Crítica: Brian ou Brenda, direção Yara de Novaes e Carlos Gradim | Blog e-Urbanidade

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Brian ou Brenda? - Foto: Heloisa Bortz
Brian ou Brenda? - Foto: Heloisa Bortz
Brian ou Brenda? - Foto: Heloisa Bortz
Brian ou Brenda? – Foto: Heloisa Bortz

Trazer a questão da identidade de gênero a partir de um dos casos mais complexos e questionáveis sobre essa questão é corajoso e é o ponto de partida de Brian ou Brenda?. A dramaturgia de Franz Keppler tem direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, e a montagem traz a baila as opiniões do psiquiatra John Money, que defendia a tese em que os bebês nascem neutros e o gênero é uma construção da criação.

O caso clássico é dos gêmeos Brian e Bruce que foram submetidos a uma cirurgia de fimose ao 8 meses de idade, cauterizando o pênis de Brian. Os pais procuraram Dr. Money, que aconselhou a família a fazer uma operação de redesignação sexual e educá-lo como menina. Porém, Brenda não se identifica e deseja uma nova designação, passando a ser David.

Para contar essa história complexa e fluída, a dramaturgia cria a narrativa a partir de cenas curtas, rápidas e não lineares. E dai, a direção fratura a ficção com um elenco diverso, trazendo o fluxo das identidades dos intérpretes e assumindo papeis curingas. Placas para nomear as personagens e o jogo próprio do teatro para designar que papel assumirá naquele momento garantem liquidez ao tema.

E nessa diversidade que está a grande força da montagem. Integram o grupo Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Fabia Mirassos e Paulo Campos, pessoas com diferentes origens, condições físicas, etnias e identidades de gênero. Só por isso, o espetáculo poderia dar black-out e levar aplausos.

Mesmo assim a direção de Novaes e Gradim traz uma estética caótica e desconstruída que colabora à dramaturgia e torna Brian ou Brenda? uma montagem saborosa e, o mais importante, complexa. Diante de um tema tão controverso e consequências tão dramáticas, a plástica proposta explicita o tecido multifacetado do tema.

E ai, há um trabalho coletivo acertado. André Cortez e sua cenografia sempre em puzzle dá a arquibancada inicial diferentes funções. A iluminação de Aline Santini expõe, esconde e cria lugares na sala de espetáculo. A trilha sonora de Dr. Morris dá o tom pop e, em conjunto com os figurinos de Cassio Brasil, traz a Brian ou Brenda? uma estética singular e rock in roll.

Pensar sobre o trama de Brian/Brenda/David é importante para iluminar as questões de identidade de gênero que insistem em escapulir para os pontos de vistas ideológicos.  E diante desse mundo polarizado (in/on; esquerda/direita; 0/1; fla/flu), dilemas, como esse, são decididos de forma ligeira e, o pior, sob o viés religioso.

Brian ou Brenda? é teatro político! Leva ao palco um elenco plural e sai da retórica costumaz. E mais: é para ver, fruir e refletir sobre decisões e óticas como do Dr. Money, desprovidas do juízo pessoal do(a) envolvido(a), destruindo, assim, narrativas, histórias e possibilidades.

Serviço
De 25 de outubro a 17 de novembro – Às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h,
Indicação Etária: 14 anos.

FICHA TÉCNICA
Texto: Franz Keppler
Direção: Yara de Novaes e Carlos Gradim
Assistência de direção: Ronaldo Jannotti
Elenco: Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Fabia Mirassos e Paulo Campos.
Cenário: André Cortez
Figurino: Cassio Brasil
Iluminação: Aline Santini
Trilha sonora original: Dr. Morris
Preparação corporal: Ana Paula Lopez
Visagismo: Louise Helène
Direção de produção: Ronaldo Diaféria e Kiko Rieser
Produção executiva: Marcos Rinaldi
Assistente administrativa: Juliana Rampinelli
Fotografia: Heloísa Bortz
Design gráfico: Angela Ribeiro
Assessoria de imprensa: Pombo Correio (Douglas Picchetti e Helô Cintra)
Realização: Rieser Produções Artísticas, Diaferia Produções e Da Latta Cultura

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  1. […] Mesmo assim a direção de Novaes e Gradim traz uma estética caótica e desconstruída que colabora à dramaturgia e torna Brian ou Brenda? uma montagem saborosa e, o mais importante, complexa. Diante de um tema tão controverso e consequências tão dramáticas, a plástica proposta explicita o tecido multifacetado do tema. ” – e-Urbanidade […]

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