Crítica: AmarElo – É Tudo Pra Ontem, de Emicida e Fred Ouro Preto | Blog e-Urbanidade

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Emicida: Amarelo - É Tudo Pra Ontem - Foto: Jef Delgado
Emicida: Amarelo - É Tudo Pra Ontem - Foto: Jef Delgado
Emicida: Amarelo - É Tudo Pra Ontem - Foto: Jef Delgado
Emicida: Amarelo – É Tudo Pra Ontem – Foto: Jef Delgado

O novo documentário do Emicida não é sobre o Emicida. Essa é a primeira coisa que aprendemos ao dar o play em AmarElo – É Tudo Pra Ontem, que estreou no começo de dezembro na Netflix. No longa, dirigido por Fred Ouro Preto e todo produzido pela Laboratório Fantasma; Leandro Roque de Oliveira,  Emicida, usa a sua própria trajetória como pano de fundo para discutir uma história bem mais urgente: a do povo negro.

A urgência permeia todo o documentário – como o próprio nome já diz, É Tudo Pra Ontem. AmarElo levanta uma reflexão que, em dias ruins, passa pela cabeça de qualquer um oprimido pelo sistema: como seguir em frente, sabendo que o passado é tão ruim? Como lutar e vencer, sabendo que antes de nós, tantas pessoas perderam?

Essa reflexão está presente no dia a dia das mais diversas minorias, sejam mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência, e por aí vai. Só que, no caso do povo negro, ela talvez seja ainda mais latente, por ser um passado tão violento e de tentativas de invisibilidade. A abolição da escravatura aconteceu há menos de 200 anos aqui no Brasil, e as consequências da escravidão ainda hoje são responsáveis por desigualdades e falta de oportunidades.

Ao falar sobre Lélia Gonzalez, Emicida discorre sobre o conceito de interseccionalidade – o estudo da sobreposição dos diferentes tipos de opressão social. Com isso, ele mostra que sim, é claro que todas as minorias têm suas próprias dores – mas, quando você faz parte de mais de uma minoria ao mesmo tempo, a opressão é ainda maior.

O caráter social e de ativismo é um instrumento muito presente nas músicas do rapper desde o início da carreira, mas se no começo seu objetivo era falar com o povo negro em seus espaços, agora a ideia é que esse mesmo povo ocupe, de vez, lugares que são seus por direito.

Emicida em show no Theatro Municipal - Foto: Jef Delgado
Emicida em show no Theatro Municipal – Foto: Jef Delgado

Assim, o artista realizou dois shows no Theatro Municipal de São Paulo, em novembro de 2019. A ideia era incentivar o pertencimento das pessoas negras em ambientes considerados tão elitistas e brancos. Com os shows históricos,  questionou o motivo de seus irmãos e irmãs não se sentirem “em casa” nesses ambientes, que foram construídos com a mão de obra de seus antepassados.

Apesar de falar sobre racismo com todo esse caráter de urgência, AmarElo também é doce e sensível. E segue a mesma ideia do álbum homônimo, que foi lançado em 2019. A mensagem é clara: existem muitos motivos para chorar e, por isso, ser feliz é a maior forma de resistência.

O documentário, que destaca toda essa era AmarElo, também trata de ancestralidade. Assim, além de apresentar suas filhas, homenageia sua própria mãe e diversas parcerias, como Zeca Pagodinho e Fernanda Montenegro.

As raízes também vão muito além dessa conexão próxima e se expandem ao retratar figuras históricas como Lélia Gonzalez e os Oito Batutas. Também homenageia Ruth de Souza e Wilson das Neves.

Na sequência final, o documentário apresenta a parceria de Emicia com Majur e Pabllo Vittar que dá nome a toda a sua era. O rapper deixa claro que, apesar da luta contra o racismo ser a sua, todas as outras lutas também são – porque a guerra só chega ao fim quando não há mais soldados do exército aliado lutando nas trincheiras.

Ao se unir com a drag queen e a cantora não-binária, o documentarias mostra que, enquanto a felicidade é a maior resistência de uma minoria, a união é o combustível para que todos os grupos sejam, de fato, livres. Existe um motivo para o “elo”, de AmarElo, estar em letra maiúscula. Lutar é necessário, é urgente, é essencial. Mas criar pontes com amor e respeito também é.

É com esse elo em mente que o final do documentário aborda, de forma breve, a pandemia do novo coronavírus. Mostrando a população de rua vagando por avenidas agora vazias e o hospital de campanha construído no Estádio do Pacaembu, Emicida não deixa de criticar as desigualdades sociais evidenciadas pelo vírus – se isolar e se proteger da doença, infelizmente, é um privilégio de classe e de raça no Brasil.

AmarElo ainda termina com uma nota de otimismo. Mesmo sem os elos físicos que nos unem, Emicida usa o passado para mostrar que sairemos dessa. Como o próprio Leandro diz na música que dá nome ao projeto: Belchior tinha razão, “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro“.

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