Crítica: Aos Nossos Filhos, de Maria de Medeiros

Longa traz a complexidade das relações entre mãe e filha e um casal de lésbicas, com roteiro e elenco afiados.

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Aos Nossos Filhos - Foto Divulgação
Aos Nossos Filhos - Foto Divulgação

Inspirado na peça homônima de Laura Castro, o longa-metragem Aos Nossos Filhos estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Imovision, coproduzido pela Globo Filmes e Canal Brasil.

A trama conta a história da família de Vera (Marieta Severo), uma mãe que foi torturada durante a ditadura militar e sua difícil relação com a filha lésbica Tânia, vivida pela própria Laura Castro, e também com o pai desta filha, Fernando (José de Abreu) e com a nora Vanessa (Marta Nóbrega). O elenco também conta com Cláudio Lins, Antônio Pitanga, Denise Crispim, Aldri Anunciação e Ricardo Pereira

Aos Nossos Filhos estreou na França, em fevereiro de 2022, e também passou por mais de 20 festivais pelo mundo, incluindo o Festival do Rio (2019) e o Festival de Havana, em Cuba (2020), ganhando menção honrosa no Cineffable (Festival de Cinema Lésbico e Feminista de Paris — 2020), e o prêmio de Melhor Roteiro no Festival Mix de Milão (2021). Levou também o Prêmio dos Estudantes no festival francês International du Film Politique (2022). 

As complexidades das relações humanas

O filme nos permite embarcar em uma história com personagens e relações muito complexas, principalmente entre mãe e filha, mostrando os paradoxos existente entre ambas e também os conflitos geracionais. Vera coordena uma ONG voltada ao cuidado de crianças soropositivas que vivem em uma favela carioca, enquanto simultaneamente podemos acompanhar o processo de reprodução assistida vivida pelo casal Tânia e Vanessa.

Já no início do filme entendemos que mãe e filha não se falam há anos e aos poucos se reaproximam, mesmo com a distância e as diferenças que as separam. Vera não aceita o fato da filha ter uma reprodução assistida com a nora Vanessa, com quem também não nutre uma boa relação.

Por meio do jornalista Sérgio (Claudio Lins), filho de uma amiga companheira de cela, Vera revive muitas das lembranças que passou durante a ditadura militar, como ter testemunhado a tortura desta amiga, acontecimento que a impacta até a idade madura, quando passa a ter pesadelos recorrentes ao reviver as memórias que compartilha com o jornalista.

Todos esses sentimentos angustiantes são transferidos ao espectador, através da profundidade de interpretação e sensibilidade de Marieta Severo em construir a personagem, e que dispensa comentários.

No entanto, ao mesmo tempo em que Vera é uma mulher progressista e está reconstruindo sua vida quando decide se separar de Fernando, lidamos também com uma mãe homofóbica com a relação da filha, já que ela não aceita sua relação lésbica e tece vários comentários e atitudes preconceituosas em relação à Tânia e à sua esposa.

Aqui temos uma personagem extremamente humana, no sentido de sua complexidade e de seus paradoxos. Interessante notar que muitas das crenças de Vera provém de uma falta de conhecimento geracional, como o preconceito com a inseminação artificial da filha e é justamente a falta de conhecimento que a faz ser preconceituosa.

Um dos pontos altos do longa é justamente traçar o embate entre a classe média alta brasileira e a esquerda: se por um lado temos Vera com sua ONG que acolhe crianças e que possui ideais sociais e voltados à cidadania, por outro lado, temos o preconceito da filha Tânia, em relação às crianças pobres e soropositivas que a mãe acolhe. Assim, temos um embate entre mãe e filha, em uma relação pautada por mágoas, fantasmas familiares e as cicatrizes do passado de ambas.

Não bastasse isso, temos as angústias das personagens de Tânia e de Vanessa. Tânia quer ser mãe a todo custo, mesmo depois de anos com tentativas frustradas e muito dinheiro gasto nas tentativas do processo – fato que é criticado por Vera, que não se conforma da filha não ter adotado uma criança de seu abrigo e pensa na gestação como um capricho.

Em contrapartida, temos a personagem de Vanessa, uma mulher bem-sucedida profissionalmente, mas que já se encontra muito fragilizada psiquicamente, estado que a faz distanciar-se de Tânia, em plena gestação.

Os diálogos do filme são muito potentes ao colocar tanto mãe e filha, como as relações conjugais hetero e homossexuais em pauta, pois nos mostram a complexidade das relações humanas e coloca nosso olhar humanizado diante de todas as relações envolvidas na trama, fazendo com que tenhamos compreensão do ponto de vista de todos os personagens.

Fernando, interpretado por Abreu, por exemplo, traz a figura do pai que apoia a filha e é seu porto seguro, bem como do marido que vive uma vida morna com a mulher, mas como estão prestes a comemorar bodas de ouro, prefere manter o casamento do jeito que está, do que arriscar uma vida nova.

Assim, Aos Nossos Filhos traz ao público a dificuldade da maternidade e das relações LGBTQIA+ em um roteiro inteligentíssimo que consegue mesclar além dessas relações, os impactos do horror psicológico da ditadura militar e o cotidiano violento, vivido por quem mora nas favelas do Rio de Janeiro, com personagens extremamente profundos, contraditórios e talvez, por isso mesmo, humanos.

Todos eles representados em tempos que o Brasil vive uma onda de retrocesso, seja pela extrema violência ao público LGBTQIA+, seja pela permissividade de termos o maior representante do país que apoia discursos inaceitáveis de tortura, como um resquício mórbido do período ditatorial de 1964.

Assista o trailer:

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