Crítica: Chernobyl, direção Bruno Perillo | Blog e-Urbanidade

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Chernobyl - Foto: Felipe Cohen
Chernobyl - Foto: Felipe Cohen
Chernobyl - Foto: Felipe Cohen
Chernobyl – Foto: Felipe Cohen

Há nas tragédias originadas pela negligência e ganância dos homens muito sobre a sociedade complexa e perniciosa em que vivemos. Desde o holocausto dos judeus, Hiroshima e Nagazaki, as torres gêmeas do Word Trade Center, Mariana, Brumadinho a, também, Chernobyl.

Uma série de explosões, em 26 de abril de 1986, destruiu o reator e o prédio da Central Elétrica Atômica de Chernobyl, próxima à cidade de Pripyat, na Ucrânia. A narrativa de milhares de pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas é o ponto de partida da dramaturgia da francesa Florence Valéro, na peça Chernobyl. Com direção de Bruno Perillo, a montagem chega ao final da sua segunda temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Jovem dramaturga e com experiência também no cinema, Florence conta a história a partir de uma fábula, como fez Roberto Benigni, em A Vida É Bela e Steven Spielberg, em Império do Sol. Pelo olhar da boneca Antonia, destaca-se e ficciona no êxito compulsório dos moradores de Pripyat, na jornada da dona da boneca: a menina Hanna, seu irmão Michael, a mãe Elena e o pai Igor, um dos trabalhadores da usina.

Além de trazer lirismo à tragédia, o texto documenta a sede humana por poder, lucro e supremacia em plena Guerra Fria. E, ainda, nos atualiza para as questões dos refugiados, uma das grandes demandas do nosso tempo. “Porque as vítimas de Chernobyl são exilados, gente forçada a deixar suas casas, sem jamais revê-las. Imaginei de partida os porta-vozes do conto, pesquisadores da zona de exclusão, convivendo com os vestígios radioativos“, delimita a dramaturga.

E há em Chernobyl um competente trabalho da direção, tanto na preparação do elenco, como na proposta estética. O pó radiativo invisível que leva o aniquilamento humano a tons cinzas, com os ossos se soltando da pele, está presente no cenário e figurinos de Chris Aizner. Num universo de abandono presente nas imagens e na iluminação, ora claustrofóbica, ora inventiva, de Grissel Pinguillem. Assim, o assistidor é levado para hospitais, trens, aviões e como se estive vendo tudo por dentro das máscaras dos cientistas.

Bruno também apoia-se na bem pensada trilha sonora de Pedro Semeghini e no preparo de movimento das atrizes, sob direção de Marina Caron. Dessa forma, as atrizes se mostram totalmente à vontade e preparadas para assumir, como curingas, as nove personagens de Chernobyl.

Sendo o projeto gestado a partir da aproximação da atriz Nicole Cordery com a dramaturga francesa, com certeza, o grande acerto da encenação está no elenco. E nas matizes alcançadas, graças a disponibilidade e plenitude das atrizes em cena: além de Nicole, Carolina Haddad (também tradutora), Joana Dória e Manuela Afonso.

Elas são pessoas comuns, crianças, mães, pais, cientistas e até mesmo a boneca narradora. A complexidade presente nas personagens torna Chernobyl muito mais do que uma apresentação sobre um acidente acontecido há 30 anos. Mas, sobre pessoas e sua solidão diante de qualquer tragédia.

Claro que estão ali os reflexos da nossa ciência iluminista, cartesiana, branca e eurocêntrica. Incrementada pela corrida à soberania a partir da prevalência, do primeiro a chegar à Lua, primeiro a ter uma usina, primeiro a qualquer coisa.

O tripé virtuoso do teatro feito por texto, direção e interpretações dá a Chernobyl um resultado acertado, com importantes reflexões sobre a humanidade. A fábula da boneca Antônia, que encanta cantando Like a Prayer, tem muito sobre o preço da passividade ou da incapacidade nossa de cada dia. Porém, com a certeza de que não sairemos ilesos dos reflexos desse mundo que construímos (ou que destruímos) dia a dia.

SERVIÇO
Chernobyl
De 5 a 21 de dezembro, quintas e sextas, às 20h; e sábado, às 18h.
Indicação Etária: maiores de 16 anos

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Florence Valéro
Tradução: Carolina Haddad
Direção: Bruno Perillo
Elenco: Carolina Haddad, Joana Dória, Manuela Afonso e Nicole Cordery
Iluminação: Grissel Pinguillem
Trilha sonora: Pedro Semeguini
Fotos de cena: Guy Pichard
Exposição fotográfica: Duca Mendes e Carol Thomé
Consultor de Química: Maurício Rodrigues

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