Crítica: Cartografia dos Humores Paulistanos, direção Zé Henrique de Paula

Coletânea de três crônicas cênicas escritas por Zé Henrique de Paula traz no elenco Davi Tápias, Gabriela Potye e Rodrigo Caetano.

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Cartografia Dos Humores Paulistanos - Foto: Leo Bertero
Cartografia Dos Humores Paulistanos - Foto: Leo Bertero

São Paulo é a cidade brasileira mais populosa e recebeu durante anos imigrantes de várias regiões do mundo. Além de diversidade de etnias e identidades, tem extremas disparidades sociais. Então, Cartografia dos Humores Paulistanos (Parte I – Centro), texto, cenografia e direção geral de Zé Henrique de Paula, mergulha nesse universo paulistano diverso a partir das disposições emocionais dos seus habitantes.

Ansiedade, fobia, obsessões e até paranoia e esquizofrenia estão presentes nos relatos de Paulo de Tarso, Muriel e Tavinho. Assim, passam por lugares como o Páteo do Colégio e os bairros da Liberdade e Bela Vista.

O texto aposta em crônicas ditas em terceira e primeira pessoa, sendo ora narradores, ora personagens. O traço limpo e despoluído, próprio da estética do encenador, é transposto para a dramaturgia em quadros de 15 a vinte minutos bem buriladas e sem nenhuma gordura.

Paula segue a sua premissa em trazer poucos elementos em cena e de apoiar o elenco na compreensão das suas falas e no uso do corpo. Já explorado em trabalhos recentes como Sede (2019), Dogville (2019) e Eu Sei Exatamente Como Você Se Sente (2018).

Na primeira parte, o misantropo Paulo de Tarso, homônimo ao santo que nomeia a cidade, conta sua história pelas gôndolas de um mercado. A solidão é revelada numa discussão da personagem sobre um vidro de palmito e ao avistar uma caixa de chocolate. Sua visão quase esquizofrênica propõe um encontro com o Padre Anchieta, que fundou o Páteo do Colégio. Desse modo, Paulo conclui sobre a impossibilidade de qualquer sanidade na cidade que irá nascer a partir desse ponto zero.

A menina Muriel fica responsável pelo carrinho de bebê onde está o irmão de uma amiga. Num registro pueril, a garota percebe-se odiando a beleza da criança e de qualquer pessoa. Sua obsessão é refletida no tratamento das formigas, tanto ao prendê-las com o chiclete quanto ao atirá-las ao longe como projéteis.

Por fim, Tavinho está apaixonado pelo amigo do trabalho quando mensagens frequentes pipocam no celular do amante. Em um desencontro, cria-se uma paranoia e a rejeição faz com que o rapaz aja de forma passional. A Bela Vista é o cenário para as esperas e tal paixão.

Rodrigo Caetano, Gabriela Potye e Davi Tápias alcançam a leveza e humanidade das suas personagens com sinceridade. Utilizam as marcações e partituras corporais para compor a cena. Caetano mostra maturidade no homem solitário. Talvez pelo tom infantil de Muriel, Potye soa um pouco irregular, mas sua criação é cativante e íntegra.

Se a cena de Tavinho encerrasse-se após seus relatos, provavelmente o público sairia saciado ao encontrar bom texto, intérpretes e direção. Mas, é (desculpe-me por adjetivar) assombroso o que Tápias e Paula propõem na cena final. Além de criar mais uma camada às crônicas, mostra um ator, mesmo jovem, completo e talentosíssimo.

Completam a equipe técnica diminuta, porém eficiente, Inês Aranha, na direção dos atores, e Fran Barros, no desenho de luz. Mostra originalidade ao entregar a operação da iluminação e sonoplastia ao elenco.

Mesmo que Cartografia dos Humores Paulistanos tenha sido gestada e escrita em tempos pandêmicos e trate dos desvarios humanos é um oásis na atual cena paulistana frequentemente engajada e até pessimista. Claro que está difícil desgarrar-se desse derrotismo. 

Sem dúvida, olhar para a psique e para sentimentos tão ínfimos da humanidade é, antes de tudo, encarregar-se do social. Perceber a cidade de São Paulo por tais pontos de vista revela muito dos medos dos habitantes dos grandes centros. Afinal, as metrópoles contemporâneas são lugares perfeitos para gerar riquezas (e pobrezas), aproximações (e desigualdades) mas também para criar distúrbios e fobias.

Não deixem de ver!

Serviço
De 17/11 a 16/12, quartas e quintas, às 21h.
60 minutos

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia, cenografia e direção geral: Zé Henrique de Paula
Direção de atores: Inês Aranha
Elenco: Davi Tápias, Gabriela Potye e Rodrigo Caetano
Produção: Laura Sciulli
Iluminação: Fran Barros

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