Crítica: As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão, direção Sérgio Módena – Blog e-Urbanidade

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Cangaceiras, Guerreiras do Sertão - Foto: Priscila Prade
Cangaceiras, Guerreiras do Sertão - Foto: Priscila Prade
Cangaceiras, Guerreiras do Sertão
Cangaceiras, Guerreiras do Sertão

Das distopias não ficcionais provavelmente a brutalidade do cangaço tenha sido uma daquelas mais vigorosas. E a partir do ponto de vista da mulher o dramaturgo Newton Moreno propõe mais uma imersão no lirismo do Nordeste no musical As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão.

Com direção de Sérgio Módena e direção Musical de Fernanda Maia, o universo ficcional sempre inquietante e próprio de Moreno transporta para a dor e dificuldade de se construir uma identidade. Principalmente se ela for diversa daqueles que determinam a normalidade de um determinado grupo.

Já nas primeiras cenas a jornada de Serena (Amanda Acosta) fica às claras: esposa do chefe do bando de Taturano (Marco França) descobre que seu filho dado como morto está vivo. Imediatamente ela parte para reencontrá-lo e nesse movimento algumas mulheres se juntam pelo caminho, formando uma marcha de reconhecimento, empoderamento e muita dor.

Mesmo nesse lugar de opressão, a dramaturgia aposta na comédia para aproximar o público e numa apoteose na cena final. Assim, fica mais palatável para o assistidor a crueza e a violência do cangaço às mulheres e a todos envolvidos.

As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão é um espetáculo simples esteticamente, inventivo e com boas escolhas do encenador. Basicamente a cenografia Marcio Medina usufrui de galhos que se movimentam pelo palco e com a iluminação Domingos Quintiliano consegue-se criar camadas e contextos.

É verdade que Moreno parece ir muito rápido em alguns envolvimentos, mas como experiente contador de história, cria personagens únicos e necessários na narrativa. Chama a atenção os habilidosos diálogos que lembram a linguagem de João Guimarães Rosa. E dai, a parceria com a Maia consegue a proeza de dar embocadura as canções, onde não se perde a poesia e a beleza do universo nordestino.

O elenco experiente e bem preparado dialoga rapidamente com a plateia, mesmo haver um registro quase unidimensional nas personagens masculinos. Amanda repete seu preparo técnico e mostra intensidade nas cenas finais; Marco diverti e soa caricato em alguns momentos; Vera Zimmermann é a melhor surpresa do espetáculo; Luciana Lyra se sobressai na comédia e no drama; Rebeca Jamir convence, mas cai no maneirismo em algumas cenas, Jessé Scarpellini mesmo irregular, consegue bons momentos; Marcelo Boffat se destaca nas sequências finais.

A Zaroia de Carol Badra e os cangaceiros de Milton Filho e Pedro Arrais tomam para si os melhores momentos da comédia, funcionam como pícaros na narrativa. Carol Costa, Badu Morais e Eduardo Leão apoiam o elenco e são corretos em suas participações.

As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão diverti, mas seu destaque fica na capacidade de se comunicar com o grande público com temas tão importantes como a violência e a misoginia. Há de se pensar sobre o riso solto ou até nervoso quando palavras de ódio são soltas ou na confissão de amor de uma das personagens para outra. Será que tem função pedagógica?

Há de se acreditar que é vendo universos tão violentos e adversos possa ajudar o assistidor a perceber sobre o tecido social que somos formados. E como pode ser penoso e indigno quando as liberdades, até mesmo a mais simples delas como a de ir e vir, podem destruir pessoas e gerações.

Serviço
De 25 de abril a 4 de agosto – quinta a sábado às 20h; domingo, às 19h
Indicação Etária: 12 anos
Agendamentos: [email protected]
Grátis. Reservas antecipadas de ingressos pelo site www.centroculturalfiesp.com.br abertas todas as segundas-feiras, às 8h. Ingressos remanescentes serão distribuídos no dia da apresentação, 15 minutos antes na bilheteria do Teatro.

FICHA TÉCNICA

Elenco: Amanda Acosta, Marco França, Vera Zimmermann, Carol Badra, Luciana Lyra, Rebeca Jamir, Jessé Scarpellini, Marcelo Boffat, Milton Filho, Pedro Arrais, Carol Costa, Badu Morais, Eduardo Leão. Músicos: Pedro Macedo (contrabaixo), Clara Bastos (contrabaixo), Daniel Warschauer (acordeon), Dicinho Areias (acordeon), leandro Nonato (violão), Abner Paul (bateria), Pedro Henning (bateria), Roberta Regina (violoncelo), Felipe Parisi (violoncelo) | Dramaturgia: Newton Moreno | Direção: Sergio Módena | Produção: Rodrigo Velloni | Direção Musical: Fernanda Maia | Canções Originais de Fernanda Maia e Newton Moreno | Coreografia: Erica Rodrigues | Figurino: Fabio Namatame | Cenário: Marcio Medina | Iluminação: Domingos Quintiliano | Assistente de Dramaturgia: Almir Martines | Diretora Assistente: Lorena Morais | Pianista Ensaiador e Assistente de Direção Musical: Rafa Miranda | Designer Gráfico e Ilustrações: Ricardo Cammarota | Fotografia: Priscila Prade | Produção Executiva: Swan Prado e Luana Fioli | Assistente de Produção: Adriana Souza e Bruno Gonçalves | Gestão Financeira: Vanessa Velloni | Administração: Velloni Produções Artísticas | Realização: SESI-SP

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