Crítica: A Boa Esposa, direção de Martin Provost

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Foto: Divulgação

Em A Boa Esposa, após a morte repentina do patriarca da família, Paulette (Juliette Binoche), a líder de uma escola que treina moças para serem perfeitas donas de casa, descobre que a instituição está à beira da falência. E par ajudá-la, entra em ação a irmã de seu marido, Gilberte (Yolande Moreau), e a freira Marie-Thérèse (Noémie Lvovsky). E esse é o principal conflito do filme, que acontece devido às inúmeras restrições que as mulheres sofriam.

Foto: Divulgação

O filme se passa no ano de 1968, em Boesch, Alsácia, e o que hoje entendemos como atos abusivos, naquela época eram comum. Chega a dividir a população entre os que se agarravam aos velhos costumes e os que tentavam mudar os hábitos. Mas justamente por conta das novas correntes de liberdade, a instituição já passava por crise.

Martin Provost explora diversas questões importantes nessa sátira. Na verdade é esse ponto que faz com que a trama se torne leve e divertida.

A proposta de Provost, acima de tudo, é quebrar tabus eliminando o conservadorismo e os preconceitos, por meio do humor. Afinal, mesmo em 2021, o machismo continua a ser um dos maiores motivos de morte de mulheres.

O elenco tem papel fundamental nesse objetivo, Provost acerta em cheio na escolha das mulheres de meia-idade que formam um trio divertido. Binoche, Moreau e Lvovsky trazem toques de comédias às cenas melodramáticas e são o coração do filme.

As alunas da escola além de explorarem a própria sexualidade também querem bater de frente com a instituição e sonham em poder decidir o rumo de seus próprios futuros. O elenco mais experiente conta com grandes atuações, mas as atrizes também chamam a atenção.

Também é preciso citar a direção artística que traz uma estética brilhante ao retratar as protagonistas femininas. Para colaborar com uma história trabalhada em cima de preconceitos e liberdade feminina, o diretor de fotografia Guillaume Schiffman explora planos mais fechados. Assim, expande-se aos debates imagéticos feito por flores e jardins, quadros da família e papéis de parede florais, formando a imagem de mulheres “recatadas e do lar”. 

É difícil acreditar nas sete regras apresentadas no início do filme e que soa como algo ridículo. Mas é interessante olhar para o passado e ver como nossa mentalidade continua mudando. Essa sátira sobre as mulheres de anos atrás não para de dialogar com o feminismo atual.

O olhar contemporâneo em satirizar as condutas de homens e mulheres faz com o que o longa seja composto por naturalidade, partindo do senso-comum. É essa naturalidade que vemos quando, do dia para noite, as protagonistas estão experimentando calças, cabelos curtos. E se tornando feministas prontas para ir em direção às liberdades individuais e ficarem livres dos hábitos antigos.

O Que as Mulheres Querem é um outro filme francês que lembra muito essa naturalidade e nenhuma sutileza quando falamos das transições das cenas. Pode-se dizer que essa comédia que conta a história de 11 mulheres do século XXI, transpõe-se na personalidade do trio de A Boa Esposa.

A maior comprovação da não sutileza imposta pelo diretor chega nos minutos finais do filme, com apresentação de um número musical. As mulheres conquistam sua liberdade e vão em direção à emancipação feminina, com um ato aleatório e descontraído fazendo com que não restem dúvidas sobre a pegada leve que o diretor traz à trama.

A Boa Esposa dialoga com o feminismo atual e nos faz refletir sobre como nossa concepção do mundo é baseada em emblemas de nossa época. As cenas bem elaboradas e as falas divertidas e sinceras são a base do roteiro, que reconhece como as diferentes formas de discriminação se cruzam e ampliam as repressões ao gênero.

Apesar da narrativa leve e rápidas transições, todas as cenas são muito bem pensadas e levam questões importantes. E, por fim, somos bombardeados por uma estética de cores vivas e muita música.

Serviço
A Boa Esposa (2020)
Direção: Martin Provost
Duração: 1h49.
Gênero: Comédia
Elenco: Juliette Binoche, Yolande Moreau, Noémie Lvovsky, Édouard Baer, François Berléand.

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