Critica: A Vida Útil de Todas as Coisas, texto e direção Kiko Rieser | Blog e-Urbanidade

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A Vida Útil de Todas as Coisas - Foto: Heloisa Bortz
A Vida Útil de Todas as Coisas - Foto: Heloisa Bortz
A Vida Útil de Todas as Coisas - Foto: Heloisa Bortz
A Vida Útil de Todas as Coisas – Foto: Heloisa Bortz

As distopias têm o efeito de tocar nas feridas da sociedade, em clima de ficção, mas com aquele gosto de e-se-isso-for-verdade-um-dia?. E exatamente esse o ponto de partida de A Vida Útil de Todas as Coisas, direção e dramaturgia de Kiko Rieser, atual cartaz do Teatro do Núcleo Experimental.

(Se você ainda não ouviu, vale a pena conferir o podcast Rolê Urbano, episódio 1, que tem sua trilha temática pelas distopias. Lá também sugerimos outras produções teatrais, no cinema, em streaming com esse mote.)

A desesperança gera as distopias que, segundo Rieser, é a atual situação brasileira, vista com profunda desesperança por quem acreditava e lutava por avanços nos direitos humanos e conquistas democráticas, é inevitavelmente uma força motriz para se repensar o mundo e os rumos que tomamos como sociedade (clique aqui para ler a entrevista completa). 

A Vida Útil de Todas as Coisas conta sobre um idoso com problemas de memória (João Bourbonnais) e recebe o diagnóstico de que não há mais conserto. No universo de Rieser não existe ainda como trocar o cérebro. Dessa forma, seu filho (Eduardo Semerjian) se revolta contra a indústria de órgãos biônicos, mesmo que já tenha trocado o pulmão ou o joelho da filha (Louse Helène).

A relação com a empresa e os diagnósticos são apresentados por uma atendente (Luciana Ramanzini) que reflete o jeito cínico próprio do liberalismo que estamos enfronhados.

Rieser mostra qualidade tanto como autor como encenador. Constrói uma narrativa coerente e consegue dos atores boa atuação nas diferentes camadas. Diante das possibilidades das suas personagens, Bourbonnais e Semerjian são regulares e têm as silhuetas corretas. Helène cresce na última cena e Ramanzini, felizmente, consegue sair do lugar comum, caricato, que sua atendente poderia cair.

A direção também acerta na proposta estética: hermética e etérea. O cenário de Marisa Bentivegna é singular e bem resolvido nas gavetas justapostas. Kleber Montanheiro propõe um figurino que colabora com o clima ficcional. A iluminação de Aline Santini desfruta de cores e tonalidades ora com ar de modernidade, ora dá temperatura aos acontecimentos. E, por fim, a tilha sonora de Gregory Slivar arremata bem.

A Vida Útil de Todas as Coisas é uma boa reflexão sobe essa utilidade imposta a todas as coisas e pessoas. No mundo do capitalismo liberal não há espaço para a não serventia. Assim, como jogamos fora aquele eletrodoméstico que não serve mais e o conserto fica mais caro que um novo, as pessoas estão ficando também descartáveis.

E será que esse mundo de ciborgues é mesmo ficção científica? Se são eles a síntese de partes orgânicas e artificiais, verdade!, estamos muito mais próximos deste universo do que imaginamos. A parafernália tecnológica (celular, fone de ouvido, bluetooth etc), os medicamentos que dão sobrevida, os enxertos corporais e até o simples óculos para enxergar melhor são bons exemplos como estamos repletos já desses organismos tecnológicos. A Vida Útil de Todas as Coisas não é tão ficção assim.

Ser não é mais suficiente. É preciso ser útil. É preciso parecer. São essas as regras desse mundo contemporâneo, que põe na lona, em definitivo, qualquer uma das utopias que um dia acreditamos. Por isso, essa montagem é tão pulsante e importante.

Não deixem de ver.

Serviço
Temporada: 28 de junho a 21 de julho – Às sextas e aos sábados, às 21h; e aos domingos, às 19h
Indicação Etária: 12 anos

FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Kiko Rieser
Assistente de direção: Amazyles de Almeida
Elenco: Eduardo Semerjian, João Bourbonnais, Louise Helène e Luciana Ramanzini
Cenário: Marisa Bentivegna
Figurinos: Kleber Montanheiro
Iluminação: Aline Santini
Música original: Gregory Slivar
Visagismo: Louise Helène
Design Gráfico: Angela Ribeiro
Registro Fotográfico: Heloísa Bortz
Registro em Vídeo: Ricardo Montenegro
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Mídias Sociais: Gigi Prade
Direção de Produção: Selene Marinho
Produção executiva: Marcela Horta
Produtor Associado: Kiko Rieser

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