Crítica: As Três Irmãs, direção de Ruy Cortez e Marina Nogaeva Tenório

Texto do dramaturgo russo Tchekov, escrita no início do século XX, ganha montagem inovadora com questões pertinentes em pleno século XXI.

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A Três Irmãs - Foto Ale Catan
A Três Irmãs - Foto Ale Catan

A esperança de um futuro melhor que nunca chega. Esta pode ser a síntese de As Três Irmãs, texto do dramaturgo russo Antón Tchekov (1860-1904) que está em cartaz no Teatro do Sesc Pompeia, compondo um projeto duplo em que duas peças são encenadas ao mesmo tempo, para plateias diferentes.

A outra peça que compõe o projeto e é realizada simultaneamente é A Semente da Romã, do dramaturgo brasileiro Luís Alberto de Abreu. Ambas são dirigidas por Ruy Cortez e Marina Nogaeva Tenório, que defendem que embora as peças não se relacionem, elas se complementam por trazerem questões filosóficas de seus tempos.

As Três Irmãs traz uma reflexão sobre os sonhos de uma classe na sociedade russa do início do século 20, enquanto que A Semente da Romã retrata sobre o fazer artístico nos dias de hoje. Assim, ambas se cruzam mesmo com pouco mais de um século de diferença, com questões que ainda hoje são pertinentes para o momento em que vivemos.  

Provavelmente a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), idealizadora do Teatro, iria gostar dessa experiência inovadora, e que conta com a destreza do elenco, já que é necessário muita sincronia e jogo teatral para atuar em duas peças simultaneamente.

O limiar entre a esperança e a utopia

As Três Irmãs foi escrita em 1900 e encenada pela primeira vez em 1901, já prenunciando os momentos de mudança que viriam na sociedade russa do início do século XX. Tchekov morre em 1904, um ano antes da Revolução Russa (1905-1907), mas seu texto já traz elementos da época, na qual já havia um cansaço do mundo e uma esperança que beira quase a utopia.

Esse sentimento é revelado através das irmãs Olga (Ondina Clais), Macha (Miriam Rinaldi) e Irina (Lucia Bronstein), que sonham em retornar à Moscou, onde passaram a infância. Agora adultas, tendem a idealizá-la, talvez como forma de suportarem a realidade que não aguentam e como forma de defesa contra a dor de ver o mundo que conhecem, ruir.

O espetáculo promove uma reflexão sobre o desespero em relação ao presente, já que estamos vendo as mudanças no mundo, e este que conhecemos, desaparece. Um mundo se acaba e outro começa. Mas a crise provocada por essa necessidade não é apenas econômica e política, mas também afeta profundamente o sistema de valores de uma sociedade e, com isso, existe o risco de perder o conhecido. Algo similar a esses tempos de pandemia?

As Três Irmãs

Uma força vital e um desmesurado desejo de viver afeta o comportamento das personagens das irmãs, que é um pouco distorcido e comicamente trágico, já que Irina, Olga e Macha repetem a todo momento, em quase todas as situações, o desejo de voltarem para a terra de suas infâncias, Moscou.

Talvez para uma Moscou que nem exista mais, e que existiu apenas sob a ótica da infância das moças. Vivem em uma cidade no interior da Rússia, junto ao irmão Andrei (Luciano Gatti), a quem descrevem como um violinista talentoso e futuro professor na Universidade de Moscou.

Olga, a irmã mais velha, é professora em uma escola, vive cansada do trabalho. Masha é casada com Kuliguin (Eduardo Estrela), um professor, e que não o ama mais há anos, tentando separar-se dele. Já Irina, a irmã mais nova, é a mais cheia de esperança, sonha em ir a Moscou trabalhar para que possa assim, de fato, encontrar o sentido da vida.

O elenco conta com a participação breve dos veteranos Antônio Petrin, como o tenente surdo Ferapont, e com Walderez de Barros, como Anfissa, funcionária da família idosa e ex enfermeira, que vive sofrendo abusos da cunhada das irmãs, Natasha (Maria Manoella).

As relações entre as irmãs e os membros da família são aqui expostas com o comportamento explícito por parte da burguesia, que está profundamente posto pela personagem de Natasha, que acaba oprimindo as irmãs, como a própria dona da casa e tratando a todos com arrogância.

