Crítica: A Cor Púrpura, direção Tadeu Aguiar

A Cor Púrpura - O Musical de Tadeu Aguiar e versão brasileira Artur Xexéo está de volta aos palcos de São Paulo.

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A Cor Púrpura - Foto: Rafael Nogueira
A Cor Púrpura - Foto: Rafael Nogueira

Um dos mais premiados musicais volta aos palcos paulistanos, A Cor Púrpura – O Musical é dirigido por Tadeu Aguiar e tem versão brasileira assinada pelo saudoso Artur Xexéo (1951-2021). A narrativa da vida dura e separação das irmãs Celi e Nettie residentes da zona rural da Geórgia nos Estados Unidos é revivida. E se os clássicos são sempre atuais, camadas sobre misoginia, racismo e sexualidade ganham aqui novos significados.

O musical é uma adaptação do livro de Alice Walker, vencedora do Pulitzer, em 1983, e que serviu de inspiração para o filme homônimo de Steven Spielberg, de 1985, estrelado por Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey.

Então, no início dos anos de 1900, Celi, brutalizada desde a infância, é separada da irmã caçula após ser oferecida para esposa-empregada a um fazendeiro local. Sua jornada é transformada quando a cantora Shug Avery chega à sua casa, criando uma relação homoafetiva instigante e de remissão.

Inicialmente A Cor Púrpura – O Musical é uma imersão no universo negro norte-americano e da música gospel. As canções de Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray atravessam estilos e ritmos. Dessa forma, torna-se uma montagem cheia de composições e interpretações memoráveis.

Letícia Soares (que interpreta Celi) encabula a plateia em seus solos, porém é preciso dizer que todo o elenco alcança essa grandeza quando a dramaturgia os permite. Assim, a direção musical de Tony Luccheci apura e apoia os intérpretes, conseguindo uma uniformidade do elenco, pouco vista em musicais.

Vários diálogos do roteiro de Menno Meyjes para o cinema são quase transcritos pela dramaturga Marsha Norman. Obviamente alguns conflitos são reduzidos, soluções alteradas e personagens crescem e reforçam principalmente o tom de comédia que é mais proeminente no musical.

É o caso de Gralha (Analu Pimenta), a segunda esposa de Harpo (Alan Rocha). Aliás, Rocha que tem um carisma contagiante, pega a plateia pelas mãos, a (e se) diverti e tem ótimos momentos.

A Cor Púrpura - Foto: Rafael Nogueira
A Cor Púrpura – Foto: Rafael Nogueira

Diante de um elenco tão regular, Flávia Santana cativa como Shug. Erika Affonso consegue ir da comédia ao drama, à medida necessária de Sofia, personagem que foi interpretada por Winfrey no cinema. Wladimir Pinheiro é o marido Mister cruel e um dos poucos, mas marcantes solos masculinos da montagem.

Ester Freitas, a irmã Nettie, emociona na esperada cena final. Tem participação especial de Jorge Maya, como o pai vil, e completam o elenco: Suzana Santana, Hannah Lima e Cláudia Noemi num divertido e competente trio; e ainda Caio Giovani, Leandro Vieira, Gabriel Vicente; Thór Junior, Renato Caetano e Nadjane Pierre.

A cenografia de Natália Lana é inventiva ao usufruir de um palco giratório de 6 metros de diâmetro e duas escadas curvas que se movimentam em torno do cenário.

Os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal trazem à época e são fundamentais à estética rural norte-americana do início do século passado. O desenho de luz de Rogério Wiltgen explora as marcações e dispõe de sombras e luzes de fundo para elaborar o universo bucólico.

Dizem que um clássico só é clássico se suas questões centrais vão sendo atualizadas no decorrer do tempo. Por isso, Eurípides, Sófocles, William Shakespeare, Tennessee Williams e Nelson Rodrigues são bons exemplos de dramaturgias sempre refeitas e cheias de novas demandas.

