Crítica: A Ilha de Bergman, de Mia Hansen-Løve

Filme de Mia Hansen-Løve teve sua première mundial no Festival de Cannes, e traz no elenco Tim Roth, Vicky Krieps e Mia Wasikowska

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A Ilha de Bergman - Foto: Divulgação
A Ilha de Bergman - Foto: Divulgação

Ingmar Bergman (1918 – 2007), diretor de obras-primas como Persona, Gritos e Susurros, O Sétimo Selo, Cenas de um Casamento, é considerado um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos. Seu legado e seus métodos de trabalho, assim como seus filmes que abordavam temas como a dor, a tristeza e a morte, conseguiram transcender a história do cinema e influenciar várias gerações de cineastas.

Um exemplo disso é o longa-metragem A Ilha de Bergman, da diretora francesa Mia Hansen-Løve. Aqui o diretor sueco é um dos temas principais de uma trama em que se confundem os limites entre a realidade e ficção. A produção conta com a participação do brasileiro Rodrigo Teixeira (Alemão, Os Dois Lados Do Complexo, O Hipnotizador, Tim Maia, Vale O Que Vier), em conjunto com Charles Gillibert e Erik Hemmendorff.

Hansen-Løve nos transporta a Fårö, a ilha em que Bergman viveu e filmou vários de seus filmes. Um local paradisíaco que agora é uma zona turística e que desperta a curiosidade de cinéfilos e artistas que decidem buscar inspiração naquela terra, que inspirou o grande diretor.

Os protagonistas do filme Cris (Vicky Krieps) e Tony (Tim Roth) formam um casal de cineastas que decidem isolar-se na ilha com o objetivo de ter inspiração para seus projetos artísticos. Ambos tem muita consciência de que não vão criar um próximo Persona. No entanto, o lugar os inspira por velhos rumos e traz novas perspectivas sobre Bergman, o cinema e o universo interno de cada um deles.

Um ponto interessante do longa é apresentar duas histórias, uma dentro da outra, com um filme dentro do filme. Vale lembrar que esse trabalho se apresenta como uma homenagem à obra de Bergman, na qual se abordam detalhes sobre a vida pessoal do diretor. Assim, não há necessidade de ter visto filmes do diretor para poder entender toda a trama, ainda que hajam ali algumas referências e fatos da vida do diretor.

Um dos diálogos entre Cris e Tony abarca justamente a vida pessoal do cineasta, onde a protagonista expõe sobre o fato do diretor ter tido seu sucesso à custa do sacrifício das suas mulheres. “Aos 42 anos ele já havia dirigido 25 filmes. Como ele teria feito isso sem a sua mulher?“, questiona Cris.

O cineasta teve nove filhos reconhecidos por ele, sendo um pai negligente, além de cinco casamentos e ter traído diversas vezes. Bergman era ciente de suas ações, como aponta seu filme, o Documentário sobre a Ilha de Fårö (1969). Ali, ao ser indagado sobre seu papel como pai, afirma que “ter peso na consciência é egoísmo, já que minha dor sempre será pequena diante dos tormentos que gerei aos outros”.

Outro ponto interessante nos diálogos é o quanto a diretora também aproveita para mostrar as distinções que o cinema faz quando uma produção é dirigida por uma cineasta. Afinal, mesmo que nos últimos anos hajam mais mulheres dirigindo no cinema, os reconhecimentos seguem direcionados aos homens. Basta ver que muitas vezes as críticas menosprezam um bom filme apenas por ter sido dirigido por uma mulher.

A presença metalinguística surge após a primeira hora, quando vemos a história de Cris, que pede ajuda a Tony para escrever seu roteiro. E logo depois disso o espectador passa a ver a história de Amy (Mia Wasikowska) e  Joseph (Anders Danielsen Lie).

Amy vai à ilha de Fårö para o casamento de uma amiga e reencontra um antigo namorado, Joseph. E antigos sentimentos afloram, mesmo estando em outros relacionamentos.

Dessa forma, a maneira como Hansen-Løve constrói a narrativa nos confunde e nos leva a pensar que a história de Amy e Joseph é, na realidade, a história de Cris e Tony.

Ficha Técnica
Direção: Mia Hansen-Løve
Roteiro: Mia Hansen-Løve
Produção:  Rodrigo Teixeira, Charles Gillibert, Erik Hemmendorff
Elenco: Vicky Krieps, Tim Roth, Mia Wasikowska, Anders Danielsen Lie, Hampus Nordenson
Direção de Fotografia: Denis Lenoir
Desenho de Produção: Mikael Varhelyi    
Montagem: Marion Monnier
País: França, Bélgica, Alemanha, Suécia, México
Ano: 2021
Duração: 112 min.

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