Crítica: Alaska, direção Rodrigo Pandolfo

Escrita pela dramaturga estadunidense Cindy Lou Johnson, Alaska ganha montagem inédita no Brasil com Rodrigo Pandolfo e Louise D’Tuani.

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Alaska - Foto: Patrícia Cividanes
Alaska - Foto: Patrícia Cividanes

Nestes tempos pós-pandêmicos e de consumo acentuado de antidepressivos, a solidão de Henry (Rodrigo Pandolfo) e Rosannah Deluce (Louise D’Tuani) liga-se imediatamente com o espectador de Alaska.

Montagem inédita no Brasil do texto da dramaturga estadunidense Cindy Lou Johnson, esse encontro inusitado de uma jovem vestida de noiva e um ermitão num lugar frio e inóspito já pode ser considerado uma das boas surpresas na cena teatral paulistana neste primeiro semestre.

A encenação tem ares de site specific, diante da exploração do lugar longínquo, quase perdido, do Espaço Ademar Guerra, no Centro Cultural São Paulo. Dessa forma, trata-se de uma instalação artística e genial para o universo solitário dos personagens de Johnson.

Dramaturgia

A roteirista e diretora escreveu Brilliant Traces, título original de Alaska, em 1989. Premiada e com alguns dos seus textos adaptados para a televisão canadense, aqui propõe esse encontro num lugar etéreo, num jogo de aproximação e repulsa, em que as solidões e traumas se trombam no chão branco da existência.

No texto há referências sobre um apagão branco, sobre a queda da neve, sobre um céu da mesma cor que o chão, dando a impressão de que as personagens voam, mas que ao mesmo tempo são atingidas pela gravidade e caem no chão gelado. Esse apagão branco pode ser lido como a paralisação em que eles se encontram“, diz Pandolfo.

A questão central da dramaturga não é sobre as explicações metafísicas sobre a humanidade, tais como “de onde viemos” e “para onde vamos”. Mas, sim sobre os temas próprios do homem e da mulher da contemporaneidade, após vencidas as indagações deístas da modernidade. Aqui esse indivíduo precisa salvar-se de si mesmo.

Afinal, ao olhar-se, sem qualquer esperança de um galardão ou que vai tudo melhorar no além, precisa conviver e encontrar a redenção entre seus próprios fantasmas e demônios.

Encenação

Provavelmente o grande acerto da encenação de Pandolfo, que está em cena e na direção, seja a concepção estética. A cenografia de Miguel Pinto Guimarães, a luz de Wagner Antonio, os figurinos de Jay Boggo e a trilha sonora Azullllllll exploram o microcosmo solitário, ilhado e delirante do embate proposto na dramaturgia. Assim, texto e plástica se complementam e colaboram no entendimento e na imersão no mundo dos misantropos.

Elenco

Daí é importante destacar, chamada pela produção, a “contrarregragem performática” de Gabs Ambròzia e Canafístula Lima. Assim, atuam como figuras quase míticas, que ajudam a contar a história e encorpar o mundo fictício. Sem falas e totalmente sincronizados com os diálogos, ação e movimentos concebidos a partir do preparo corporal de Ana Paula Lopez, trazem beleza e mais lirismo à encenação.

O ator Pandolfo e D’Tuani entregam-se com clareza e respeito aos infernos pessoais de suas personagens. Mostram-se coerentes no ritmo, usufruem do drama ao tom divertido com destreza. A dicção, mesmo com os microfones, fica um pouco prejudicada em alguns momentos, pelo eco da sala de apresentação.

Fim de temporada

Alaska termina temporada, e tem promessa de retorno bem breve. Com a difícil missão de conseguir um novo espaço que possa repetir o acertado diálogo entre estética e a dramaturgia proposta.

Por fim, se Shakespeare trouxe as questões do homem metafísico na pele de Hamlet, Johnson atualiza os conflitos da humanidade pelo viés intrapessoal. Dessa maneira, deixa o assistidor perdido e embaralhado no mundo de Henry e Rosannah.

Tudo isso para falar dessa gente que conquistou tantas coisas, desde a existência do inconsciente ao turismo no espaço, mas afundada numa sociedade doente e imersa na solidão existencial. E daí Jean-Paul Sartre (1905-1980) tem lá razão sobre a humanidade, pois o inferno é o outro, mas que vai descobrindo que, na verdade, o inferno está mesmo dentro de nós.

FICHA TÉCNICA

Autor: Cindy Lou Johnson
Título Original: Brilliant Traces
Tradução: Luiza Vilela
Direção: Rodrigo Pandolfo
Elenco: Louise D’tuani e Rodrigo Pandolfo
Contrarregragem Performática: Gabs Ambròzia e Canafístula Lima
Assistente de Direção: Rael Barja
Preparação Corporal: Ana Paula Lopez
Cenografia: Miguel Pinto Guimarães
Desenho de Luz: Wagner Antonio
Figurinos: Jay Boggo
Trilha Sonora: Azullllllll
Operador de Luz: Dimitri Luppi
Operadora de Som: Jéssica Silva e Alírio Assunção
Cenotécnico: Bruno Portela

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