Crítica: Eu Me Importo, direção de J Blakeson

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Rosamund Pike em Eu Me Importo – Foto: Divulgação Netflix

Ao assistir ao trailer de Eu Me Importo, desatentos e desatentas podem cair na besteira de acreditar que se trata de um filme de comédia. A produção, que estreou em fevereiro de 2021 na Netflix, é vendida como uma comédia de humor ácido, mas o telespectador dificilmente soltará uma risada sequer.

O diretor J Blakeson

Eu Me Importo, dirigido por J Blakeson, conta a história de Marla Grayson, uma golpista que tem idosos como suas vítimas. Seu modus operandi é simples: ela convence juízes a lhe darem a guarda de algumas pessoas de idade, afirmando que elas não conseguem tomar conta de si mesmas. Ela aprisiona esses idosos em uma clínica de repouso e vende todas as suas propriedades.

Só por essa sinopse dá pra perceber que o longa não é exatamente leve. Eu Me Importo não te fará dar gargalhar, pelo contrário. É mais provável que você passe o filme todo roendo as unhas, em um misto de ansiedade e raiva. O humor – se é que podemos chamar assim – baseia-se no absurdo dos acontecimentos, e na escalada dos personagens rumo à loucura. Em determinados momentos lembra o argentino Relatos Selvagens.

O absurdo das sequências é magistralmente conduzida pela direção de Blakeson, que traz uma paleta de cores muito viva e cortes rápidos para manter o ritmo acelerado. Além do próprio roteiro, que te deixa com uma sensação ruim e incômoda, fica-se a pergunta: “será que na vida real existem pessoas que fazem a mesma coisa que a Marla?”. Se sim, causa desespero!

Foto: Divulgação Netflix

Rosamund Pike

E enfim chegamos à protagonista, Marla Grayson, interpretada por Rosamund Pike. Ao assistir Eu Me Importo, fica claro que a atriz encontrou a sua zona de conforto: personagens de caráter e moral altamente questionáveis.

Esse tipo de papel deu destaque também a ela, em 2014, com o sucesso de Garota Exemplar. Após interpretar com maestria a maquiavélica Amy Dunne no longa de David Fincher, não é de se espantar que outros diretores tenham procurado a atriz para reviver a fórmula de sucesso.

É exatamente essa a sensação que temos ao assistir Eu Me Importo: como se Amy Dunne e Marla Grayson fossem a mesma pessoa, ou pelo menos coexistissem no mesmo universo. As duas são cruéis, inteligentes e vão até as últimas consequências para conseguirem o que querem.

A diferença é que, em Garota Exemplar, nós torcemos por Amy, por mais psicótica que ela seja. O filme é construído de uma forma que, mesmo quando acontece aquele grande plot twist, nós estamos tão envolvidos com a história da personagem que não conseguimos simplesmente odiá-la.

O mesmo não acontece em Eu Me Importo. Dos minutos iniciais aos finais do filme, o único sentimento que o telespectador tem em relação à Marla é raiva. Ela é muito mais dura do que Amy, e ao mesmo tempo extremamente bidimensional.

Elza González

O filme parece indeciso em relação a aprofundar ou não a vida da personagem. No relacionamento com Fran (personagem de Eiza González) temos um vislumbre de um lado mais carinhoso de Marla, ao mesmo tempo em que outra cena dá a entender que a protagonista tem problemas com a mãe. Mas nada é convincente o suficiente para nos fazer torcer por ela.

Eu Me Importo em nenhum momento se preocupa em ser moralista, ou fazer as coisas certas pelas razões certas – as próprias “motivações” de Marla, apoiadas em uma visão deturpada do feminismo, estão aí para provar isso.

Peter Dinklage

Rosamund Pike e Peter Dinklage – Foto: Divulgação Netflix

O longa traz dois extremos: a golpista de um lado e o líder da máfia Roman Lunyov (interpretado por Peter Dinklage), do outro. Nenhum dos dois é o mocinho e nem fazem as coisas pelos motivos certos. Isso deixa o espectador em um grande dilema: para qual dos vilões será que eu torço? E será que essa torcida diz algo sobre mim?

É um filme divertido que não se propõe a grandes discussões ou questionamentos. Apesar de não ter uma fórmula inovadora, ele se sustenta em sua narrativa, e ainda traz uma ótima chance de vermos Rosamund Pike, numa persona que faz muito bem.

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