Crítica: E O Céo Uniu Dois Corações, direção Fernando Cardoso

Montagem da companhia teatral As Tias aposta no clássico do circo-teatro de Antenor Pimenta, com direção de Fernando Cardoso.

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E O CÉO UNIU DOIS CORAÇÕES - Foto: João Caldas
E O CÉO UNIU DOIS CORAÇÕES - Foto: João Caldas

No circo é assim: de repente se ri à vontade, de coisas simples, como um apito que falha, uma música esganiçada ou uma maquiagem extravagante. É nesse universo lúdico e lírico que o espectador adentra na nova montagem da companhia teatral As Tias, E O Céo Uniu Dois Corações, com direção de Fernando Cardoso.

O texto adaptado de Antenor Pimenta (1914-1994), referência como dramaturgo e ator do circo-teatro na década de 1940, é cheio de quiproquós, elemento constituinte da comédia de intriga. 

O pai do mocinho Alberto é assassinado por De La Torre, mas quem leva a culpa é Fernando, pai de Neli. Neli e Alberto apaixonam-se anos depois e De La Torre, que se tornou tutor do rapaz, cria uma série de estratagemas para separá-los.

A dramaturgia estrutura-se em movimentos sempre provocados pelo vilão e antagonista, De La Torre, em que heróis e heroínas tentam se safar a todo momento.  

Mesmo que o final não seja feliz, há um valor pedagógico nesse argumento em que, segundo a autora Ivete Huppes*, induz o espectador a refletir sobre o que aconteceu, levando-o a analisar em qual ponto o ato trágico poderia ser revertido.

Quanto a encenação, o diretor artístico Cardoso apropria-se da estética circense com propriedade. Vale-se da cenografia assinada por Marcelo Andrade que se utiliza de poucos móveis e os objetos cênicos que parecem ter saído de um HQ.

Já os figurinos recortados e assimétricos, em paleta escura, de Victoria Moliterno têm como peça principal coletes de largos bolsos para acondicionar os objetos cênicos. A iluminação de Wagner Freire reforça o universo de picadeiro e marca a boca de cena para o registro dos narradores.

Cardoso mostra originalidade em utilizar o elenco como curingas. Andrade, Cibele Troyano, Joseli Rodrigues, Marcos Thadeus, Maria do Carmo Soares e Salete Fracarolli trocam-se entre as personagens

Essa fluidez dá diferentes oportunidades aos atores e atrizes, e ainda utiliza uma das características basilares do teatro, ou seja, a designação cênica. Assim, Soares, com 70 anos, torna-se com uma simples determinação uma vilã ou uma adolescente ingênua e pura. 

O carisma do elenco maduro, embalados pelo prazer de estar em cena, é o que torna o espetáculo tão cativante. Desse modo, tudo é dito e colocado em cena com cuidado e sentido, mostrando que histórias, quando bem contadas, envolvem e comunicam. 

E O Céo Uniu Dois Corações d’As Tias também aplica-se a formação de público. Isso pela estética circense tão importante e fundamental às artes, quanto na composição esquemática da comédia de intrigas. Estão lá as conspirações, estratagemas e jogos de erros das cartas, armas e relatos.

Desde Aristófanes (447 a.C – 385 a.C), passando por William Shakespeare (1564 – 1616) até Arthur de Azevedo (1855- 1908), as comédias de intrigas servem-se a revelar, por meio do riso, as crueldades gestadas pela ambição.

Afinal, cada tempo mostra seus algozes e criminosos. De La Torre está por aí, em cada kit-covid receitado, vacina não comprada ou fake news forjada.

Felizmente o circo e a comédia nos fazem rir de forma simples e despretensiosa da brutalidade humana. Cabendo-nos lutar por finais felizes e, quando trágicos, a encontrar os pontos que poderiam ser revertidos. 

*HUPPES, Ivete. Melodrama: o gênero e sua permanência. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2000.

Serviço
De 7 a 31/10, quinta a domingo, às 20h. (Clique aqui para mais informações)
Indicação etária: 12 anos.

 Ficha técnica

Autor: ANTENOR PIMENTA. Adaptação: AS TIAS. Direção Artística: FERNANDO CARDOSO.

Musical: TATO FISCHER. Produção: MARCOS THADEUS. Cenografia: MARCELO ANDRADE. Figurinos: VICTORIA MOLITERNO. Iluminação: WAGNER FREIRE. Fotografias: JOÃO CALDAS. Produção Executiva: FELIPPE LIMONGE e NAYARA ROCHA. Designer Gráfico: GIOSTRI. Assessoria de Imprensa: ARTE PLURAL. Elenco: CIBELE TROYANO, JOSELI RODRIGUES, MARCELO ANDRADE, MARCOS THADEUS, MARIA DO CARMO SOARES e SALETE FRACAROLLI.

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