamos com os refugiados. Aqui obviamente o filme não propõe um olhar imparcial, tomando partido sobre questões éticas e humanitárias.

Flee atravessa a barreira entre realidade e ficção, trazendo o paradoxo em uma forma fantasiosa de contar a história — o formato de animação.

Dessa maneira, quem assiste é convidado a entrar e acompanhar uma história real de sofrimento, desde a realidade do Afeganistão, à superação das memórias e medos de um menino e homem gay.

Portanto, trata-se de uma travessia densa, profunda e comovente, que faz com que o espectador se misture nas emoções do protagonista.

Ficha Técnica

Direção: Jonas Poher Rasmussen
Roteiro: Jonas Poher Rasmussen e Amin Nawabi
Produção: Monica Hellstrøm, Signe Byrge Sørensen
Produção da animação: Charlotte De La Gournerie
Direção da animação: Kenneth Ladekjær
Elenco: Sofia Buenaventura, Julián Giraldo, Karen Quintero, Laura Castrillón, Moises Arías, Sneider Castro, Julianne Nicholson
Trilha Sonora: Uno Helmersson
Montagem: Janus Billeskov Jansen
Gênero: documentário, animação
País: Dinamarca, França, Noruega, Suécia, Países Baixos, Reino Unido, Estados Unidos, Finlândia, Itália, Espanha, Estônia e Eslovênia
Ano: 2021
Duração: 89 min.
Distribuição: Diamond Films.

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