Dito isso, A Cor Púrpura – O Musical e o drama das irmãs renovam-se em tempos Black Lives Matter, MeToo e Judith Butler.

O sufocamento de Celli, Nettie, Shug, Sofia e até Harpo diz muito sobre as vidas negras sufocadas por uma sociedade cruel, preconceituosa e com padrões de violência que se misturam com o tecido social.

Então, a sobrevivência e a redenção só pode acontecer quando ninguém solta a mão de ninguém. A sororidade é necessária diante do machismo que sobrevive na rivalidade entre mulheres.

O grito de “Estou Aqui” de Celi mostra empoderamento e a possibilidade de mudar o destino. Por isso o protesto de Goldberg da versão do cinema de 1985 ganha volume, força e potência na voz de Soares. Torna-se um urro de resistência.

E se a versão de Spielberg trata de uma possível relação homoafetiva entre a protagonista e Shug, a versão de Xexéo aponta para as relações fluídas. Celi encontra seu desejo nesse encontro. Mas colocar o tesão dela (e delas) em caixinhas binárias reduz e simplifica as possibilidades do libido.

A Cor Púrpura – O Musical tem muitas outras camadas e o tempo as concederá outras. Por isso, diante de tantos acertos técnicos e interpretações tão vigorosas, o final feliz de Celi e Nettie não pode deixar o espectador apenas emocionado e satisfeito quando vai para casa.

Afinal essa é a nossa sociedade que separa histórias e famílias pela raça, classe social e sexo. Logo, depois da emoção final, lembre-se: políticas de compensação são fundamentais para que sejamos definitivamente gratos pela bela cor púrpura dos campos de flores.

Mediação – propostas para ampliar sua fruição

Assistir o filme de 1985, disponível na HBO é um bom começo. O estilo melodramático de Spielberg cai bem e interpretações inesquecíveis marcam a versão. O filme teve 11 indicações ao Oscar de 1986, incluindo filme, atriz principal e duas para atrizes coadjuvantes. Mas, não levou nenhum. Por sua vez, naquele ano Whoopi Goldberg ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama.

Também ler Alice Walker é fundamental e demandas do mulherismo, o feminismo negro, ganham força na sua poesia e prosa (segue link de livros da autora). Mas, confira o romance histórico Um Defeito De Cor, de Ana Maria Gonçalves, que traz também uma história de reencontro. Aqui de Luísa Mahin que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas.

Serviço
De 12 de novembro a 19 de dezembro – Sexta às 20h; Sábado às 16h e 20h30; Domingo às 17h. (Acesse a agenda do e-Urbanidade e saiba mais.)
12 anos.
180 minutos.

Ficha técnica
Texto: Marsha Norman
Músicas: Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray
Versão Brasileira: Artur Xexéo
Direção Geral: Tadeu Aguiar
Direção Musical: Tony Lucchesi
Elenco: Letícia Soares, Wladimir Pinheiro, Flávia Santana, Jorge Maia, Alan Rocha, Ester Freitas, Erika Affonso, Analu Pimenta, Suzana Santana, Cláudia Noemi, Hannah Lima, Caio Giovani, Renato Caetano, Thór Jr, Gabriel Vicente, Leandro Vieira, Nadjane Rocha.
Assistência de direção: Flávia Rinaldi
Produção de elenco: Marcela Altberg
Cenário: Natália Lana
Figurino: Ney Madeira e Dani Vidal
Desenho de luz: Rogério Wiltgen
Desenho de som: Gabriel D’Angelo
Coreografia: Sueli Guerra
Assistência de cenografia: Gisele Batalha
Assistência de Coreografia: Olívia Vivone
Assistência de direção musical: Thalyson Rodrigues
Assessoria de imprensa: Morente Forte
Mídias sociais: Rafael Nogueira
Designer gráfico: Alexandre Furtado
Produção executiva: Edgard Jordão
Coordenação de produção: Norma Thiré
Produção Geral: Eduardo Bakr

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