Crítica: Aparências, de Marc Fitoussi

Thriller psicológico francês aposta em uma trama que questiona o casamento de aparências e os limites para uma vingança.

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As Aparências - Foto Divulgação
As Aparências - Foto Divulgação

O suspense francês Aparências , baseado no livro Traição, de Karin Alvtegen, lançado pela Editora Record, chega ao streaming.

O título do filme já diz muito sobre o foco do enredo: as aparências, mas com um recorte para uma relação conjugal e extraconjugais, tanto do marido, como da mulher.. O sexto longa-metragem do diretor francês Marc Fitoussi consiste em um bom tratado sobre a arte de fazer com que a vida parece ser muito melhor do que é.

Você já deve ter conhecido pessoas que gastam muito dinheiro e energia para viver em uma vida encenada, com vestuário e decoração de acordo com a ocasião, somente para dar a impressão de ter uma vida perfeita.

Hoje temos muito desse padrão nas redes sociais, onde ser feliz e demonstrar esta felicidade tornou-se quase que uma obrigação. No caso do longa, essa felicidade encenada é demonstrada por meio da relação de um casal da alta sociedade vienense, formado por Henri, diretor de orquestra (Benjamin Biolay, de Personal Shopper) e Éve, uma diretora da biblioteca francesa em Viena (Karin Viard, de Delicatessen).

Biolay está quase inexpressivo na produção, algo supostamente proposital, como forma de construção de seu personagem, já que nos transmite o sentimento de tédio e frieza de um homem insatisfeito, mas que precisa manter as aparências de um casamento, mediante a sociedade.

Viard está mais expressiva, com uma personagem que preza pela elegância e que acaba se envolvendo com um jovem problemático, por vingança do marido.

Um ponto interessante é sobre a construção psicológica de Éve, que com o desenrolar da trama, acaba por traçar o psicológico de uma personagem vingativa, quando descobre a traição do marido com a própria professora do filho adotivo do casal.

Viard constrói o perfil de uma mulher bem-sucedida e vingativa ao mesmo tempo, quando ela descobre o caso. A partir daí temos um thriller psicológico com reviravoltas interessantes.

De um modo geral, o roteiro é bem-sucedido, a narrativa possui uma construção interessante e foge de um final previsível, ainda que o filme nos leve em muitos momentos a acreditar que essa será mais uma produção com final previsível. É interessante a reflexão moral que o filme traz sobre os sentimentos de vingança, cumplicidade e tentativa de salvação de um casamento, a todo custo.

Será que realmente apenas a intenção de tentar de novo salve um matrimônio? E a cumplicidade de um casal salva um casamento de questões bem mais profundas? Quais são os limites que um casal ultrapassa para garantir a todo o custo a imagem de um casamento, perante à sociedade?

Essas são algumas das perguntas que surgem no decorrer do longa, que é bem construído do ponto de vista da trama, porém, deixa o espectador um pouco distanciado dos personagens, que possuem uma estranha frieza, chegando a ser um filme quase árido.

Também apresenta o lugar da mulher traída como a responsável pelo não sucesso da volta do casamento, já que coloca Éve se envolvendo com um rapaz mais jovem, fato que trará consequências desastrosas ao casal.

Aqui, Fitoussi investe em um lugar comum de outros thrillers psicológicos, que insistem em colocar a mulher como uma espécie de Eva pecaminosa, que mordeu a maçã e foi a única responsável por acabar com o paraíso. A mesma sensação acontece em Aparências, com o sentimento de que a mulher acaba por colocar tudo a perder, apenas por querer se rebelar contra uma situação em que ela se sente diminuída.

Serviço
O filme estará disponível na versão legendada para compra e aluguel nas plataformas digitais Claro tv+ (antigo Claro Now), iTunes/Apple, Google/YouTube e Vivo Play.

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