Crítica: Baby, direção Marcos Pedroso

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Baby - Foto: Jeyne Stakflett
Baby - Foto: Jeyne Stakflett
Baby - Foto: Jeyne Stakflett
Baby – Foto: Jeyne Stakflett

Que jogue a primeira pedra quem aí não se arrastou e perdeu a dignidade tentando ressuscitar o que estava acabado, após o término de uma relação! Esse é o mote de Baby, solo escrito e interpretado por Erika Puga, dirigido por Marcos Pedroso e disponível na plataforma Hysteria, canal no YouTube da produtora Conspiração.

O texto foi desenvolvido numa oficina de auto ficção, dirigida na época por Nelson Baskerville. Conta a história de uma mulher que bate à porta do ex-namorado para restabelecer o vínculo.

Em três quadros, apresenta diferentes tentativas de remissão. Primeiro pela falação pura e simples, depois a comprovação de que está melhor e mais calma por causa das aulas de yoga e, por fim, como foliã bêbada que termina a noite, sem pudor, na porta do rapaz.

Dessa forma, a heroína humaniza-se pelas suas tentativas e coloca na mão de outrem a sua própria felicidade. Quem está de fora sempre olha com ressalvas, mas nada é mais universal do que os tristes fins de amores e principalmente os idealizados.

Baby conta isso em 35 minutos e traz boas referências. No audiovisual é quase automática a citação da série Fleabag, da Amazon Prime Video. Tanto pela agilidade e o tom confessional do texto, como pela quebra da quarta parede ao se dirigir para uma câmera de segurança.

Já no teatro, a relação amorosa e de poder implícita parece aproximar-se da dramaturgia dos italianos Dario Fo e Franca Rame. Afinal, eles souberam explorar em cena os cotidianos e comezinhos tratos sociais para explicitar as violências simbólicas e reais impostas, principalmente, às mulheres.

A dramaturgia de Puga acerta nos quadros que misturam humor, ironia e, por fim, naquela tragédia inexorável da existência humana. A partir do texto rápido, o diretor apropria de diferentes câmeras e do preparo corporal da atriz para tornar tudo ainda mais vigoroso.

Sem dúvida, a partitura corporal da intérprete em cena, elaborada com apoio da preparadora Jerusa Franco, colabora com a ação dramática. E ainda cria um subtexto apropriado para tom caótico e de limbo da personagem.

Numa proposta de cineteatro, dialoga com a dramaturgia o olhar cinematográfico de Dimitre Lucho e a trilha bem pensada de Gui Calzavara. Assim, o universo realista apresentado na única locação, o corredor da porta não aberta, tem muito deste lugar de passagem necessário, mas provisório, de expurgo de um amor acabado. “O corredor se torna o lugar de uma dissecação do humano e de um mergulho empático na experiência subjetiva”, conta o encenador.

A produção foi feita por apenas 13 profissionais, respeitando todos os protocolos e minimizando os riscos relativos a Covid-19. Assim, a gravação aconteceu no próprio apartamento onde moram Pedroso e Puga, e com a equipe assumindo diferentes funções.

Por fim, Baby reforça a capacidade criativa dos seus realizadores diante da pandemia, retratando um dos mais complexos sentimentos da existência. Os amores e seus fins reforçam as fragilidades de todos nós e também das estruturas de poder que aparecem aqui ou ali, ora discretamente, ora explicitamente.

A cena derradeira, da mulher sensual, pavão, alta, linda e bêbada, tem muito das contradições e dessas imposições sociais. E aí, a virada mesmo que seja interna, passa pela percepção do jogo que se avoluma lá fora, nos corredores, nas portas não abertas, nas aulas de yoga assumidas para mostrar ao outro o equilíbrio não realizado. Enfim, que os amores e seus fins sejam tristes e dramáticos, mas passageiros.

Obs.: A peça ficou disponível no canal do Hysteria até 06/06/2021. Aguardar novas apresentações.

Serviço
Baby
Solo de Erika Puga
Direção e Arte: Marcos Pedroso
Cinematografia: Dimitre Lucho
Música: Gui Calzavara
Contrarregra: Davi Puga
Preparação de Corpo: Bruna Paoli
Preparadora da atriz: Jerusa Franco
Design gráfico: Vanessa Deborah
Fotos de Divulgação: Jeyne Stakflett
Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro
Produção Executiva e Direção de Produção: Odara Carvalho

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