Crítica: Enquanto Houver Amor, direção William Nicholson

Longa-metragem de William Nicholson, com Annette Bening, Bill Nighy e Josh O’Connor, trata da crise de um casal com 29 anos de casados.

0
33
Enquanto Houver Amor - Foto: Califórnia Filmes
Enquanto Houver Amor - Foto: Califórnia Filmes

Amor e dor. Dois sentimentos opostos, mas que frequentemente caminham juntos nas mais diversas esferas das artes, seja no teatro, no cinema, na dança, ou na música. De Platão a Shakespeare, de Camões a Cervantes, desde o início dos tempos, esses são sentimentos que causam algum tipo de impacto em qualquer ser humano. Isso acontece independente de gênero, raça, nacionalidade, sexo ou condição social: todos somos impactados de alguma forma por eles. 

O amor e as relações são temas tão complexos da humanidade que até a psicologia estabeleceu uma sequência de fases: paixão e encantamento, desilusão, o amor em si, conflitos e aprofundamento, comprometimento, rotina e por fim, maturidade emocional. Mas o que acontece quando se convive com alguém por 29 anos, e provavelmente a relação já passou e até repassou por todas essas fases?

Essa é uma das muitas reflexões que o longa-metragem Enquanto Houver Amor nos faz. Com direção de William Nicholson, indicado ao Oscar pelos roteiros de Gladiador e Terra Das Sombras, o filme traz os veteranos Bill Nighy e Annette Bening, ao lado do jovem ator Josh O’Connor, contando a história de um casal Grace (Bening) e Edward (Nighy), que está casado há 29 anos. No dia da visita do único filho deles, Jamie (O’Connor), Edward decide que quer se divorciar de Grace. 

Em muitas produções é possível ver que o tema da separação é desenvolvido e retratado sob a ótica dos filhos quando ainda são crianças, e que de fato, é uma experiência que pode ser traumática. Mas nesse longa, Nicholson aborda esse impacto sob uma ótica diferenciada: o impacto dessa separação na vida de um filho adulto e independente. 

Annette Bening e Bill Nighy em Enquanto Houver Amor - Foto: Califórnia Filmes
Annette Bening e Bill Nighy em Enquanto Houver Amor – Foto: Califórnia Filmes

O filme possui diálogos marcantes e que nos trazem muitas reflexões sobre as relações: a dor do amor, a frustração,a sensação de abandono, o desejo de reconstrução, o luto e a maneira como lidamos com as perdas, sejam elas quais forem.

O diretor também explora muito bem a complexidade e exigência das relações entre marido e mulher, mãe e filho, pai e filho, nos convidando a refletir sobre os mais diversos prismas dessas relações. 

O par de atores veteranos e o jovem O’Connor realizam um trabalho de  construção de personagem sólida, cheia de nuances e paradoxos. Sobretudo chama a atenção a interpretação de Nighy, como um homem resignado, apático, seco e com um ar melancólico, que prende a atenção do espectador.

O enredo de Enquanto Houver Amor traz uma atmosfera de sufocamento em determinados momentos, da mesma maneira em que o personagem Edward diz se sentir em alguns diálogos. Por outro lado, vemos uma Grace altiva, forte, e, em alguns momentos, até autoritária. Mas muda drasticamente após o comunicado de divórcio do marido, com a interpretação notável de Bening. 

Já Jamie, o filho do casal, nos conduz como um elo na relação entre pai e mãe, no meio de uma situação embaraçosa, sem poder tomar partido. Assim, tenta levar sua vida adulta incólume, mas sem sucesso. Tudo isso traz algumas repercussões psicológicas, nas quais ele acaba enxergando muito de seus pais em si mesmo. 

Um outro ponto interessante é que a relação dependente entre mãe e filho também ganha novas perspectivas com a separação de Edward e Grace: o acontecimento a leva a reavaliar seu relacionamento com o filho. E ela ainda passa a amar Jamie de forma incondicional, sem tantas exigências e tantas imposições maternas. 

Entre os diálogos inteligentes e a sensação de desconforto que revelam as relações desgastadas, mas que provavelmente chegam ao seu fim, o espectador toma algum fôlego com imagens marítimas, interseccionadas em momentos da trama. Há o vento do oceano e de sua imensidão que é quase como um paralelo para toda a complexidade das relações das personagens e de seus vazios.

O filme, portanto, trata de relações que tiveram êxito em algum momento de suas existências. Porém necessitam se encerrar, tal como acontece frequentemente na vida real, e não apenas nas telas ou na arte.

Nessa trama não há vilões: há apenas pessoas que viveram muito tempo sob erros antigos e que agora estão pagando o preço. Afinal não há respostas fáceis nem caminhos simples, quando se trata de relações.

Enquanto Houver Amor é sobre isso: um marido, uma esposa e um filho que são forçados a enfrentarem verdades duras e assim precisam criar novos rumos.

Enquanto Houver Amor | Hope Gap
Direção: William Nicholson
Elenco: Annette Bening, Bill Nighy, Josh O’Connor
Gênero: Drama
País: Reino Unido
Ano: 2019
Duração: 100 min
Estreia: 11 de novembro nos cinemas do Brasil

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here