Doc Escrevendo Com O Fogo, de Rintu Thomas e Sushmit Ghosh

Documentário retrata a luta de um grupo de mulheres indianas que há vinte anos mantêm um jornal independente, quebrando barreiras em uma sociedade machista e violenta.

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Escrevendo Com O Fogo
Escrevendo Com O Fogo

Quando mulheres se unem e se propõem a quebrar com estruturas vigentes, não há nada que as impeça. Isso no Ocidente. Mas, e quando se vive em um país do Oriente e com dominação masculina, principalmente sobre os meios de comunicação? Isto seria possível? A resposta é: sim.

O documentário Escrevendo Com O Fogo é produzido pelos premiados Rintu Thomas e Sushmit Ghosh, e mostra a coragem feminina em romper padrões nos meios de comunicação indianos, tradicionalmente liderado por homens.

O filme acompanha a rotina das jornalistas do periódico Khabar Lahariya, primeiro e único meio de comunicação indiano integrado pelas mulheres dalit, a casta mais baixa do país. Indicado ao Oscar 2022, o documentário já está disponível nas plataformas digitais Claro Now, iTunes/Apple, Google/YouTube e Vivo Play.

Para entender como funciona o sistema midiático indiano, é importante entender primeiramente como funcionam os sistemas de castas no país.

O sistema de castas na Índia x força feminina

O sistema de castas indiano é um dos modelos mais antigos de estratificação conhecido dentre as diversas civilizações. O sistema divide os hindus em uma hierarquia baseada em seu tipo de trabalho e religião, conhecidos como dharma e karma.

No caso das mulheres retratadas no documentário, elas fazem parte do grupo dalit, uma das castas mais baixas do país. É considerada tão impura, que são excluídos do sistema e são nomeados pejorativamente de “intocáveis”, devido à sua natureza hereditária, que data do século 16. E é de uma imobilidade social disfuncional.

Durante o filme, acompanhamos a rotina das repórteres do Khabar Lahariya, primeiro e único meio de comunicação indiano totalmente formado por mulheres dalit. Assim, elas lutam por um jornalismo democrático e por uma sociedade mais justa.

O documentário inicia com o depoimento de uma vítima, que vive em uma zona rural dominada pela violência. Isso aconteceu de tal forma, que uma delas foi estuprada em diversas ocasiões por um grupo de homens que entrou em sua casa. “Khabar Lahariya é a nossa única esperança“, determina o marido da vítima.

No entanto, no decorrer do filme, muitas outras histórias e denúncias são apresentadas: assassinatos, corrupção policial e política, violação de direitos humanos, mineração ilegal, entre muitas outras. Então, com esse pano de fundo, pode-se entender melhor a importância do jornal, que foi criado em 2002, sob as ameaças de outros meios midiáticos mais potentes.

O documentário também explora a transição da migração do Khabar Lahariya do papel para o digital. Para muitas das jornalistas que estão ali é o primeiro contato com telefone celular e com os meios digitais, evidenciando assim uma fragilidade nessa transição.

O trabalho das jornalistas é tão eficaz e causa tanta polêmica e resultados, que provoca incômodo nos grandes jornais liderados por homens. Isso tudo faz com o espectador compreenda melhor sobre as dificuldades do dia a dia jornalístico, em lidar com intimidações, menosprezo, sacrifícios e acusações. Hoje, o Khabar Lahariya conta com mais de meio milhão de seguidores no canal do YouTube.

O doc também mostra os bastidores e a pressão que as repórteres passam em seus lares, já que muitas delas lidam com maridos e com famílias que acreditam que elas não podem e não devem trabalhar. Outra dificuldade é a de formar outras profissionais para prosseguirem com veículo, já que a educação entre elas é basicamente nula, devido à casta em que se encontram.

“Geralmente, em um filme jornalístico, temos um caso que se torna o coração da história. Aqui, a forma que a história é estruturada e contada é totalmente diferente. Sim, elas são jornalistas, mas elas também são mulheres determinadas e era isso que queríamos colocar como o centro do filme”, explica Thomas.

É importante destacar que o documentário se passa em um ambiente extremamente turbulento, em que a democracia do país está transicionando a um nacionalismo extremista.

Outro ponto de reflexão é o de retratar como a Índia não está tão distante do Brasil. Com profundos abismos sociais, com a mistura de religião e política em jogos de poderes e com a brutal violência contra a mulher, o documentário espelha a sociedade brasileira, mostrando que a Índia é logo aqui.

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