Crítica: As Conchambranças de Quaderna, diretor Fernando Neves

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As Conchambranças de Quaderna - Foto: Erik Almeida
As Conchambranças de Quaderna - Foto: Erik Almeida

Ariano Suassuna (1927-2014) e suas personagens farsescas são fundamentais à compreensão dos atributos fundantes da gente brasileira e também das artes da cena nacional. A partir daí, o diretor Fernando Neves em As Conchambranças de Quaderna, atual cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, mergulha nesse universo pelo viés e estética do circo-teatro. O que resulta em uma montagem festiva, divertida e que acentua esses elementos míticos da nossa brasilidade.

O texto é de 1987 e conta a história de Pedro Dinis Quaderna, mesmo protagonista de Romance d’A Pedra do Reino, também de Suassuna. A peça original é composta por três quiproquós e aqui atem-se a primeira trama, intitulada de O Coletor Assassinado. Esse cobrador é denunciado por roubar os cofres públicos, em que o padrinho e protetor Dom Pedro Sebastião sente-se obrigado a ampará-lo e escondê-lo para manter-se na liderança local.

Mesmo escrito há três décadas, obviamente não há originalidade nesses fatos. Afinal, a corrupção é um traço marcante e constituinte do fazer política brasileiro. Mesmo diante desta triste realidade, o dramaturgo paraibano reforça sua premissa pelo riso. Assim sendo, Quaderna não é imperador estrangeiro, nem da família dos Braganças, não tem dinheiro, não é influente, mas tem esperteza. Afinal, essa é a única possibilidade pra ele subverter a ordem.

No universo sertanejo de personagens tão caricatos e de arquétipos, Neves aproxima-se pelo circo. “O encontro da commedia dell’arte com o circo-teatro, que tem como base a primeira, traz um sentido histórico de ascendência artística que se enriquece com a incorporação de elementos do teatro popular nordestino, repleto de fantasias e impregnado da loucura criativa de Ariano”, completa.

É verdade que outros diretores já seguiram pela estética circense para tratar sobre o universo de Suassuna, o que parece instintivo. Porém, Neves que é um mestre em circo-teatro, apropria-se com grandeza e plenitude na plástica, tempo e jogo. Cabe acrescentar que ele se dedica ao ofício há quase duas décadas, junto ao grupo Os Fofos Encenam e, desde a infância, com a sua família Santoro Neves.

Assim, são fundamentais a criação musical de Renata Rosa (cantora, compositora e rabequeira) e de Caçapa (arranjador, violeiro e compositor pernambucano premiado) na elaboração do que chamam de paisagem sonora. Então, com a execução ao vivo de Abuhl Júnior, na bateria e percussão, a ação dos atores segue uma partitura musical, sendo um dos grandes acertos da encenação.

Para compor a plástica, a cenografia do artista plástico Manuel Dantas Suassuna apropria-se de pinturas próprias do universo sertanejo. E que ainda completa-se no figurino e adereços assinados por Carol Badra. A luz é de Rodrigo Belladona.

O elenco assume suas personas com completude. Jorge de Paula é carismático como o narrador e o esperto Quaderna, e aproxima-se do texto de Suassuna com humildade e grandeza. Guryva Portela é o Dom Pedro Sebastião característico, daqueles que acham que o bem público é pessoal.

Fábio Espósito, com seu talento à comédia e tempo certo às piadas e à partitura das cenas, brinca, diverte e destaca-se. Henrique Stroeter e Carlos Ataíde apoiam e crescem quando a dramaturgia os permite. E, por fim, Bruna Recchia, mesmo em pequena participação, alcança o tom urbano-paulistano proposto pelo diretor, o que é inesperado e hilariante.

Se “conchambrança” é uma alteração da palavra “conchamblança”, que significa conchavo, combinação, As Conchambranças de Quaderna ora em cartaz é uma fusão de acertos. Sem dúvida, texto, direção, elenco e técnica apoiam-se numa montagem certeira sobre um país que está posto em tratados, acordos e tramoias para a manutenção do poder.

Por isso, vale a pena conferir. Afinal, desde a comédia grega sabe-se que o riso tem efeito didático para explicitar as métricas, regras e esquemas de uma sociedade.

Serviço
18 de outubro a 11 de novembro. Segunda a quinta, às 19h.
Indicação etária: 12 anos.
60 minutos.

FICHA TÉCNICA – Texto: Ariano Suassuna. Direção: Fernando Neves. Elenco por ondem de entrada: Jorge de Paula, Fábio Espósito, Guryva Portela, Henrique Stroeter, Carlos Ataíde e Bruna Recchia. Músico ao vivo: Abuhl Júnior. Cenografia: Manuel Dantas Suassuna. Assistência de cenografia: Guryva Portela. Trilha sonora: Renata Rosa e Caçapa. Pinturas e desenhos exclusivos para a montagem: Manuel Dantas Suassuna. Cenotécnica: Marcos Tadeu e Marcelo Andrade. Figurino e Adereços: Carol Badra. Assistência de figurino: Bruna Recchia. Costureira: Maria José de Castro. Criação de luz e operação: Rodrigo Belladona. Identidade visual peças gráficas: Ricardo Gouvêia de Melo. Produção: Beijo Produções Artísticas e Cia Vúrdon de Teatro Itinerante.

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