Crítica: Benedetta, de Paul Verhoeven

Filme BENEDETTA parte de uma figura real, a freira católica mística e lésbica Benedetta Carlini, que viveu na Itália da Contrarreforma.

0
Benedetta - Foto: Divulgação
Benedetta - Foto: Divulgação

Benedetta poderia ser mais um filme sobre a vida nos conventos, com um lugar comum no imaginário de parte da sociedade sobre o lesbianismo entre freiras. Mas vai bem mais além disso. Aos 83 anos, o cineasta Paul Verhoeven, diretor também dos conhecidos Robocop (1987), ShowGirls (1995) e Instinto Selvagem (1992), levanta críticas ao patriarcado por meio do fundamentalismo religioso, muito presente no século XVII e também, diga-se de passagem, ainda nos dias de hoje.

O filme é inspirado em uma história real e conta sobre a vida da freira católica Benedetta Carlini, que viveu na Itália da Contrarreforma. Nascida em 1590, numa família de classe média, entrou para o Convento de Madre de Deus, em Pescia.

Logo depois, ela começou a ter visões de homens que a tentavam matar, e por isso é assistida por uma irmã, que passa a dividir o quarto com ela. Ambas se tornam ainda mais próximas, resultando em um romance.

A partir daí, Benedetta passa a sofrer os castigos infligidos às mulheres não só daqueles tempos de uma Itália do século XVII, mas de todos os outros tempos que viriam adiante, como vemos nos dias de hoje, com tantas notícias sobre feminicídios.

Em plena era pandêmica, ainda temos a criminalização da sexualidade da mulher. No entanto, essa criminalização só não existe desde que as mulheres cumpram com papeis exigidos e esperados pela sociedade: o de ser mãe, o de cuidar da casa, o de prover o sustento e o cuidado com a família, como a imagem de uma santa mártir.

O lesbianismo e de toda a riqueza sexual ainda é vista como um tabu em nossos tempos. Ele só cumpre o sentimento libertário do imaginário social, desde que sirva para fomentar fantasias masculinas.

Do contrário, o que se presencia no cotidiano é a violência, a morte e a condenação à fogueira, tal como Benedetta. E tudo isso de uma forma literal: basta abrir os noticiários e nos depararmos diariamente com pessoas sendo mortas e violentadas de diversas formas, apenas por serem homossexuais.

Levantados esses pontos, o filme traz uma dinâmica entre o poder masculino e o feminino, com as freiras respondendo a um representante do Vaticano, representado por Lambert Wilson. Esse embate de forças se dá pelos diálogos potentes interpretados pela protagonista Virginie Efira, traz à tona alguns tabus e revela a hipocrisia deste representante da Igreja perante a sexualidade.

Outro ponto interessante é sobre a presença fálica no filme, como um elemento de prazer e de dor, simultâneo. Benedetta, utiliza-se de um dildo junto com sua colega e amante de quarto, Bartolomea, interpretada por Daphné Patakia.

Obviamente não colocarei detalhes sobre o elemento, evitando um spoiler indesejado. Mas é interessante a construção do diretor sobre o falo como objeto de prazer do sexo lésbico, ao mesmo tempo em que, a Igreja Católica, utilizava do mesmo instrumento que abominava para punir. Tratava-se de um objeto de tortura para as mulheres que cometessem crimes ou não tivessem suas condutas de acordo com o que ditava a congregação e a sociedade da época.

Verhoeven também traz na construção imagética do filme, especialmente nas cenas de suas possessões, uma impressão de crescimento físico e força na voz da mulher. Uma alteração que ainda se mantém feminina, ao contrário de algumas cenas do cinema em que as mulheres possuídas partiam para um registro de voz masculina.

Talvez, essa também seja uma forma do cineasta fazer uma crítica e optar por colocar semioticamente a voz da mulher em destaque, ao invés de silenciá-la, ou torná-la masculinizada. Mantendo ainda assim um filme de poder masculino, algo inevitável e normal para o século XVII.

A fotografia do filme explora muito os contrastes e é basicamente tendenciosa à escuridão, causando um sentimento de claustrofobia. Mas são aliviados por algumas pitadas de humor nos diálogos, mesmo em meio à toda tensão do convento, ali representado.

O roteiro é assinado por Verhoeven e David Birke, e é uma adaptação de Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy, da historiadora inglesea Judith C. Brown. Além de Efira e Patakia, o elenco ainda traz Charlotte Rampling, como a Madre Superiora e Lambert Wilson, como um representante do Vaticano.

Quer receber essa e outras notícias no seu e-mail? Assine a newsletter

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here