Crítica: Apátridas, direção Lenerson Polonini

Espetáculo com direção de Lenerson Polonini e dramaturgia de Carina Casuscelli marca os 20 anos da Companhia Nova de Teatro.

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Apátridas - Foto: Antônio Simas Barbosa
Apátridas - Foto: Antônio Simas Barbosa

Que tal se olhássemos os grandes temas mundiais atuais pela perspectiva dos arquétipos da mitologia? É por esse ponto de vista que a dramaturga Carina Casuscelli segue. Apátridas, que tem direção de Lenerson Polonini, atualiza os conflitos de Kassandra, Hécuba, Prometeu e Hércules para tratar dos enfrentamentos migratórios e racistas, e ainda a destruição da natureza e dos povos originários.

O texto explora as personagens clássicas em monólogos que soam como manifestos, sem avançar por uma jornada propriamente dita. Friccionam e sucedem em confronto constante com o espectador em relação aos seus privilégios, uso não sustentável dos recursos naturais e situação dos refugiados.

A peça deseja “incitar o público para a reflexão acerca do nosso tempo, abrindo espaços para o diálogo sobre a crise global, econômica e, sobretudo, a crise humana, considerando, inclusive, este período pandêmico“, conta Casuscelli.

Há um emaranhamento de questões e camadas que vão sendo pactuadas e atualizadas a partir dessas referências. Kassandra (Casuscelli) é uma mulher indígena indignada com a destruição do seu povo e dos recursos naturais. Hécuba (Jacqueline Durans) é a rainha destituída, tornando-se escrava numa Amazônia devastada.

Já Prometeu (Isidro Sanene) e Hércules (Miguel Kalahary), ambos atores angolanos, são transpostos pelas questões dos povos africanos. Refrescam proposições sobre a dualidade entre a divindade e humanidade, os privilégios da branquitude e, por fim, as constrangedoras e desumanas travessias feitas em barcos precários por refugiados, em fronteiras.

O tom aguerrido funciona, provoca e incomoda, mas fragiliza qualquer conexão do assistidor com alguma narrativa. Por sua vez, Apátridas ganha força diante do cuidado estético proposto pelo encenador. Polonini, que também assina a iluminação, explora a caixa preta com diferentes matizes, planos e perspectivas. E, sem dúvida, é um dos melhores desenhos de luz desta temporada.

Os vídeos de Armando Lima propõe e sobrepõe imagens, criando um universo multimídia, fantástico e lúdico. Ainda a trilha sonora de Wilson Sukorski integra as cenas e ilustrações e, por fim, os figurinos de Casuscelli completam a paisagem da cena.

Ápatridas reforça a incansável busca da premiada Companhia Nova de Teatro na criação de novas linguagens, em pesquisa contínua a partir da performance, das artes do corpo e do universo das artes visuais. Tudo isso, encaminhado pelos dramas contemporâneos, fundantes da complexidade da nossa época.

Sendo assim, a montagem atual do grupo tem muito a nos dizer de questões fundamentais desse tempo. Diante da destruição das florestas, genocídio dos povos indígenas, intolerância às matrizes africanas, comportamentos racistas e perseguição aos refugiados, não dá pra não ser beligerante.

Dessa forma Kassandra, Hécuba, Prometeu e Hércules são tão eloquentes, pois diante de problemas tão contundentes é preciso ainda protestar, bradar e resistir.

A Última Floresta - Davi Kopenawa Yanomami  - Foto: Pedro J Marquez
A Última Floresta – Davi Kopenawa Yanomami – Foto: Pedro J Marquez

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

Dentre as várias questões trazidas em Apátridas, duas propostas de filmes podem amplificar algumas discussões importantes:

  • Mesmo não inédito, em 2019, a HBO lançou a série Years And Years. O programa chama atenção imediatamente ao apresentar a ascensão da extrema-direita na personagem de Emma Thompson, o que parece ser um acontecimento mundial. Mesmo assim, fique de olho nos temas relacionados aos refugiados e nessa situação de não-lugar dos desterrados. Viktor Goraya (interpretado por Maxim Alexander Baldry) traz essa situação, mas impacta o espectador quando seu namorado inglês, Daniel Lyons (de Russell Tovey), é afetado por essa situação.
  • O premiado longa-metragem A Última Floresta, do diretor Luiz Bolognesi e do xamã Davi Kopenawa, trata da luta do povo Yanomami pelo direito à vida e a terra. Diante de políticas de desamparo em relação aos povos originários, o filme dialoga muito com o primeiro quadro da peça, trazido em Kassandra.

Serviço
De 5 a 28 de novembro, sextas-feiras e sábados às 21h e domingos às 19h.
16 anos.
60 minutos.
Grátis. Retirada com uma hora de antecedência na bilheteria do Teatro

Ficha Técnica
Direção – Lenerson Polonini. Dramaturgia – Carina Casuscelli. Elenco – Carina Casuscelli, Jacqueline Durans, Miguel Kalahary e Isidro Sanene. Figurinos – Carina Casuscelli. Assistente de figurino – Gustavo Werner. Iluminação – Lenerson Polonini. Trilha sonora – Wilson Sukorski. Vídeos – Armando Lima. Operação de som – Felipe Moraes. Operação de luz – Verônica Castro. Operação de imagem – Téo Ponciano. Colaboração dramatúrgica (parte 1) – Eduardo Brito. Assessoria de imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Fotos – Antônio Simas Barbosa. Produção – Lenerson Polonini – Companhia Nova de Teatro.

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