Crítica: A Vela, direção Elias Andreato

Herson Capri e Leandro Luna vivem pai e filho que se reencontram, após 20 anos, ao romperem por não aceitar rapaz gay e drag queen.

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A Vela - Foto: Caio Gallucci
A Vela - Foto: Caio Gallucci

O encontro entre um pai conservador e um filho gay, e que artisticamente expressa-se como drag queen, é o mote da peça A Vela. Em temporada online, o texto de Raphael Gama explora, além da relação edípica, os limites entre preconceito, homofobia e perdão.

Gracindo (Herson Capri) é um professor aposentado, 70 anos, que se prepara para morar em uma casa de repouso. Depois de seu solilóquio e um mal estar, bate à sua porta Cadú (Leandro Luna) montado de drag queen para ajudar o progenitor na mudança.

A dramaturgia parte de diálogos realistas e entrelaçados para chamar a atenção do assistidor à primeira parte. Passam a limpo a relação desde que o filho foi expulso da casa até o momento atual, após o falecimento recente da mãe em que Cadú não compareceu.

A indagação central do rapaz é como um professor tão culto, rodeado de bons livros e que tanto valorizou seus alunos pode distanciar-se dele. A partir daí, o dramaturgo explora de forma simples e descomplicada o encadeamento rotineiro e ordinário de uma sociedade preconceituosa.

Gama propõe um texto ágil, com boas tiradas, irregular e que surpreende nos últimos 10 minutos. Assim, as discussões, as fotos vistas, os diálogos perdidos e até mesmo a vela acessa constroem uma dramaturgia funcional e bem amarrada.

Soa um pouco estranho o não aprofundamento da questão trazida pelas fotografias escondidas na mesa de cabeceira do pai e também da situação atual de Gracindo, trazida pelo filho. Assim, mesmo genial, o epílogo tem ares de deus ex-machina.

A Vela ganha mais potência na direção e na embocadura dos atores. Elias Andreato, que também assina a cenografia e figurinos, tece um universo de recordações expostas nos livros e discos da estante do pai.

Ainda apoia os atores na compreensão do texto e explora as diferentes câmeras para construir recortes da cena teatral. Pelos closes delimita um cosmo verossímil, até mesmo para os diálogos solitários e com Dalva, a esposa falecida.

Capri assume o pai de forma elegante e, pela experiência com a tevê, fica à vontade nas tomadas, nos fechamentos e aberturas da câmeras. Sem dúvida, Gracindo ganha potência na maturidade e tarimba do ator, que ainda soa natural nas declamações e diálogos.

Luna humaniza-se no decorrer da apresentação e, sendo um ator com muita bagagem em musicais, domina as canções e traz a comoção necessária na cena derradeira. Também vai do filho magoado e impetuoso a Madame Bovary com leveza e consciência.

A Vela tem muito a dizer sobre o mundo dos homofóbicos e das famílias que ainda jogam os homossexuais para fora das suas casas. Tudo em nome das crenças religiosas e de uma posição social. E provavelmente um dos momentos mais difíceis dessas tragédias está aqui retratada: o ato de reaproximar, perdoar e se reencontrar.

A jornada de Gracindo e Cadú é de redenção, mesmo que aconteça depois de vinte anos e num momento de poucas alterações na vida prática. Por isso, fica a dica: enquanto as velas estão acessas entre tantos, tantas e tantes, vale a pena se aproximar, ver fotos e reconstruir histórias de amor, reconciliação e de acolhimento.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

Processos de aceitação em famílias conservadores dão sempre histórias fortes. E o jovem diretor Xavier Dolan tem se mostrado um diretor eficiente e sensível à essas questões. Dois filmes dele valem a pena conferir: Tom Da Fazenda (2012), que no Brasil tem uma versão imperdível para o teatro (saiba mais aqui), e Matthias & Maxime (2019). Procure nas plataformas de streaming e de sua tevê a cabo.

Também vale a pena dar uma olhada no documentário Pray Away (2020, Netflix) que traz a cruzada das chamadas curas gay pelos Estados Unidos. O movimento Exodus Internacional, que ainda se mantém ativo no Brasil, é acompanhado e o doc mostra como o grupo perde força à medida que “ex-gays” vão reconhecendo que a questão religiosa pouco tem a ver com as suas orientações sexuais.

Serviço
Temporada online:
Dias 2 e 3 de outubro – Sábado às 21h e domingo às 18h.
De 22 de outubro a 14 de novembro de 2021 – Sextas e sábados às 20h. Domingos às 19h
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Indicação etária: 14 anos.
Gratuito
60 minutos

Ficha Técnica
Texto: Raphael Gama. Direção, cenário e figurino: Elias Andreato. Elenco: Herson Capri (Gracindo) e Leandro Luna (Cadú/Emma Bovary). Assistente de direção e produção: Rodrigo Frampton. Iluminador e operador de luz e som: Cleber Eli. Contraregragem e Camarim: Renato Valente. Foto: Caio Gallucci. Caracterização: Brechó Minha Avó Tinha. Visagista: Márcio Merighi. Designer Gráfico: Luciano Angelotti. Fotos: Caio Gallucci. Vídeo:Otávio Pacheco e Douglas B. Silva. Produtora de Vídeo: Trapézio Produções Culturais. Assessoria de Imprensa:Adriana Balsanelli.

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