Crítica: A Ponte, direção Adriano Guimarães – Blog e-Urbanidade

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A PONTE - Foto: Flavia Canavarro
A PONTE - Foto: Flavia Canavarro
A PONTE - Foto: Flavia Canavarro
A PONTE – Foto: Flavia Canavarro

As famílias, principalmente as disfuncionais, são sempre ótimas fontes para boas histórias. E não é diferente quando o dramaturgo canadense Daniel Maclvor se propõe a investigar sobre as relações humanas na intimidade de uma cozinha, com três irmãs (Bel Kowarick, Débora Lamm e Maria Flor) que aguardam a morte da mãe. Com direção do Adriano Guimarães, sem dúvida, é um dos espetáculos imperdíveis desse início de ano em São Paulo.

Maclvor é conhecido por seus textos marcantes como In on It, À Primeira Vista, Aqui Jaz Henry e Cine_Monstro. Dessa vez sua trama se dedica e esmiuçar a possibilidade de haver vínculo entre três irmãs de vidas completamente diferentes.

Se não dá para mudar nem o futuro nem o presente, o autor mais uma vez cria uma trama que investiga a maleabilidade das memórias do passado, por meio das marcas afetivas e traumáticas familiares. Por isso, a identificação com o assistidor é quase imediata diante do lugar que quase todos ocupam – ou como filhos ou irmãos ou pais – quando voltam para cozinha das suas casas.

Na perspectiva sempre inventiva e estética cuidadosa do encenador, Adriano toma partido do talento e do carisma das atrizes para se comunicar. E utiliza as rubricas do texto teatral em uma tevê para ajudar a contar a história.

Alguns diálogos, o barulho da tevê, a chegada de um caminhão e outros sons pedidos no script são expostos na televisão e transpostos ao espectador para um original lugar entre a metalinguagem e o texto literário. Até mesmo no clímax da cena derradeira o recurso funciona e subverte os clichês dramáticos. E a trilha sonora diminuta é utilizada com toda a sua potência no momento certo.

Não há como privilegiar o trabalho de uma das atrizes na montagem. É verdade que Lamm e Kowarick já dominam a cena assim que as luzes se acendem. Lamm dá a silhueta correta a sua atriz falida Agnes, que deixou sua cidade natal, tanto nos momentos dramáticos e engraçados. Mostra entrega ainda no prólogo e dá à sua personagem uma demão cativante graças ao seu talento à comédia. E é a grande surpresa da peça.

Bel é a freira Theresa que se isolou da família em uma fazenda religiosa. Seu tom seco e resolutivo tem aquela função da irmã mais velha, que não para de fazer coisas pela cozinha. Tem todo o arsenal para ir contra à construção da tal ponte entre elas: suas concepções religiosas e papel familiar. A atriz mostra regularidade na jornada crível e, de alguma forma, soa esperançosa para os dias atuais.

Flor é Louise, a irmã mais nova, viciada em séries de tevê e a única que não tem nome de santa (por isso, decora o nome de todos beatificados). Sua personagem parece um pouco perdida, mas ganha volume e complexidade à medida que as relações e os dramas vão sendo expostos. Conquista de vez a plateia no seu monólogo final sobre a (sua própria) estranheza.

Love, Love, Love de Mike Bartlett, Agosto de Tracy Letts e até mesmo o dramalhão mexicano do Netflix, A Casa da Flores, mostram como essa famílias estranhas e cheias de relações partidas podem ser cruéis e penosas. Porém, A Ponte tem um olhar otimista sobre a possibilidade de haver novas trilhas e aproximações. Entender que não é preciso necessariamente amar essas pessoas com mesmo sangue, mas sim compreendê-las e respeitá-las.

A junção de bom texto, direção presente (mas, não onipresente) e atrizes bem preparadas para o jogo cênico é o que se encontra no CCBB-SP. E esse viés positivo no caminho da tolerância engradece o poder construtivo das artes, do qual estamos tanto precisando.

Serviço:
De 01/02 a 05/03/2019  – Sextas, Sábados e Segundas às 20h e Domingo às 18h (clique nos dias da semana para ter acesso a agenda do blog)
Sessões extras: dias 21 e 28 de fevereiro e 07 de março, quintas, às 20h
Sessão com tradução em Libras: dia 22 de fevereiro, sexta, às 20h**

Ficha Técnica
Texto: Daniel MacIvor
Tradução: Bárbara Duvivier
Dramaturgia: Emanuel Aragão
Direção: Adriano Guimarães
Elenco: Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor
Assistência de direção e stand in: Liliane Rovaris
Cenografia: Adriano Guimarães e Ismael Monticelli
Figurino: Ticiana Passos
Iluminação: Wagner Pinto
Direção de Movimento: Denise Stutz
Programação Visual e fotografia: Ismael Monticelli
Fotos de cena: Flavia Canavarro
Assessoria de imprensa: Morente Forte
Produção Executiva: Adriana Salomão
Produção Local SP: Contorno Produções
Administração e Produção: Super Normal
Direção de Produção e Idealização: Bel Kowarick e Maria Flor
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Patrocínio: Banco do Brasil, Cateno e 3M

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