Crítica: Diários do Abismo, direção Sérgio Módena – Blog e-Urbanidade

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Diários do Abismo - Foto: Divulgação
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Diários do Abismo – Foto: Divulgação

Ao comemorar os quarenta anos de carreira da atriz Maria Padilha, o SESC 24 de Maio  recebe o monólogo Diários do Abismo com direção de Sérgio Módena. A dramaturgia de Pedro Brício é uma adaptação dos registros da escritora mineira Maura Lopes Cançado durante seu período de internação em sanatórios e clínica, desde a década de 1960.

Desde os 7 anos de idade Maura Cançado inventava suas personagens e teve seus primeiros ataques epiléticos. Diagnosticada como psicótica, passou por diversos sanatórios e clínicas psiquiátricas. Seus dois livros retratam sua rotina e tratamentos, publicados em 1965, Hospício é Deus, e 3 anos depois, O Sofredor do Ver.

A narrativa apresenta a sequências dos dias de internação e as relações de Maura com médicos, enfermeiras e outros internos. O universo é desbravado desde o abuso sexual na infância ao casamento e divórcio, incluindo a ida ao Rio de Janeiro e a contratação como escritora no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Tudo isso entremeados com suas idas e vindas por manicômios e clínicas. Fica fora do relato o assassinato cometido pela escritora, em uma crise psicótica, a uma paciente grávida internada, o que maculou sua carreira.

Mesmo diante do tom épico, Módena parte de uma encenação simples, apoiada no tom leve característico de Maria Padilha. Assim, as histórias vão revelando a crescente loucura da personagem, sem pesar a mão. O que é elogiável ao fugir de esteriótipos e clichês, mas que dá um ar pasteurizado aos dramas e à aspereza dos manicômios.

Mesmo neste avanço gradativo da insanidade apoiado pelo cenário de André Cortez – que são livros transformados em janelas -, a desordem na cenografia e a maquiagem desalinhada parecem rasas. Também ao tomar algumas atitudes transloucadas da personagem como sendo propositadas, mesmo divertidas, suavizam ainda mais.

Maria Padilha é uma atriz de muitas nuances, extremamente carismática e regular na montagem. Assim que entra em cena, dá boa noite, informa que é Maura Lopes Cançado e já leva o público consigo. A escolha de não buscar a silhueta da mulher mineira na encenação e a leveza distancia o assistidor ao drama da autora e deixa na mão do magnetismo da atriz os aplausos – merecidos! – finais.

Diários do Abismo não é apenas sobre a loucura e os tratamentos desumanos de anos atrás, mas sobre uma mulher cercada de preconceitos misóginos e da sua sanidade. Julgada em vida, diante do esquecimento do público após o assassinato da colega grávida. Talvez um dos relatos mais fortes da nossa literatura, não incluídos na dramaturgia de Brício.

A montagem é um importante reacender da literatura de Cançado, que ao ser comparada com Lispector, por Carlos Heitor Cony, afirmou: “Clarice de certa forma, viveu em sua redoma: Maura não. Maura não é peixe de aquário: é peixe de oceano, que vai fundo.”

Mesmo que a imersão ora proposta em Diários do Abismo não seja em alto-mar, vale a pena conferir a literatura e Maria Padilha em cena.

Serviço
Até 07 de abril.  Quinta a Sábado às 21h  e Domingo às 18h (Clique nos dias da semana para ter acesso a agenda do blog).

Ficha Técnica
Obra original: Maura Lopes Cançado
Dramaturgia: Pedro Brício
Elenco: Maria Padilha
Direção: Sergio Módena
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenário: André Cortez
Figurinos: Marcelo Pies
Projeções: Batman Zavareze
Trilha sonora e composição original: Marcelo H
Assessoria de imprensa: Morente Forte Comunicações
Direção de produção: José Luiz Coutinho e Wagner Pacheco
Realização: Cena Dois Produções Artísticas

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