Há também as visitas frequentes de membros do exército da cidade local, retratando outra parte da sociedade que gosta de se enaltecer por conta de títulos e que apenas filosofam sobre amenidades e a importância do trabalho. Aqui mais por prazer verborrágico do que por propriamente tomar as rédeas da vida e realizar algo concreto.

Tchekov retrata a decadência moral e a incapacidade de mover-se, principalmente com as personagens femininas, com exceção de Natasha. Olga é a imagem da mulher do início do século XX, mais velha que não casa e que lhe resta somente a o trabalho extenuante como diretora de escola, fazendo com que ela não se conecte com seus sentimentos, mas apenas com o passado utópico de sua infância.

Masha é a mulher que se casa com um professor colega de Olga, ainda na juventude, e que agora se vê em um romance com o militar Fedótik (João Vasconcelos), que tem que partir com a responsabilidade de seu trabalho. Irina, a mais jovem e sonhadora, é o arquétipo da mulher sonhadora e perdida, que busca, mas que não sabe nem o que é o amor.

Assim, a peça traz a ótica de uma sociedade que deseja mudanças, com uma estrutura burguesa, mas que é caracterizada pela imobilidade dos tempos.

Na proposta de encenação de Cortez e Tenório, se mesclam os elementos cenográficos de época com figurinos um pouco mais modernos, nos trazendo uma maior aproximação do texto original para os nossos dias atuais. Um Brasil que vive uma esperança quase utópica, com uma sociedade praticamente imóvel por diversos questões sociais, e que só aumentou nos últimos dois anos de crise política, social econômica e sanitária.

Serviço

As Três Irmãs – Mais informações aqui.

Ficha Técnica

Texto As Três Irmãs: Anton Tchekhov
Tradução de As Três Irmãs: Marina Nogaeva Tenório e Ruy Cortez

Atuação As Três Irmãs
Ferapont  Antonio Petrin
Anfissa Walderez de Barros
Tchebutíkin Walter Breda
Olga Ondina Clais
Verchínin Luiz Carlos Vasconcelos
Masha Miriam Rinaldi
Kuliguin Eduardo Estrela
Irina Lucia Bronstein 
Tusenbach Marcos Suchara
Natasha Maria Manoella
Andrei Luciano Gatti
Soliôni Rodrigo Fidelis
Fedótik João Vasconcellos 
Rodê Conrado Costa
Direção: Marina Nogaeva Tenório e Ruy Cortez
Cenografia: André Cortez
Figurino: Fábio Namatame
Iluminação: Nicolas Caratori
Composição original: Thomas Roher
Sonoplastia: Aline Meyer
Design Sonoro: André Omote
Vídeo Arte: Manoela Rabinovitch
Mapping: Fernando Timba
Pesquisa videográfica (A Semente da Romã): Álvaro Machado
Identidade visual e design: Beatriz Dorea e João Marcos de Almeida
Fotografia: Ale Catan
Registros Audiovisuais: Renata Pegorer e Yghor Boy
Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro
Assistente de direção: Conrado Costa
Assistente de Produção: Júlia Tavares
Assistente de cenografia: Stéphanie Frentin
Assistente de Iluminação: Marcel Rodrigues
Assistente de Figurinos: André Von Schimonsky

Diretor de palco: Ronaldo Dias
Contrarregragem: Júlia Tavares e Conrado Costa
Programador e 1o operador de Luz: Diego Rocha
2o operador de Luz: Olivia Munhoz e Cynthia Monteiro
Operador de aúdio 1: Anderson Franco
Operador de áudio 2: Kleber Marques
Operador de Vídeo 1: Aline Almeida
Operador de vídeo 2: Fagner Lourenço
Modelista: Juliano Lopes
Costura: Fernando Reinert e Maria José de Castro
Direção de produção: Gabi Gonçalves
Produção executiva: Carol Buček
Idealização: Companhia da Memória (João Vasconcellos, Marina Nogaeva Tenório, Ondina Clais e Ruy Cortez)
Produção: Companhia da Memória e Núcleo Corpo Rastreado

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