Crítica: A Golondrina, direção Gabriel Fontes Paiva

Produção de Odilon Wagner, direção de Gabriel Fontes Paiva e com Tania Bondezan e Luciano Andrey no elenco, peça fala sobre diversidade.

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A GOLONDRINHA - Foto: Joao Caldas Fº
A GOLONDRINHA - Foto: Joao Caldas Fº
A GOLONDRINHA - Foto: Joao Caldas Fº
A GOLONDRINHA – Foto: Joao Caldas Fº

Publicado em 08/05/2019.

Há sim diferença entre os ataques terroristas às mesquitas e ao acontecido no bar gay Pulse, em Orlando (EUA), em 2016. E a partir dessa proposição o dramaturgo barcelonês Guillem Clua criou o fictício encontro de Amélia (Tania Bondezan), mãe que perdeu seu filho na chacina, com Ramon (Luciano Andrey), o desconhecido viúvo do filho dela.

Com direção de Gabriel Fontes Paiva, a melodramática história de várias reviravoltas feitas a partir de revelações, em que dores e rancores vão sendo passados a limpo, torna A Golondrina hodierno, na agenda do dia.

A dramaturgia de Clua tem a capacidade de clarear as diferentes matizes dos ressentimentos e sofrimentos de ambos de forma corajosa, ora cruel ora piedoso. Dessa forma, os diálogos que espelham a teia da difícil aproximação de Ramom é um exercício a empatia.

A complexidade das personagens, num texto que vai muito além de hipóteses bipartidas, tem um valor extremamente educativo neste mundo binário do Fla-Flu, esquerda-direita, sim-não, fora-dentro, 0-1.

É verdade que os elementos melodramáticos pesam um pouco no texto e fica over nos últimos quinze minutos. Afinal, a mensagem já foi dada e fica-se explorando mais elementos que extrapolam um sentimentalismo puro e simples, que é um traço comum na dramaturgia espanhola e dos nossos vizinhos argentinos.(Certa vez ouvi mais ou menos assim de um roteirista: espanhóis e os hermanos não têm medo de se entregar ao dramalhão. São bons no que fazem e por isso fazem sucesso!).

Paiva, por outro lado, na sua função de encenador tem a feliz capacidade de esvaziar esse clima melodramático, não utilizando, por exemplo, uma trilha sonora que pudesse levar a pieguice. Assim, com foco no texto e nos atores, sem muitos elementos cênicos, revela-se uma direção correta. Falta sim um pouco de inventividade de forma geral, mas aceitável diante das várias peripécias da dramaturgia.

O tom realista também presente na cenografia de Fabio Namatame explora o subtexto a partir da transparência das paredes. A boate Pulse, que tragicamente os reúne, é, sem dúvida, o plano de fundo dos dramas pessoais ali expostos, onde a música mexicana La Golondrina segue em os aproximar.

Amélia – que na versão espanhola é interpretada por Carmen Laura – tem na maturidade de Tania a silhueta compatível à atribulada mãe. A atriz é capaz de ir do céu ao inferno em poucos segundos e consegue abarcar a complexidade da personagem. (Leia a entrevista com a Tania sobre a peça.)

Luciano tem um traço cênico mais naturalista e é quem primeiro aproxima o assistidor à narrativa. Mostra-se à vontade já nas primeiras cenas cômicas e consegue alcançar o tom mais dolorido das cenas finais.

No intuito de dialogar com a encenação, se há um porém aqui é que sendo Tania e Luciano dois atores de registros cênicos bem distintos, parece haver a ausência de um trabalho em que aproxime os estilos. Sendo ela mais empostada e Luciano mais orgânico, isso poderia evitar a impressão de um tom caricatural em algumas cenas.

No playbill de A Golondrina os produtores Ronado Diaféria, Tania e Odilon Wagner escrevem: Dizem que a regra de ouro dos relacionamentos é “Faça ao outro aquilo que gostaria que fizesse com você”, mas como disse Bernard Shaw, “Talvez o outro não goste das mesmas coisas que você!”, portanto a verdadeira regra de outro dos relacionamentos é “Aceite o outro como ele é. Diante disso, a montagem em cartaz no Teatro Vivo (em 2021) tem caráter de urgência.

Nesta semana que começamos com a morte a pauladas da travesti Larissa Rodrigues na Zona Sul de São Paulo por intolerância, não temos dúvida que há diferença entre o ataque terrorista da Nova Zelândia, por exemplo, e da Boate Pulse. Nenhum dos dois é aceitável e não existe melhor ou pior, mas no de Orlando (e no de Larissa) existe a intenção homofóbica.

Portanto, A Golondrina fala sobre os ativos mais importantes a serem conquistados nesta década: a empatia e a negação do registro binário e simplista do certo x errado. E na peça é pela crueza dessas vidas dilaceradas pela intolerância que esse caminho é proposto.

Serviço
Temporada 2021:
De 12 de outubro de 2021 a 04 de novembro de 2021. De terça-feira a quinta-feira às 20h. (clique aqui para mais informações e ingressos)

De 19 de abril a 09 de junho – Às sextas e sábados, às 21h; e aos domingos, às 19h (clique nos dias da semana para ter acesso a agenda do blog)
Indicação Etária: 16 anos

FICHA TÉCNICA
Autor: Guillem Clua
Tradução: Tania Bondezan
Direção: Gabriel Fontes Paiva
Elenco: Tania Bondezan e Luciano Andrey
Cenógrafo e figurinista: Fabio Namatame
Assistente de direção: Ana Paula Gomez
Iluminador e Sonoplasta: André Prado
Trilha Sonora: Luisa Maita
Preparação Vocal: Jonatan Harold
Montagem/Direção de Cena/Contrarregra: Tadeu Tosta
Produção: Ronaldo Diaféria, Odilon Wagner e Tania Bondezan
Assessoria de imprensa: Pombo Correio

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