Crítica: COBRA NA GELADEIRA, direção Marco Antônio Pâmio – Blog e-Urbanidade

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Cobra na Geladeira - Foto: Gal Oppido
Cobra na Geladeira - Foto: Gal Oppido

Está em cartaz no Teatro Viradalata, depois de uma temporada no Centro Cultural São Paulo (CCSP), a versão de Marco Antônio Pâmio para a peça Cobra na Geladeira, do dramaturgo canadense Brad Fraser. A história relata os conflitos de um grupo de amigos que dividem uma república, num casarão misterioso.

Cobra na Geladeira - Foto: Gal Oppido
Cobra na Geladeira – Foto: Gal Oppido

A dramaturgia inova ao apresentar nove personagens por meio fe cenas curtas, próprias da linguagem cinematográfica. São 100 cenas que vão levando o assistidor pelos diferentes dramas, retratando a dura realidade desses indivíduos, envolvendo sexo, preconceito de idade, racial e sexual, dependência química e, por fim, amores.

Pâmio constrói a encenação com ritmo ágil e nervoso, já que a dramaturgia se propõe a contar essas histórias de forma acelerada. Para isso utiliza diferentes recursos, como a criação de distintos planos pela iluminação, marcações e ainda o uso de uma trilha sonora eficiente.

A narrativa entrecortada ao mesmo tempo que coloca o espectador numa montanha russa de situações, acaba se tornando o maior risco de Cobra na Geladeira. Além das necessárias e repetidas elaborações para as mudanças de cenas, o elenco atua em altos e baixos diante da multiplicidade e complexidade das suas personagens. E fica ainda mais complicado quando caem no tom fácil, ou de caricatura ou de maneirismo.

Talvez a grande dificuldade da montagem seja em dar coesão e entendimento aos atores nos tantos quadros propostos por Fraser. Há sim nos intérpretes e encenador muita coragem ao se enfronhar em uma dramaturgia tão original, mas mesmo tratando-se de uma direção experiente há a necessidade de que privilegie mais o trabalho do ator do que o ritmo.

Algumas falas, em final de cena, ficaram quase inaudíveis, como se jogadas, revelando mais a intenção de ser ágil do que entregar novos elementos à história. (Felizmente, o teatro é vivo e talvez o elenco não estivesse no seu melhor dia.)

Cobra na Geladeira revela sobre as vontades adormecidas, mas que podem vir à tona em situações extremas.  Quando Dany (Juliane Arguella) e Keila (Marina Possebon) saem da cena derradeira, levando a tal cobra, expõe a necessidade de conviver com esses desejos, pois deixá-los aprisionados ou escondidos pode ser ainda mais perigoso.

Conferir esse texto tem uma importância quase pedagógica para a compreensão de alguns extratos sociais contemporâneos. Quando Tony (personagem de Esdras de Lúcia) relata os desdobramentos de um insulto presenciado por ele em um banco, demonstra muito dessa polarização, marca das discussões nos mais diferentes níveis nos dias de hoje.

[toggle title=”Saiba mais sobre o dramaturgo Brad Frase” state=”close”]

O canadense Brad Frase é considerado um dos nomes importantes na dramaturgia mundial. É conhecido por trazer em suas peças uma visão ao mesmo tempo dura e cômica da vida contemporânea. Seu teatro flerta com a linguagem cinematográfica, ao trazer diálogos ácidos, diretos e rápidos e não respeitar as famosas unidades de espaço/tempo/ação.

Segundo sua própria definição, seus personagens têm em comum o exercício pessoal de tentar se encaixar na sociedade em que vivem: sociedades industrializadas, assépticas, destituídas de noções comunitárias e brutalmente desumanizadas. Por trás da nova velha ordem econômica, erguida nos velozes anos 90, a exclusão material faz par com a exclusão do afeto.

Algumas de suas obras são Wolfboy (1981), Amor e Restos Humanos (1989), Pobre Super Homem (1994), Martin Yesterday (1998), The Ugly Man (1994), Cold Meat Party (2003), True Love Lies (2009), Five @ Fifty (2012) e Kill Me Now (2015).

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Serviço:
Até 25/11/2018 –  sábados, às 21h30, e domingos, às 18h30.

FICHA TÉCNICA
Autor: Brad Fraser
Tradução e Direção: Marco Antônio Pâmio
Elenco: Esdras de Lúcia, Felipe Hofstatter, Gustavo Moura, Juliane Arguello, Lui Vizotto, Marina Possebon,  Regina Maria Remencius, Rodrigo Basso e Tailine Ribeiro
Assistente de direção: Gonzaga Pedrosa
Cenografia: Duda Arruk
Execução cenográfica: FCR- Produções Artísticas ltda
Supervisão cenográfica: Luis Rossi
Figurino: Fábio Namatame
Luz: Wagner Antônio
Fotos: Gal Oppido
Programação Visual: Gal Oppido Fotografia e Comunicação
Trilha Sonora: Marco Antônio Pâmio
Música Incidental Original: Ricardo Severo e Rafael Thomazini
Produção Musical: Several Sounds
Preparação Vocal: Lui Vizotto
Operação de Som: Rafael Thomazini
Assistente e Operação de Luz: Douglas de Amorim
Produção: Valentina Produções
Coordenação de Produção: Taís Somaio
Co-Produção: Gustavo Moura
Assistente de Produção: Tainá Somaio
Assistente de Figurino: Juliano Lopes
Estagiário de Iluminação: Gustavo Viana
Contrarregras: Eder Soarez e Lidio Soares
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

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