Crítica: Cuidado Com As Velhinhas Carentes e Solitárias, direção Fernando Philbert

0
127
Cuidado com as Velhinhas - Foto: Vinícius Giffoni
Cuidado com as Velhinhas - Foto: Vinícius Giffoni

Quem são as pessoas que vivem nos dias atuais? Em tempos democráticos, em que a liberdade de expressão é seu fundamento, o mundo deveria ser perfeito, certo? A partir desta reflexão, e por um viés cético, quatro peças curtas do dramaturgo franco-romeno Matéi Visniec recebem uma versão do diretor Fernando Philbert, no que chama de teatro cinema.

Cuidado com as Velhinhas – Foto: Vinícius Giffoni

Em cenas gravadas em estúdio, mas com uma estética de teatro presencial, os planos, contra planos e recortes próprios do cinema dão um acabamento cuidadoso à proposta.

Visniec dialoga nestas curtas cenas com os elementos do teatro do absurdo. Presentes em clássicos de Fernando Arrabal, como em O Arquiteto e O Imperador da Síria, Eugène Ionesco, em A Cantora Careca, e ainda Samuel Beckett em Fim de Partida. Avança o dramaturgo franco-romeno na precariedade das relações construídas nos paradoxos da sociedade industrial, moderna e democrática. Chamam a atenção a falta de escuta ativa, a incongruência na percepção do outro e a solidão, mesmo estando juntos. Sim, o olhar é um tanto niilista.

São quatro sequências: Pense Que Você É Deus põe na mão de uma jovem de 17 anos numa arma, durante um treinamento feito por um franco atirador; Com As Velhinhas Carentes E Solitárias dá dicas de como exercer a mendicância, num programa de tevê; Um Café Longo, Um Pouco De Leite Separado E Um Copo D’água coloca dois estranhos numa conversa de bar, sem nenhuma escuta ativa, em que não se sabe quem está vivo ou em coma; e, por fim, A Máquina De Pagar Contas trata da mesma garçonete da cena anterior em conflito com a sua visibilidade e lugar no mundo.

A dramaturgia fragmentada é apropriada adequadamente por Philbert, possibilitando que os dois atores em cena, Ester Jablonski e Joelson Medeiros, compreendam de maneira genuína o universo de Visniec. A maturidade do elenco impressiona ao alcançar nuances, camadas e limites.

Também há na estética uma exploração de um não lugar, sem referências temporais ou geográficas. A cenografia de Natália Lana, os figurinos de Marieta Spada e a iluminação de Vilmar Olós comunicam eficientemente com a direção de fotografia de Nando Chagas.

Produzida em tempos tão difíceis, a montagem híbrida de Cuidado Com As Velhinhas Carentes e Solitárias é mais uma das gratas surpresas do momento. Enquanto o teatro presencial virou uma impossibilidade e as poucas políticas públicas chegam para dar um suspiro à classe artística, a proposta criativa e acertada é um conforto.

A grande verdade, no entanto, é que essa montagem tem muito a nos dizer sobre como conseguimos nos distanciar da humanidade, em nome de utopias tão caras por todos. Há em cada cena a exposição do desconforto em que nos metemos no mundo contemporâneo. Portanto, a potência da dramaturgia, da encenação e dos intérpretes está no ato de nos emudecer diante incompreensão mútua que nos metemos, sem qualquer absolvição.

Serviço
De 20 de fevereiro a 30 de março de 2021. Sábados, segundas e terças, às 21h, e domingos, às 19h.
A peça é assistida pelo Facebook, Instagram ou YouTube, acessando o link: https://linktr.ee/CuidadoComAsVelhinhas
As representações contam com intérprete de Libras.
Indicação Etária: 12 anos.

Ficha técnica
Texto: Matei Visniec
Direção: Fernando Philbert
Atriz: Ester Jablonski
Ator: Joelson Medeiros
Cenografia: Natália Lana
Figurino: Marieta Spada
Iluminação: Vilmar Olós
Trilha Musical: Marcelo Alonso Neves
Diretor de Fotografia e Edição de Vídeo: Nando Chagas
Designer: Barbara Lana
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Mídias Sociais: Denise Dambros
Fotos de Divulgação: Vinícius Giffoni
Produção Executiva: Sergio Canízio
Produção: Jablonsky Produções

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here